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22/12/2020 às 00h00min - Atualizada em 22/12/2020 às 00h00min

Coluna do Illya


Não! Não "Cala a boca, negro"
Somos frágeis, enquanto humanos, mais ainda, enquanto ser. Precisamos a cada dia de exemplos que, nos levem pelos caminhos a buscar direitos (depois de respeitá-los, claro). Precisamos de um espelho. Não é exagero dizer: de ídolos, de heróis. Esses, que respiram e inspiram atos na construção da cidadania. Acredito vir dessa busca a sinergia que nos identifica com um livro, com uma música, com o esporte e suas diversas modalidades.  

E veio de uma delas, o futebol no mais sagrado dos templos, o Maracanã, a atitude capaz de melhorar “as gentes” e seu coletivo, cidade e comunidades. Gerson melhor jogador em campo, dele saiu, como seu melhor cidadão.  Agredido, ofendido em sua cidadania por um jogador que deveria ser, apenas seu adversário ao ouvir o “Cala a boca, negro”, não se calou.

Quis o destino que o vergonhoso ato provocado por Índio Ramirez não tivesse milhares de testemunhas nas arquibancadas, assim, como as circunstâncias que a vida trás, do outro lado do meio campo estivesse o time do Bahia. Bahia que sedia em sua capital, Salvador, a cidade mais negra do Brasil. Esqueceu Ramirez que seus direitos assegurados enquanto trabalhador lhe impõe deveres, entre eles, o de respeitar o povo que acolhe e lhe dá convivência.

Se Ramirez fez feio, Mano Menezes conseguiu fazer pior ao ser procurado pelo jogador do Flamengo, saiu minimizando o episódio e assim reagiu: “Agora virou malandragem”.  Altaneiro, o jogador lhe devolveu: - Malandragem? Malandragem, não. Você me respeita! Mostrando um caráter que de ‘mano’ nada tem, ainda quis ‘cavar’ a expulsão da vítima, levando ao juiz (e que juiz) uma falsa acusação. Não foi à toa, que assim que demitido, divulgou em comunicado: “Sobre o jogo de hoje, Mano condena qualquer ato de racismo e reitera que a violência contra quem comete não é caminho para solucionar a questão. E apoia qualquer avaliação e julgamento para que o futebol seja sempre referência positiva na nossa sociedade.

Crescemos juntos.

Estivesse vivo, certamente Nelson Rodrigues o classificaria como O anjo decaído. O que dizer de um sujeito que diz condenar o racismo, mas em seguida, fala que a violência contra quem comete não é caminho para solucionar a questão. Não é! Mas quem falou em violência se o único ato violento ali, era o “Cala a boca, negro”, seguido da sua impoluta e cafajesta morbidade em querer fazer da vítima, o culpado. Não há outra tradução para a frase que ainda insiste em sair dos podres porões da senzala, equivalente que é, a quem manda o outro se calar, porque ele, o feitor, é o senhor da razão.

O agora ex-treinador, a partir dos últimos resultados colhidos e do episódio que marcou o fim de semana, se não morreu para o futebol, vai ficar um bom tempo no purgatório. No além terá tempo para entender que não basta combater o racismo, mas que é preciso ser antirracista.

- Aí sim, cresceremos juntos. Obrigado, Gerson.
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ILLYA NATHASJE

ILLYA NATHASJE

ILLYA Ulianov Buby NATHASJE é publicitário e Diretor Comercial de O PROGRESSO.

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