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05/12/2020 às 00h00min - Atualizada em 05/12/2020 às 00h00min

SOMBRAS QUE PLANTEI


Eu era um garoto. Tinhas sete anos de idade. Cheguei do interior para dar continuidade à escolaridade na Vila. Conclui o terceiro livro na escola da palmatória, no sertão. Enfrentando uma sabatina como maratona, dei conta dos exames e questionamentos e contas e cópias e ditados e múltiplas perguntas e de tudo enfim. Ainda assim a Diretora achou por bem em me matricular no 2º ano primário. Consultou com o meu pai e este disse: Sim senhora! A senhora é quem sabe”, lembro-me. Meses depois quando respondi a uma pergunta que o 4º ano não respondeu, soube depois que teria sido um erro a minha matrícula no 2º ano, mas isto é um tema para outra vez. Talvez.

Pois bem, naquele meu querido e inesquecível Grupo Escolar – hoje das minhas saudades já aliviadas - eis que todas as manhãs, perfilados por série, à batuta da férrea, ferrenha e implacável Diretora, cantávamos Hinos. Hino à Pátria; Hino à Bandeira, Hino à Independência, Hino Nacional e tantos outros. Também cantávamos o HINO ÀS ÁRVORES - cuja prática era, ao que mais tarde compreendi, a nossa iniciação ao civismo, uma conduta que a nossa soberana diretora levava extremamente a sério.

Entre os hinos que cantávamos, um deles me despertava particular atenção: O HINO ÀS ÁRVORES. Havia uma estrofe que dizia: “... ou flores ou fruto / ou sombra dará.”. Era esse sombra darás que eu entendia com palavra única: “SOMBRADARÁS”!  Era aí que eu me perdia, mas... ainda assim, o HINO ÀS RVORES, tinha a minha particular predileção e atenção. Mas aquele “SOMBRADARÁS”... ... (aquele sombradarás)... ... me deixava perdido. O que só mais tarde vim a me encontrar.

E assim o mundo foi dando suas voltas e quando me tornei dono do meu nariz, comecei a plantar árvores e a plantar sombras, sempre de olho e à lembrança do velho hino de um tempo primário: “... ou flores ou fruto ou sombra dará”. Em meio às tantas sombras que plantei dei destaque ao açaí. E as palmeiras de açaí que plantei à área livre, à frente da minha morada, dei nome a pranteados familiares meus, inclusive padrinho e madrinha. Mas... assim como estes partiam para o infinito, eis que as juçareiras a que lhes dei nome, também já completaram o ciclo da vida – em princípio, meio fim.

Agora novamente, à calçada da minha morada - volto a emoldurar uma lateral do quarteirão da cidade. E então plantei árvores e plantei sombras. Desta vez, após detalhada consulta e opções, escolhi IPÊ DE JARDIM. Escolhi pela sua folhagem espessa e farta e pela sua floração. São cinco mudas, todas cercadas por uma proteção especial, de um “quadriculado cônico invertido”. Plantadas as mudas, passei a dar atenção seguida àquelas cinco jovens criaturas. E vejo então o quanto cinco crianças, todas da mesma gênese, do mesmo DNA, da mesma espécie e da mesma idade, todas ao mesmo berço, cada uma em “seu quadrado” já segue ao seu próprio descortino. Como quem ruma à sua própria “personalidade”; a sua própria formação. Incrível, mas é assim!

A número um – a primeira a ser plantada ficou estática, parada, durante uns 40 dias, sem dizer a que veio. Tive a impressão de que o seu broto que ao seu píncaro - seu olho - estaria comprometido - seco, morto. E daí o seu atrofiamento, imaginei.  Ficando esse período sem “desarnar” com diria Seu Bernardo, um antigo meu ex-chacareiro que cuidou de centenas de árvores frutíferas. E foi personagem dos meus textos. Todavia agora, despertou, “desarnou” e está linda, charmosa. E vai crescendo vigorosamente.  E eu, feliz da vida!

A número dois – Essa sempre foi a maior de todas.  Não é um vara pau, porém tem crescido mais que as demais. Já está acima de sua proteção cônica, em talas de PVC; todavia como diz a lei da vida que “quando maior é árvore, maior é o tombo”, vejo que ela é a que mais sofre pelo açoite do vento. Já penso até numa escora especial para enfrentar as intempéries naturais.

A número três – A terceira a ser plantada. Essa sofreu um acidente. Sua proteção qual um capacete, foi projetado, caiu ao lado e o vegetal envergou-se. Vi isso às seis da manhã. Às oito quando voltei para cuidar, um estroina e mal caráter, um vândalo e INVEJOSO, quebro-a impiedosamente e sem razão. Fratura exposta! Restando o talo. Aquilo me doeu, me revoltou. Consultei o meu técnico-NATUREZA VERDE, se sacrificaria a planta ou se a mantinha. Ele, em consulta, me orientou a manter a planta por conta de sua “radiculação” (formação originária da raiz) que embora precoce já se fazia regular. Em seguida indicou proceder a um corte em diagonal abaixo da cisão e dispensar-lhe certos cuidados. Pronto! Ela, como quem passou por uma drástica cirurgia, seguida de uma fisioterapia, está recomposta e vem se desenvolvendo regularmente, para a minha satisfação. É visível o transtorno sofrido, mas está se recuperando saudável e feliz.  Está linda! Maravilhosa!

A número quatro – a que fora plantada em quarto lugar – essa lembra uma jovem de cabelos espessos, fartos e encaracolados, qual o visual da juventude atual, espalhafatosa, chamativa. Está a médio crescimento e me chama a atenção pela sua composição, pela copa que nela se desenha. E exerce uma anatomia, uma escultura, um visual diferente, afrontadiço, proposital.

A número cinco - que também me despertou seguidas observações, também está bem. Ela me representa, digamos, a LINHA MEDIANA entre as demais. Espécie de divisor comum. Ela é o parâmetro de base. Quando quero calcular o progresso e a proporção entre as demais ela serve de elemento de comparação, parâmetro de mediação. E assim segue a vida.  Vejo então que as minha cinco criaturas, plantadas à luz de critérios técnicos, observando a distância e as regras de plantio do tipo 40cm X 40cm (profundidade X largura da cavação) - elas, em breve, se converterão numa exemplar moldura que irá emoldurar a lateral da minha morada pela Rua Benedito Leite, no cruzamento da Rua Manoel Bandeira.

Em mim, além dos cuidados que já os tenho, também todos os “instrumentos”  (escada de alumínio + tesoura de poda + disposição + habilidade), indispensáveis a mantê-las jovens, saudáveis e bonitas,  seja para compor o oxigênio servível ao social ao seu alcance; a sombra que servirá de abrigo a quem nelas procurarem abrigo; o verde do ecossistema, o ambiente aprazível, a beleza da paisagem natural que agradará aos olhos e ao coração até dos mais insensíveis cristãos e... em mim, também o prazer, o dever e a alegria da “paternidade” e da cria. E a reconstrução daquele velho Hino das manhãs do meu Grupo Escolar Primário, na estrofe: “...OU FLORES OU FRUTOS / OU SOMBRA DARÁ”.

* Viegas planta árvores e cria sombras. E questiona o social
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CLEMENTE VIEGAS

CLEMENTE VIEGAS

O Doutor CLEMENTE VIEGAS e advogado, jornalista, cronista e contesta o social.

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