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30/01/2021 às 00h00min - Atualizada em 30/01/2021 às 00h00min

A vida e o Cotidiano


 
Será que perdemos o sentido de comunidade? O dia a dia - o cotidiano - submergiu com a nova, mais apressada e consumista sociedade, deixando a antiga e envelhecida soterrada pelos novos valores ético-sociais e econômicos? Será? Parece que sim. Ou, melhor dizendo, não sei bem, ainda estou a procurar resposta para essas indagações. Nessas mudanças, insisto, como se fosse um arqueólogo a revolver o passado, em preservar alguns desses valores ou amizades que se encontram nesse passado, o qual teima em estar presente. Mas, qual nada! Visito, como se buscasse na recordação dos lugares e das casas, as ruas por onde joguei bola, empinei papagaio e dei os primeiros passos para o amadurecimento. São as mesmas ruas, apenas revestidas de alguns retoques que as tornam com um sorriso mais elegante e uma indumentária com alguma modernidade, como se fosse o velho que sombreia as cãs para parecer mais renovado. Mas o tempo é um companheiro que está sempre a nos acompanhar e faz a fotografia eterna do nosso cotidiano. Nós somos o que somos. A vida não é uma atividade épica; ao contrário, está repleta de banalidades, ainda mesmo quando estamos realizando uma atividade que o mundo outorga a ela o certificado de honra ao mérito. Vive-se muitas vezes o engodo de ser feliz.

Estou às voltas com a leitura do filósofo Luiz Felipe Pondé: Filosofia do Cotidiano, um pequeno tratado sobre questões menores. Sinto-me bem ao caminhar por esse caminho, que não exige profundas e desnecessárias reflexões. Quase sempre é nas insignificantes questões que encontramos respostas para os tormentos que nos azucrinam. Estamos a buscar o sentido das coisas. Por que existe o dia? Por que a noite? Por que ser honesto? Por que amamos e por que odiamos? Por que estudamos ou por que não estudamos? O que é a vida e o que é a morte? São questionamentos, inúmeros deles, que nos perseguem a partir do momento que nos entendemos como seres que pensam. Mas... uma certeza: não somos apenas um gato ou um cachorro fiéis, embora se dê a esses animais um amor maternal ou paternal.

Falava do livro de Luiz Felipe Pondé. Interessante a sua leitura. O filósofo nos convida a pensar sobre o amanhecer e acordar, a realidade e a fantasia, relacionamentos e afetos, o envelhecimento e a solidão, ser rico ou ser lixo e o medo, sentimento este que tem sido o termômetro do enfrentamento da vida nesse mundo em que vivemos que nos desafia a vencer as imtempéries, que são postas na trilha de nossa ansiedade para chegar a algum lugar, às vezes um sonho inacessível. Nessa leitura descompromissada, Pondé nos alerta que “o mundo não é um mar calmo de evidências. É um oceano cheio de pequenas tempestades a serem vencidas. O cotidiano, nesse percurso, não é a mera passagem das horas, é o cotidiano contemporâneo, permeado pelo caráter histórico desta época em que vivemos. Um cotidiano histórico. É uma história do cotidiano.” Há, nessas ponderações filosóficas, um sentido de alguma verdade. Se é absoluta ou não, depende da perspectiva do sentir. Ao falar sobre o medo, esse sentimento que nos atormento, porquanto o fluir da vida, como fora no passado, segundo nos diz a história, lembra-nos o temor que tinha o navegador quando se postava no comando da nau em busca de encontrar novas terras.

Pondé, nesse seu pequeno tratado de questões menores, especula sobre o medo que nos é imposto pelos novos valores na convivência com o outro: “Se há uma coisa certa em nosso cotidiano contemporâneo, é o medo. O aumento da informação e as inseguranças da vida se tornaram, aparentemente, insuportáveis. Entre as paranoias contemporâneas, uma me chama atenção: o medo do outro. (...) Se no atacado fala-se de ética do outro, no varejo do dia a dia a tendência parece ser de aumento da desconfiança.”

O medo é tão cruel que se constitui em fator causal da violência. Não só a violência do desamor e do ódio, mas a violência da ignorância que torna as pessoas bárbaras na concepção de sua própria existência. Nesta pandemia, que avassala o mundo inteiro, superando as dificuldades científicas, chegou-se às vacinas. Ainda assim, há aqueles que, fundamentados na ignorância do medo, em prejuízo do outro, a quem deveriam sacrificar-se, e, sob os argumentos mais bizarros, afirmam, na suas convicções patológicas, que não tomarão a vacina. Isso em prejuízo de si próprios e de toda uma comunidade. O medo, o ódio, a ignorância, a falta de humanismo e de amor têm feito deste oceano por onde a vida trafega uma luta insana para evitar as tempestades.

Enquanto isso, como um bálsamo, é bem mais cômodo viver o cotidiano de Chico Buarque (Todo dia ela faz tudo sempre igual / Me sacode às seis horas da manhã / Me sorri um sorriso pontual / E me beija com a boa de hortelã...) E o canto poético de Cecília Meireles: ser apenas poeta, porque, em que pesem todas as sofrências, cantamos e existimos.
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AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

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