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12/12/2020 às 00h00min - Atualizada em 12/12/2020 às 00h00min

Racismo estrutural


Não sou bem um cronista. Escrevo, apenas. Ora sai uma crônica, ora um texto que se arvora da veleidade de ser crônica. Mas, por outra, sou um leitor assíduo de bons cronistas. Alguns – a bem da verdade – excelentes cronistas: Rubem Braga, Fernando Sabino, Lourenço Diaféria, Paulo Mendes Campos, Carlos Heitor Cony, Antonio Prata, Carlos Drummond de Andrade, Otto Lara Resende e mais uns poucos outros. Entre as excelências, incluo Machado de Assis, ícone do romance e conto brasileiros, que nos deixou belíssimas crônicas. Isso nos seus Bons Dias! de mil e oitocentos e lá pra trás. O Bruxo foi um dos criadores da crônica brasileira; e o príncipe dessa coloquial narrativa, Rubem Braga. Ao velho Braga devemos a poesia da crônica, pois de criatividade lírica, originária de um quase-assunto, ou mesmo de nenhum assunto, em que perscruta a alma humana, a exemplo de A Borboleta Amarela, na qual acompanha o trajeto de uma borboleta, transformando uma singela imagem num cotidiano narrativo recheado de tonalidade poética.

Mas... o tema do dia não é sobre a crônica, nem sobre cronista. É o racismo, cuja importância alcançou um alto grau de conflito que chegou a suspender uma partida de futebol entre PSG e Istanbul, pela Liga dos Campeões, realizada no Parque dos Príncipes, em Paris. É assim um tema crônico e de crônica, pois vem sendo objeto de discussão no mundo inteiro e nas fronteiras do nosso Brasil.

Cony, cronista acima citado, em 6 de agosto de 2017, na sua coluna semanal da Folha, ao tratar dos problemas que afetam a crônica e o cronista, escreveu que “dois problemas atrapalham os cronistas: muito assunto ou nenhum assunto”. E ressaltou: “Muito assunto provoca um tipo de concorrência, porque todos falam mais ou menos a mesma coisa.” E, claro, na falta de assunto, o cronista dá um jeito de preencher o espaço a que tem direito no jornal, e, agora, em outras mídias (expressão mais moderninha, de uso mais corriqueiro).

Resolvi então enfrentar esse assunto do racismo, tema de debate acirrado, de protesto, de incidência e reincidência, em público e nos locais privados, no mundo inteiro. Para isso, sem querer ser didático, ou professoral, andei fazendo umas leituras. Entre essas leituras, destaco o livro Racismo Estrutural, de Sílvio Almeida, da coleção Feminismos Plurais, coordenada pela escritora e prêmio Jabuti Djamila Ribeiro, e um texto do sociólogo e cientista político Emir Sader, colunista do Brasil247, publicado em 4 dezembro, sob o título O que é racismo estrutural no Brasil? Associei a isso outras leituras, já que o tema tem sido, com amplitude universal, bastante discutido.

Emir Sader faz uma análise de aspectos da história brasileira, destacando que o nosso país foi o último da América a acabar com a escravidão. E o seu fim não acabou com o racismo. “Ao contrário – afirma Sader -, saiu a escravidão, mas deixou o racismo, a discriminação, a segregação e a exclusão social. Os negros são a maioria da população brasileira – cerca de 54% -, são, em sua maioria, pobres. Hoje 2 de cada 3 dos 14 milhões de desempregados são negros.” Conclui: “É algo constitutivo do Brasil como país, vem de sua história, de sua configuração social, do enraizamento em sua prática cotidiana. O combate à desigualdade no Brasil é, antes de tudo, o combate ao racismo.”

O professor, advogado e filósofo Sílvio Almeida, em seu livro Racismo Estrutural, faz um exame histórico e sociológico aprofundado do racismo, classificando-o em três espécies: racismo individualista, institucional e estrutural. O de individual é uma espécie de patologia ou anormalidade, que se manifesta de forma direta, podendo assumir um formato eufêmico de discriminação. O institucional está vinculado às instituições públicas ou privadas; é um racismo de dominação. Um exemplo típico dessa manifestação racista está no filme Luta por Justiça, no qual negros nos EUA são condenados sem ou com provas forjadas e executados. Já o racismo estrutural é inerente à ordem social, econômica e política, que pode assumir a dimensão de um racismo institucional. Exemplo concreto: o assassinato insolúvel da vereadora negra Marielle Franco, que completou mil dias sem resultado efetivo nas investigações e sem julgamento. Também os assassinatos quase que diários de crianças negras, moradoras de favelas, fulminadas por balas desferidas por policiais ou traficantes, constitui racismo institucional, pois produto de uma distópica sociedade caracterizada pela desigualdade, em que população negra é a sua maior vítima. E o mais grave dessas manifestações racistas: é afirmar-se que no Brasil não existe racismo. Vivemos, assim, a utopia de que todos são iguais perante a lei.
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AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

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