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03/12/2022 às 00h00min - Atualizada em 03/12/2022 às 00h00min

SEU SALIM

(O homem do óleo queimado)

CLEMENTE VIEGAS

CLEMENTE VIEGAS

O Doutor CLEMENTE VIEGAS e advogado, jornalista, cronista e contesta o social.

 
Meu irmão e eu construímos um sítio florestal, numa área remanescente dos herdeiros do meu pai, à frente do pequeno Povoado em nossa terra natal, a que dei o nome de MEMORIAL DE ANTONIO DE INEZ, em homenagem ao meu pai. As pessoas imaginam que lá é uma fazenda. Não! Trata-se de uma área de onze mil metros quadrados, toda “brocada por dentro”, coberta em sombras de velhas e novas árvores nativas, ali existentes.

Meu irmão mandou fazer uma cerca potente em cinco ordens de arame farpado, que eu, mais tarde, implementei em quinze (15) ordens de arame. Servida por energia elétrica, lá tem casa, banheiro, tem cacimbão, água instalada e a logística de uma moradia (geladeira, microondas, bebedouro elétrico e uma cozinha completa. Sem móveis convencionais e sem TV.

O local campestre – embora simples e rústico - é mantido limpo (capinado e “rastelado”), organizado e decente, tendo à frente uma área aberta, coberta com PVC. Daqui até lá são 600 quilômetros. E lá se foram SETENTA E SETE (77) viagens, ao longo de uns quinze (15) anos.
A cerca frontal, à margem da estrada, é guarnecida por umas oitenta estacas – alinhadas em fila indiana - que para manter a estética as tenho pintado na cor branca, ora em tinta PVA, ora numa tinta especial, mas... as intempéries do tempo não têm colaborado e a estética volta à “estaca zero”. Resolvi, então, na última viagem, nº 77, pintar as tais estacas com óleo queimado. É aqui onde entra o SEU SALIM

À caça de óleo queimado, acabei sendo indicado ao SEU SALIM, um negociante de óleo queimado, que mora e tem o seu negócio no Bairro Vila Nova, ao lado de uma ponte sobre o Riacho do Cacau. Com esse nome, logo imaginei que o SALIM seria um carcamano (um turco ou libanês), dono de uma fala de sotaques e nasal. Doido por dinheiro. E duro na queda. E convincente. Estava equivocado em minhas previsões.

SEU SALIM é um cara simpático, acessível, tratável. Conversamos longamente em pé, à sua porta, à beira do Riacho do Cacau, na Vila Nova. Debaixo de mil perguntas, deixou-me sublinhado que “compra e vende óleo queimado”. E, pelo visto, está satisfeito com o seu negócio. Disse que o óleo queimado tem múltiplas aplicações e que vende seu produto para fazendeiros, comerciantes e particulares e que existem duas firmas noutros Estados que lhes compram, temporárias, grandes partidas. Disse também que em Brasília (ou Palmas?), tem uma ramificação do seu negócio.

Ao saber da finalidade do óleo por mim pretendido, SEU SALIM, foi de um profissionalismo exemplar. Disse que o óleo adequado é o óleo de veículo a diesel e, no contexto, puxando a brasa para sua sardinha sugeriu-me um PINCHE (viscoso) para mistura, que dá maior duração ao revestimento (pintura) e ao lenho das estacas.

- Era feriado e SEU SALIM não dispunha daquele óleo específico e ideal, naquele momento. Contudo, com absoluta segurança ele estabeleceu de forma repetida e incisiva: “Amanhã, às nove horas”. Logo eu, com um histórico de vida, cumpridor de horários. Eu que venho do internato na Escola Federal (com condutas paramilitares) submetidos à risca, aos horários; que venho de dois empregos públicos e trabalho em Banco e com 50 anos, atento aos horários pré-estabelecidos das audiências judiciais – já passei o do resto feriado atento ao compromisso do dia seguinte. “Nove horas”. E no horário marcado, honramos regiamente o trato.

À saída no portão de SEU SALIM, resolvi dar um “carteirada”. – “SEU SALIM, meu nome é VIEGAS, guarde esse nome.” -” Doutor Viegas?”, ele perguntou. “Ah, já ouvi muito falar esse nome! De onde SEU SALIM?  PELO RÁDIO e por aí, respondeu. Bem ali, ainda que na despedida, estreitou-se a nossa aproximação. E, no conjunto das obras, simplesmente foi LEGAL!!!

- Agora vou levar o jornal que publica este texto ao SEU SALIM, bem como a placa de alumínio que faz “o fotolito”, que faz a impressão do jornal. Afinal, SEU SALIM, é a minha mais nova descoberta: um cara inteligente, dono e uma prosa inteligível, segura e confiável. Um assumido comprador e vendedor de óleo queimado - ele que já foi vendedor de café, rodou o Maranhão e que também já foi caminhoneiro e rodou o Brasil. E, ainda que pelas vestes limpas de SEU SALIM, a gente já vê os rastros do seu negócio: ÓLEO QUEIMADO!

* Viegas é advogado e questiona o social.
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