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25/12/2020 às 00h00min - Atualizada em 25/12/2020 às 00h00min

Confissões natalinas


Foi dito ao menino que o Natal estava chegando. E ainda lhe disseram que o Papai Noel passaria com um saco nas costas cheio de presentes. Presentes? O menino se perguntou, com alguma dúvida. Na sua vivência, não tinha lembrança da existência de presentes. Não sabia o que era. Na noite prometida, deitou-se ainda mais cedo. O vira-lata ficou ao seu lado. Não o deixava. Apareceu um dia em casa. Magro, pulguento, com fome. Deu a ele uma parte da sua comida. Ele não quis mais ir embora. Ficou por ali, e foi ficando. Dormiu. Sono profundo. Acordou, pensando no Papai Noel. Já ouvira falar dele. Nada. E os presentes? Nada. Nem ficou triste, nem alegre. Ainda não encontrara na sua vida esse Papai Noel. Estalou os dedos, assobiou e tomou, em companhia de Bento, o vira-lata, o caminho do mundo. Talvez encontrasse o Papai Noel de que tanto lhe falaram. A carregar o saco de presentes. Esperançoso, sonhava em ter um. A vida não estava de graça.

Era uma mulher sonhadora. Tinha todos os sonhos. Mas o maior de todos era dançar. Gostava de dançar. Insistia em dançar com ele. E lhe dizia: -Vem, vem dançar comigo. Bamboleava o corpo, com frenesi. E ele: não. Não era bem má vontade, coisa sem importância. Muito longe disso. Era ocupado. Ocupadíssimo. Negócios e mais negócios. Até que ele dava uns passos. Na véspera do Natal, foi um desses dias em que ela estava ansiosa para dançar. Balançava-se de um lado para outro. E ele, de jeito nenhum. Tinha coisas pra ocupar-se. Saiu para os seus afazeres, sem atender aos desejos dançantes dela. Para se ver livre da solidão da tristeza de dançar só, fez a decoração natalina a casa. Da sala à cozinha, sem deixar de lado o quarto, onde alguns desejos dela eram atendidos, com algumas reservas, próprias de uma pessoa de negócios. Muitos negócios. Ela em casa, dançando com a sua solidão. Sozinha, mas insistindo. De tanto insistir, despertou a curiosidade do vizinho. Juntos, mataram a solidão, e dançaram à vontade. Quase meia-noite, ele chegou. Após anos e anos, resolveu satisfazer o desejo dançante dela. Convidou-a para dançar. Ela: - Cansei de dançar nesta vida! Nunca mais desejou dançar. Ou se desejou...

Amanheceu uma manhã de sol. Sem calor intenso. Tomou o café. Uma tigela, com pão picado. Pão massa-grossa, que estranhamente passaram a chamá-lo de pão-de-sal. Até ali, tudo normal. Apenas teve um leve despertar na madrugada por um pipocar de foguetes e gritos, que vinham da rua. Tomado o café, saiu à porta. Percebeu um movimento de crianças. Uns com carrinhos e bolas de borracha, e as meninas com bonecas. Soube que era Natal. Não ficou alegre nem triste. Veio-lhe uma leve curiosidade de saber o que era o Natal. Na alegria da exibição dos brinquedos, ninguém lhe dizia qualquer coisa que matasse a sua curiosidade. Esqueceu. Teve, como rotina, que ir à casa de um parente. Ao chegar, recebeu um brinquedo: uma baratinha amarela, que representava um carrinho de corrida. Pegou, olhou, apalpou aquela preciosidade e logo voltou pra casa. O sol intenso se fora. Caiu dos céus uma leve chuva. Depois mais forte. Pegou uma tábua lisa e, debaixo da cobertura de palha da casa, sem respingo de goteiras, fez dela uma pista de corrida. E a baratinha amarela subia e descia. Percebeu que tudo aquilo era Natal. Que Jesus Cristo estava a lhe trazer felicidade na bondade daquele carrinho de brinquedo, que teve uma vida eterna, até hoje.

O pai daquele menino era presepeiro. Sem ser bem isso que se está pensando. Aproximava-se o mês dezembro, mês de festa, mas de muito trabalho. O pai do menino, um carpinteiro como José, tirava do seu tempo, exíguo e dedicado ao trabalho de dar subsistência a sua imensa prole, algumas horas para fazer o Presépio em homenagem ao nascimento de Jesus. Era um hábito. Ou, como divulgavam aos quatro cantos os bons amigos, essa dedicação, como ritual, constituía uma espécie de oferenda, com a finalidade de expiar os pecados acumulados no ano inteiro. Com todos os sacrifícios, na antevéspera, chovesse ou fizesse sol, o Presépio, estava pronto. Todo coberto de ariri e murta, além das figuras míticas e religiosas que fazem parte da cena bucólica onde Jesus nasceu, sem faltar qualquer dos figurantes. Logo chegava janeiro, quase um passo na frente, mas, para o menino, uma eternidade, a esperada queimação de palhinha. Todos em volta. Muita cantoria. E, no meio da sala, o fogareiro em brasa. Final da ladainha e do canto: as folhas secas que ornamentavam o Presépio eram retiradas e incineradas no fogo ardente do fogareiro, sob o canto improvisado do coral dos vizinhos. Depois de tudo isso, vinha o tão esperado chocolate com bolo. O menino corria pra mesa e enchia a barriga de tudo. Uma das vezes, foi um estrago. A rede ficou cheia dos efeitos do excesso. Mas ficava a vontade do ano que vem, dita no refrão: Adeus meu menino / Adeus meu amor / Até para o ano / Se nós vivos formos. Tudo isso é o milagre da oração do Natal. Há muito a ser contado.
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AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

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