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19/12/2020 às 00h00min - Atualizada em 19/12/2020 às 00h00min

Isso é mesmo verdade?


Essa pergunta nos é feita a todo instante. Há sempre uma dúvida sobre a verdade. Talvez, por isso, ao ser perguntado sobre o que é verdade, Nietzsche respondeu que essa é a pergunta mais sutil de todas. Na atividade jurisdicional, em que o juiz ou a juíza julgam o conflito entre as partes, seja na relação privada, seja de natureza pública, a verdade se extrai das provas. Ou seja: os fatos alegados devem ser provados, para, desse exame criterioso, concluir-se ou não da existência da verdade. Mas, ainda assim, fica a interrogação: qual a verdade? Quando Pilatos perguntou a Cristo o que é a verdade, a resposta foi um silêncio. Jesus preferiu nada responder, porque Pilatos era o todo poderoso representante do César romano. Mas em João, é Ele quem diz: eu sou o caminho, a verdade e a vida. E acrescentou: ninguém vem ao Pai, senão por mim. Nessa concepção de fé, de religião, essa é a verdade para aqueles que crêem.

Bem um pouco antes de Jesus, em Roma, corria essa frase que ainda sobrevive entre nós: À mulher de César não basta ser honesta, tem de parecer honesta.” Isso quer dizer que a aparência nem sempre engana, porque pode ser a exigência da verdade ser verdade. Goebbels, o homem forte de Hitler, afirmava a quem quisesse ouvir e acreditar que uma mentira repetida durante muito tempo passa a ser verdade. Não deixa de não ser uma verdade. A fofoca tem um caráter sub-reptício. Com o curso do tempo, propagada de boca em boca, toma os ares de verdade. Como sempre introduzida com as célebres frases: Me contaram... Ah!, fulano, eu soube... Ou, ainda, com aquele jeito enfático de realismo fantástico: Ah!, você não imagina o que eu vi?! E interlocutor, curioso, não deixa a oportunidade de ouro passar: Me conta, me conta. Fala! Quero saber... E a fofoca vai se encorpando, tomando jeito de verdade e com o tempo, de boca em boca, de ouvido em ouvido, eis a inexpugnável verdade. O último a saber chega a dizer: eu vi com esses olhos que a terra há de comer.

Quanto à verdade, o que direi? Não sou adepto do dogmatismo. Por isso mesmo, não sigo a regra daquele esperto personagem da Escolinha do Professor Raimundo; o seu lema: se sei, digo que sei; se não sei, digo que não sei. Às vezes, a gente tem que ser um pouco a mulher de César. A aparência da verdade ajuda muito. Calma. Não pretendo dar mau conselho. Na publicidade, fazer economia se confunde com gastar o seu sagrado dinheiro, para adquirir aquele terno que te faz mais elegante. Nas reformas de governos, flexibilização passa a ter um significado eufêmico de exclusão de direitos, com o aumento da jornada de trabalho, e, assim, quando o empregado é demitido, não é bem demitido, ganho um novo desafio no mercado, já que, desempregado, tem que buscar novos meios de ganhar o pão de cada dia. Essa verdade vai se amoldando de conformidade com as circunstâncias do momento e por imposição da necessidade de lhe dar aparência menos agressiva aos nossos sentimentos.

Cada um tem a sua verdade. Ouso dizer que não há uma só verdade. Não se trata de mera discussão filosófica. Querem um exemplo recentíssimo? Dou-o. Para muitos rachadinha é apenas rachadinha. Nada tem a ver com apropriação de dinheiro público. E muito menos tem alguma coisa a ver com esses personagens cujos nomes são corriqueiramente citados nos noticiários da nossa grande mídia. Já outros, informados ou desinformados, têm a rachadinha como uma verdade verdadeira e não apenas um simulacro criado pelos inimigos do rei. Por aí a gente já vê que não há uma só verdade. Ela se apresenta ou é apresentada com várias roupas, cores, formatos, podendo ser racista, não ser racista, há a verdade de rico (tem mais sintoma de verdade), a verdade de pobre (menos verdade). E a verdade vai se fantasiando de acordo o status onde ela é plantada, cultivada, alimentada, regada, até chegar ao seu “verdadeiro” tamanho, com o cuidado de não ser uma impostura, porque dizem que tamanho não é documento. Mas, convenhamos, que ajuda, ajuda.

Há pessoas – e mundo está cheio delas – que fundamentam a sua verdade em sua experiência pessoal. Para essas pessoas, a verdade é a sua verdade. Não admitem discussão. O que dizem, dizem, e estar acabado. E clamam a Deus e ao mundo: - Minha opinião é esta. E eu não mudo. A terra é plana, pronto, é plana. Não adianta argumentar-se em contrário. Perda de tempo. E de paciência. Aí sujeito afirma: o nosso país foi o que melhor enfrentou esse a pandemia    do vírus. Perplexo, a outra verdade pergunta a si mesma: - Como?!

Vejam bem como a verdade é um problema a ser resolvido, e isso desde os gregos. Por isso mesmo, não podemos confiar na verdade, até porque confiança é um ato de fé. E como se pode ter fé na verdade que nem sempre é verdadeira?
* Membro da AML e AIL
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AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

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