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06/03/2021 às 00h00min - Atualizada em 06/03/2021 às 00h00min

... HÁ SESSENTA E OITO ANOS


 
Era manhã de domingo. Um tempo de verão e céu aberto. Quando dou por conta, 3 ou 4 cavaleiros, montados  em seus cavalos arreados,  por aquela estradinha estreita, ao caminho de chão,  irrompem  ao terreiro de nossa casa. Eram homens de pequenos negócios, moradores da VILA em andanças  de “passeio”, por ali, a despeito da compra de alguma colheita. O meu pai, da soleira de sua casa em taipa e palha, da porta da rua, gritou para a comitiva: “vamos chegar, apear e abancar, senhores todos!”. E então os cavaleiros atenderam ao convite do meu pai. Eu estava ao terreiro, assisti à cena  e ao verbo e nunca me esqueci.

E puseram-se em conversa esticada! A certo momento, o meu pai dá um brado:“Quelé, vem cá!”. E lá vou eu, tímido e submisso! E então aqueles homens, em círculo, puseram-me ao centro e me sabatinaram como quiseram. E no quanto  puderam. E fizeram-me perguntas mil, em torno da minha escolaridade que àquela altura estaria concluindo o TERCEIRO LIVRO na escola do Sertão.  Escola da palmatória e dos joelhos ao caroço de milho, castigos dos quais pouco experimentei. Percebi que os cavaleiros me aprovaram, ao quanto me perguntaram.

Mais tarde pós-almoço, quando os viajeirosretomavam  suas montarias, um deles disse ao meu pai: “aproveita essa cabeça”, uma frase que eu ouvi. Mas que me fazia indiferente, ali por perto. Iniciava-se  ali uma nova maratona de diálogo entre o meu pai e oscircuntantes. E acabei, no ano novo, indo morar na casa de um daqueles cavaleiros. E eu, criança, longe de imaginar que ali se escreveria páginas que demarcariam fronteiras do meu destino e da minha vida.    Eis a vida!!!!

O tempo passa e pouco depois numa madrugada fria, montei à garupa do cavalo de meu pai e lá vamos nós com destino à VILA (que era como a gente do interior, chamava a pequena cidade), um destino até então não sabido e sequer jamais imaginado. Na VILA, naquela mesma tarde,  fui com o meu pai à casa da Diretora do Grupo Escolar, esta que me submeteu a uma sabatina-vestibular.  A diretora me espremeu, moeu, contorceu, retorceu,  numa maratona de perguntas=mil, levando-me ao limite. Quando imaginei que tudo estava concluído veio uma nova bateria: agora em operações de somar, subtrair, multiplicar e dividir.

E quando eu imaginava respirar aliviado,  agora eram exercícios em cópia e ditado –que eram exercícios escolares de velhos tempos colegiais no ensino público. Além de “prova dos nove” que eu herdei “de cór e salteado” na escola do sertão e da palmatória, do que, como dito, muito pouco ou quase nada experimentei, tal o meu desempenho escolar, ainda nesse meu  nada tolerante “jardim de infância”.

Como eu havia concluído o TERCEIRO LIVRO na escola do interior e apresentado resultado satisfatório na sabatina que durou uma tarde inteira, ao invés de matricular-me no 3º ou 4º ano,  a diretora sugeriu que eu fosse matriculado no  SEGUNDO ANO PRIMÁRIO. E o meu pai disse  amém!! Um baita castigo e retroativo para quem deu boas contas da escolaridade inicial.  Penso eu, hoje!

Na peleja da escolaridade no “curso primário” (que era assim como se dizia), aconteceram alguns fatos interessantes, interpreto eu. Certo dia, faltaram duas professoras, a do segundo ano e a do quarto ano. A diretora, rigorosa e jogo duro, viu-se forçada a dispensar o meu segundo ano e foi fazer uma revisão no quarto ano, mas sem antes me pegar pelo braço, ali único e exclusivo, debaixo de um decreto: “Você fica comigo”. Momento este que sobra matéria para um “capítulo extra”, por conta da justificação que se precisava fazer naquela minha atual moradia (... ...)

As perguntas em forma de revisão e cobrança, tonitruavam naquele quarto ano até que lá veio uma em que a turma engatou. Era um tempo em que a gente estalava os dedos, sacudindo a mão, sinalizando que sabia da resposta. Lembra? Depois que todo o quarto ano passou batido ela me dirigiu a pergunta eu respondi: DECRESCENTE!!! O quarto ano emudeceu e eu soube depois que deveria ou poderia ser promovido de ano, já no começo do ano, mas isso não aconteceu.

Outro fato é que em pleno quarto ano, por fatores e saúde (sarampo + catapora) fiquei dois meses seguidos fora de sala de aula. No fim do ano fui aprovado. Com a nota SETE. Na época a nota SETE era de qualidade inferior e a diretora sugeriu ao meu pai que eu ficasse REPROVADO e repetisse o ano. E meu pai disse amém! Uma santa injustiça!

O certo é que dali em diante - a partir dos sete anos - eu só voltaria à casa paterna durante as férias escolares com direito, no mínimo, a uma taca em cada féria, época em que o meu pai me punha na roça de igual para igual com outros trabalhadores seus, no mesmo eito, na mesma tarefa. Dessa experiência, decorridos tantos anos, até hoje me ponha uma sala, SESSENTA OUVINTES, um quadro e um giz e eu dou uma aula sobre as tarefas roceiras, todas e quaisquer delas. Em detalhes. E pode perguntar. Até hoje!

Hoje eu conto essa “resenha”, com o diletantismo de quem brinca com a realidade. Realidade de quem nunca brincou.  Esse enredo tem vários outros capítulos, todos entremeados dos mesmos seguimentos e da experiência que me ensina que... “cada qual para o que nasce...”. Sim, porque enquanto “o mundo dá voltas e a vida continua”, olha eu aqui – revivendo há 68 anos atrás...
 
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CLEMENTE VIEGAS

CLEMENTE VIEGAS

O Doutor CLEMENTE VIEGAS e advogado, jornalista, cronista e contesta o social.

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