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29/10/2022 às 00h00min - Atualizada em 29/10/2022 às 00h00min

BASTIDORES DA PISTOLAGEM

CLEMENTE VIEGAS

CLEMENTE VIEGAS

O Doutor CLEMENTE VIEGAS e advogado, jornalista, cronista e contesta o social.

 A PROMISSÓRIA:

Era uma manhã de céu azul. Estão todos numa audiência judicial. De repente, todo estilizado, calçado na bota, camisa mangas longas, chapéu marrom, de massa, entra o pistoleiro. Já veio com uma promissória na mão. E, na mão grande, estica-a ao Juiz: “Eu queria que o senhor me avalize essa promissória”. O Juiz, no teatro, nem sequer olhou na cara do pistoleiro. E declarou ríspido, à frente de todos: “Um Juiz não pode ser avalista”. Do mesmo jeito que entrou, o pistoleiro cascou de volta, agora sem dizer palavra.

Segue a audiência. Segue o mundo dando voltas. Anos mais tarde, o que aparece? Aquela dita promissória em um Processo de Execução, emitida pelo pistoleiro e avalizada pelo Juiz. Acaba não, mundão. Taí NELSON BANDEIRA, mata essa!!!

O JIPE NEGRO:

O jipe negro, zero quilômetro (novinho em folha), de propriedade do pistoleiro, estava estacionado em sua porta, naquela rua dos ônibus. Foi quando um ônibus da empresa daquele povo que não pagava ninguém vivo, riscou-lhe discretamente. Coisa de uns trezentos reais para os dias de hoje. Que nem quinhentos, não era. “Só um risquinho”. O pistoleiro então decretou ao motorista: “Esse ônibus não sai daqui, enquanto não resolver a situação. Vai chamar teu patrão”.

Te lembras do Gengys Khan da Mongólia, aquele que matava e queimava? Pois é, veio o pessoal da empresa de ônibus e já foi logo se entregando: “Pode levar o jipe para a oficina que o senhor quiser que a gente paga a despesa”. O quê???!!! Interrogou exclamando o pistoleiro. Eu quero um jipe zero, igualzinho a esse. E tem mais:  Eu quero um carro à minha disposição enquanto não tiver um jipe zero, aqui na minha porta”. Taí a nota fiscal, pode levar.  Olha a saia justa!

Não teve jeito: a empresa ficou com o jipe do pistoleiro e entregou-lhe outro zerado, como da exigência. É por isso que dizem que “chumbo trocado não dói”. E aí NELSON BANDEIRA, você sabia dessa? Diga lá..

O BANCO:

O pistoleiro, tinha fama de g**l**r*. Mole-mole, ele montou um escritório, no primeiro piso acima da agência bancária, que ficava no térreo. Não deu outra:  vivia dentro do banco com tamanho acesso e intimidade que até parecia que era um “foncionáro”. Só faltava-lhe uma mesa e uma cadeira à sua disposição.

Mais tarde quando ele “supostamente morreu”, o banco era uma floresta inteira, cheia de “papagaios”.  Aí quem ficou uma “arara” foi a direção...

OS RASGA-MORTALHA:

Naquela noite, aqueles dois pistoleiros muito amigos e coniventes entre si, saracoteavam pelos bordéis noturnos da cidade, quais rasgas mortalha em seus voos rasantes, estridentes e tétricos ao agouro de suas pretensas vítimas. Pinto no lixo e urubu na carniça, perdiam era feio diante do mexido dos dois à caça de “garotas”.

Anos mais tarde o Rei da Capadócia, morreu em meio a seus, tombado por um dos seus. Já o outro, o SETE-MORTES, tombou nas garras e na bocarra do Tigre. E tudo sem medo de ser feliz. Mas é como diz o ditado: “Aqui se faz, aqui se paga”. Combina, NELSON BANDEIRA?

NAQUELA TARDE:

Naquela tarde, aquelas duas ferozes facções de pistoleiros, não se sabe por que cargas d’água, resolveram acertas as contas e partir uma para cima da outra. E foi uma intensa troca de tiros, em pleno centro da cidade. Mas, qual naquela canção de Gal Costa – Festa no Interior - que diz que “ninguém matava / ninguém morria”, foi o que aconteceu. Estavam apenas a três (03) quadras da Polícia. Ninguém matou, ninguém morreu. Ninguém foi preso. Não deu em nada. E faz de conta que nada aconteceu.  Naquele tempo pistoleiro tinha nome, sobrenome, Título de Eleitor em dia, comprovante de endereço, CPF, domínio nas instituições e tudo o mais. “Tempo bom”, nera não?

(A sobra desta para a segunda edição, já está preparada. Me aguardem).

* Viegas interpreta e questiona o social
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