MENU

06/02/2021 às 00h00min - Atualizada em 06/02/2021 às 00h00min

Cláudia, no The Voice


​Somos condenados ao esquecimento. Mas um dia qualquer, saímos do túmulo da memória e damos a cara a dizer ao mundo: - Estou aqui! Ainda te lembras deste esquecido mortal? E a gente, na dúvida do tempo, coça os ralos cabelos e pensa, pensa, tentando passar o filme no qual aquela figura tinha uma presença viva e cheia de graça, como se fosse uma garota de Ipanema sonhada na canção de Tom e Vinícius. Após todas as interrogações íntimas, chega-se a uma drástica e uma tanta envergonhada conclusão: - Não, não lembro bem. Você parece... Aí o esquecido nos conduz, com um sorriso maroto, ao túnel do tempo, e lá o encontramos numa mesa de um bar, num banco de escola, numa sala de espera, ou como um anônimo companheiro de sobrevivência na luta pela vida. Tiramos a fórceps, num ímpeto de desvendar o passado, o pano do palco agora não mais iluminado pela memória. Lá está ele ou ela. Ah!, sim, és tu, suspiramos aliviados dessa fragilidade mental.

Quase não vejo televisão aberta. Não é por preconceito. Não, não é bem por isso. É que os programas têm uma linguagem que não se coaduna com a minha. Não que eu queira trazer para o presente as atrações de auditório que faziam a alegria do rádio ou da televisão dos anos 60 ou 70: Chacrinha, J. Silvestre, Flávio Cavalcanti, Lima Jr., e ressuscitar do tempo programas como Esta Noite se Improvisa, Um Instante Maestro, A Grande Chance, Papel Carbono, O Domingo é Nosso e tantos outros. E ainda havia os festivais das canções, donde despontaram grandes artistas populares como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Edu Lobo, Geraldo Vandré, Sérgio Ricardo, que, no festival de 1967, incomodado com as vaias (o protesto desses disputadíssimos eventos), quebrou o violão, por não poder cantar e fazer a defesa de sua música. E, num gesto de ferocidade incomum, destruiu, com a raiva da decepção, o seu instrumento musical, que o ajudou a fazer a melodia do seu canto. Mas a juventude tinha os seus ídolos e por eles torcia com uma volúpia insaciável, como ocorreu na disputa final de um dos festivais entre Sabiá, de Tom e Chico Buarque, canção vitoriosa, e Pra não dizer que não falei de flores, a belíssima e inesquecível criação de Geraldo Vandré, que se transformou no hino da liberdade contra a ditadura militar.

O The Voice, onde, na última apresentação, esteve concorrendo a cantora Cláudia, tem a força de reviver grandes vozes do cancioneiro popular brasileiro e belíssimas canções, compostas por muitos dos seus intérpretes. Não tinha ideia de como era esse programa de TV. Fui convidado por minha mulher, Jacirema, para assistir ao programa The Voice. A princípio, esbocei alguma resistência. Mas aceitei o convite, tendo sido premiado com a apresentação de Cláudia, cantora que já fez grande sucesso no Brasil e no exterior. 

De início, fiquei na dúvida se se tratava da cantora Cláudia, que, pela gravadora Odeon, fez imenso sucesso nas rádios do Brasil (FM do Jornal do Brasil, Mauá, Rádio Nacional, Tupi, Globo), ao interpretar, com uma releitura diferenciada, a música Jesus Cristo, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos. Isso pelos anos 70 a 71. Lembro que estava passando uma temporada no Rio de Janeiro e na iminência de me formar em Direito. Morava numa parte de uma quitinete ao lado do Teatro Novo e nas proximidades do ainda existente Correio da Manhã. Nas primeiras horas do dia, ligava um radinho de mesa. Sintonizava na rádio Jornal do Brasil, cuja programação era de notícia e música. E logo surgia a voz de Cláudia cantando, de um jeito cativante e único, Jesus Cristo. Passei a acompanhar a sua trajetória artística, devotando admiração à sua belíssima voz e a sua impostação interpretativa. Comprei Lp’s e depois CD’s, que ainda os tenho até hoje.

Deixo de lado a grafia do seu nome. Para mim, é Cláudia com i. Foi uma cantora que teve uma carreira de premiação, além de ser ganhadora de festivais. Antes da sua apresentação no The Voice, houve uma pequena referência a sua vida artística. Em seguida, começou a cantar a música Deixa Eu Dizer. O júri, formado por quatro celebridades dos tempos atuais, ficou inerte. Aí me veio a preocupação: será que vão deixá-la a ver navios? Felizmente, no finalzinho, na última frase da canção, a outra Cláudia, a Leite, hoje celebridade, moveu a sua cadeira e perguntou num misto de dúvida e espanto: Você é a Cláudia que gravou essa música?! Cláudia, a não mais celebridade, a cantora de 72 anos, respondeu afirmativamente. E a baiana Cláudia Leite traduz numa pequena frase a sua perplexidade: Meu Deus! ...e cresci com você como referência. Com esse diálogo, a minha preocupação se esvaiu e se transformou num contentamento, ao ver uma grande artista, de voz e interpretação sublimes, posta no esquecimento da história, ser resgatada e salva por uma jovem celebridade, que teve um gesto reverencial de não ficar de costas para uma artista que, com o seu canto, enriqueceu a história da arte musical brasileira.
Link
AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

Tags »
Relacionadas »
Comentários »
Loading...