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05/12/2020 às 00h00min - Atualizada em 05/12/2020 às 00h00min

Em busca de assuntos perdidos


Nessa busca, poderia falar sobre os 200 anos de nascimento de Friedrich Engels, que, ao lado de Karl Marx, foi um dos fundadores do socialismo moderno. Nasceu em Reno, na Prússia, atual Alemanha, em 28 de novembro de 1820. Segundo Rui Pimenta da Costa, em texto publicado no site Brasil247, “Engels foi também o executor testamenteiro intelectual de Marx, tendo completado e publicado o segundo e o terceiro volume de O Capital, principal obra científica do socialismo em todos os tempos”. Era um burguês liberal, de convicções religiosas protestantes, sendo autor de uma obra seminal - A situação da classe trabalhadora na Inglaterra (1845) -, onde trata, pela primeira vez, da luta de classe entre a indústria (capitalismo iniciante) e os trabalhadores. Marx morreu ainda novo, aos 65 anos idade. Engels discursou no seu túmulo, exaltando a sua importância como pensador dos conflitos sociais e econômicos e afirmou: “O que o proletariado combativo europeu e americano, o que a ciência histórica perderam com [a morte de] este homem não se pode de modo nenhum medir. Muito em breve se fará sentir a lacuna que a morte deste [homem] prodigioso deixou.” E mais: “O seu nome continuará a viver pelos séculos, e a sua obra também!” Uma premonição que se fez realidade. Até os dias de hoje as ideias de Marx (e Engels) são debatidas. Aceitas por uns, como verdade, e repudiadas por outros, como meras ilusões, ou mentiras.

Ainda nessa busca incessante, poderia ater-me ao prêmio Jabuti, o Nobel brasileiro de Literatura. Que bom! Novos valores literários estão sendo descobertos. Todo ano uma nova safra de excelentes escritores. Neste último, do nosso conturbado 2020, foi descoberta, ou redescoberta, a poeta pernambucana Cida Pedrosa, que teve o seu livro de poesia Solo para Vialejo premiado. A poeta vencedora é um dublê de escritora e política, já que, no dia 15 de novembro, foi eleita vereadora do Recife, pelo PC do B. Feliz está Pernambuco: uma poeta premiada com o Nobel brasileiro (Jabuti) e, no plano político, a disputa pela prefeitura entre dois candidatos primos a distância e vinculados à herança do combativo e histórico Miguel Arraes. Tempos novos, condimentados por vidas e velhas vivências que se refazem.

Juntinha a Cida Pedrosa, aparece Djamila Ribeiro, que recebeu o prêmio do melhor livro de ciências humanas, com a obra o Pequeno Manual Antirracista. Suplantou autores da dimensão de Lilia Schwarcz e Heloísa Starling. O Jabuti, com essas premiações, cumpre uma função renovadora importantíssima no pensamento e na arte literária do Brasil. Saímos de um casulo para ampliarmos o foro de debates até então interditado pela elite e democratiza-se esse campo de atuação tanto no âmbito filosófico, sociológico, político e econômico como nas manifestações da escrita.

Na garimpagem desses assuntos perdidos, até porque correlatos, suspirei aliviado em saber que as livrarias de rua estão a se expandir. A notícia me veio na Ilustrada da FS, de 21 de novembro. Diz o título: Livrarias de rua se expandem em meio à crise. E cita a livraria, a Megafuna (que, confesso, desconhecia), que, vencendo a quarentena, está abrindo novas filiais. Do mesmo modo, a Leitura, que, segundo a matéria da Folha, se tornou a maior rede brasileira de livrarias, estando a abrir mais três lojas na região metropolitana de São Paulo. Tudo isso é alentador. Voltamos a ter as livrarias de rua – aquelas que nos dão prazer de estar circulando no meio de tantos livros, manuseando-os com cuidado e muito prazer, num fetiche que só Freud explica. Ou, quem sabe, nem ele explica.

Nessa mesma busca de assuntos, ainda sobre as livrarias de rua, venho a saber que o dono da Livraria Vila, o empresário Samuel Seibel, que, na pandemia, investiu em plataforma de comércio eletrônico, prepara-se para inaugurar três novas lojas físicas da rede. E sabem por quê? Porque houve aumento da venda de livros pela internet.

Ah!, as livrarias de rua. Sempre foi o meu ponto de realização dos meus sonhos. Na época das vacas magríssimas, nem tanto. Ia, chegava, olhava e, quando muito, conseguia ler a capa e a contracapa. Ficava só na vontade. Depois, as vacas foram, aos poucos, engordando, e aí na Entrelivros, do Rio, onde os livros eram expostos aos montes, adquiria uns dois ou três e haja leitura. Ainda por cima, tive a imensa felicidade de ser revisor de editora. Foram quase três anos lendo de tudo. Ganhava dinheiro pra fazer o que me dava prazer. Tanto que li Madame Bovary umas cinco vezes. Não esbocei uma mísera reclamação. Pelo contrário, após Bovary, li outras obras de autores franceses. Era uma delícia.

Retorno ao prêmio Jabuti. A renovação por ele operada não é só de nomes. Sim. Novos estilos. Novas temáticas. Mas, ainda assim, preserva os grandes escritores que estão sempre, sempre, a se renovarem. Machado de Assis poderia concorrer. Hors concurs, claro! Ora direis, não. E eu direi, sim. Cada leitura do Bruxo é uma leitura renovadora, sempre atualizada. Pois bem. O Jabuti deste ano premiou, na modalidade de crônicas, a grande romancista, contista e cronista Nélida Piñon. A obra premiada: Uma furtiva lágrima. É edificante saber que todos esses assuntos nos provocam e nos desafiam a, cotidianamente, com eles conviver. Continuarei na minha busca de assuntos que estejam supostamente perdidos. Nesses 73 anos, completados neste mês de festa, vale a pena essa preocupação lúdica, como uma espécie de revivência de uma vida sempre a se renovar.
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AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

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