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26/11/2022 às 00h00min - Atualizada em 26/11/2022 às 00h00min

Erasmo e Gal, sentados à beira do caminho

AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

  
Gal, dia 9 de novembro; Erasmo, dia 22 de novembro. Os dois partiram, deixando uma saudade danada da vida. Tive a ventura de acompanhar esses dois artistas da canção, na trajetória que fizeram entre nós. Algumas noites, entrando pela madrugada, fiquei com Erasmo sentado à beira do caminho, esperando, sem pressa, sem qualquer pressa, o dia amanhecer. Com a companhia de Gal, a chuva de prata caía sem parar. Sem temer o esperar, emergia como do nada o beijo molhado de luz, a selar todo aquele tempo de espera. Os dois vieram para ribalta quase ao mesmo tempo. Gal, com a sua voz de encantamento, a nos incitar o amor. Erasmo, flutuando nos versos poéticos das músicas elaboradas com muita paixão com o seu amigo Roberto Carlos. Aí, me vem esta canção, que me encantou e fez o encantamento de muitos que ficavam na espreita da sua sonhada amada. E os versos que ressaem da canção vão lá no fundo do coração, a nos dizer que amamos e esperamos a amada que não chega:
 
Eu não posso mais ficar aqui a esperar
Que um dia de repente você volte para mim
Vejo caminhões e carros apressados a passar por mim
Tô sentado à beira de um caminho que não tem mais fim
Meu olhar se perde na poeira desta estrada triste
Onde a tristeza e a saudade de você ainda existe
Esse sol que queima no meu rosto um resto de esperança
De ao menos ver de perto seu olhar que eu trago na lembrança
Preciso acabar logo com isso
Preciso lembrar que eu existo, que eu existo, que eu existo...
 
E o esperançoso apaixonado, que sofre, mas não se cansa de esperar, faz esta sua infinita súplica:
 
Só você não vê que eu não posso mais ficar aqui sozinho
Esperando a vida inteira por você sentado à beira de um caminho
Preciso acabar logo com isso
Preciso lembrar que eu existo, que eu existo, que eu existo
 
E aí, Erasmo e o amigo de fé e irmão camarada, Roberto Carlos, apelam para Gatinha Manhosa, o amor dengoso e as brigas, que, numa outra linguagem, fizeram o enredo de grandes e melosos samba-canções: - A gente briga, diz tanta coisa que não quer dizer / Briga pensando que não vai sofrer/ Que não faz mal se tudo terminar/ Um belo dia a gente entende que ficou sozinha/ Vem a vontade de chorar baixinho/ Vem o desejo triste de voltar (da fenomenal Dolores Duran). Em Gatinha Manhosa, o poeta, preocupado com o dengo da amada, apressa-se em avisar-lhe:
 
Meu bem já não precisa
Falar comigo dengosa assim
Briga só pra depois
Ganhar mil carinhos de mim
Se eu aumento a voz
Você faz beicinho
E chora baixinho
E diz que a emoção
Dói seu coração
Já não acredito
Se você chora dizendo me amar
Eu sei que na verdade
Carinhos você quer ganhar
         
Erasmo partiu, foi dar a volta por cima. Não morreu. O Tremendão é eterno enquanto for eterna a sua criativa e poética obra musical. Ele está sentado à beira do caminho, olhando-nos e repetindo esse refrão: que eu existo, que eu existo, que eu existo. Gal está ao seu lado, fazendo coro e também com a mesma convicção da eternidade de sua arte: que eu existo, diz ela. É preciso acabar com essa mania, sem pé nem cabeça, de dizer, aos quatro cantos, que Gal e Erasmo morreram.

Gal, sentada à beira do caminho, com o seu agudo suave, de uma soprano que canta para os anjos, está a repetir: Você precisa saber da piscina / Da margarina / Da Carolina / Da gasolina / Você precisa saber de mim / Baby baby / Eu sei que é assim.

E como nos enfeitiçou e enfeitiça, cantando as grandes canções que a imortalizaram como Divino Maravilhoso, de Caetano e Gil. Chuva de Prata, de Ed Wilson, Baby, de Caetano, Samba do Grande Amor, de Chico Buarque, Meu Nome é Gal, de Erasmo e Roberto Carlos, Festa do Interior, de Moraes Moreira e Abel Silva (essa música fez a alegria dos meus filhos, nas saborosas e alegres festas carnavalescas do Juçara, em Imperatriz; que saudade!...), Sua Estupidez, de Roberto e Erasmo Carlos, e Não Identificado, de Caetano Veloso, esta a minha inesquecível canção, que me faz pensar em Gal quando a ouço na sua insubstituível interpretação:

 
Eu vou fazer
Uma canção
Pra ela
Uma canção singela
Brasileira
Para lançar depois do carnaval
Eu vou fazer
Um iê-iê-iê romântico
Um anti-computador sentimental

Já vamos longe, fico por aqui, sentado à beira do caminho, ouvindo as canções imortalizadas por Gal e Erasmo, carpinteiros de grandes melodias, que continuarão a nos encantar. É o encanto da poesia. Da arte de ser artista. E os dois o foram.
 
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