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15/10/2022 às 00h00min - Atualizada em 15/10/2022 às 00h00min

“Não chores, meu filho; não chores...”

AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

 
A senadora eleita e empresária evangélica Damares Alves, famosíssima por ter sido uma péssima ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos. E isso, a olhos vistos, por ter jogado na lata de lixo todas essas instituições que lhe cabiam defender e preservar, sob o manto forte da Constituição Federal, ao falar, no meio de muitas crianças espectadoras, fez estas declarações irresponsáveis, comprometedoras e criminosas, cuja matéria assim foi divulgada nos meios de comunicação: “Senadora eleita pelo Distrito Federal e ex-ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves (Republicanos) afirmou neste domingo (9) que o governo Jair Bolsonaro (PL) teria recebido informações sobre crianças vítimas de tráfico humano. O crime teria sido registrado na Ilha de Marajó, no Pará, mas ela não apresentou imagens ou detalhes da suposta operação. Com a plateia cheia de crianças, ela disse: ‘nós temos imagens de crianças de 4 anos, 3 anos que, quando cruzam as fronteiras, tem seus dentes arrancados para não morderem na hora do sexo oral. (...) Nós descobrimos que essas crianças comem comida pastosa para o intestino ficar livre para a hora do sexo anal’. A deputada eleita Elika Takimoto apontou crime na fala de Damares: ‘Damares que é contra educação sexual em escolas falou em um (aparente) culto que são arrancados dentes de crianças para elas fazerem sexo oral sem morder e que criança é obrigada a comer comida pastosa para fazer sexo anal. Tinha crianças na plateia. Isso é crime, senadora!’”

Damares, eleita senadora, que não tá nem aí, pois já está no céu, pôs as manguinhas de fora, comprometendo gravemente o governo do seu amigo e companheiro de inércia, o capitão Bolsonaro, o qual, segundo disse a senadora, tomou conhecimento de todos esses fatos hediondos, e não consta, nem foi dito, que tenha tomado qualquer providência em defesa das vítimas, as crianças desdentadas e comedoras de comida pastosa, para fins de explorações sexuais. Pois bem. Nada há mais que se possa fazer. A Sra. Damares, que deixou um vazio no Planalto, justamente por nada ter feito, elegeu-se com todos os louvores democráticos senadora. O único jeito é aguentar suas peripécias, nesses oito anos que se aproximam, ainda em caminhada lenta para se iniciar. Recorramos ao canto Tamoio do nosso consagrado indianista Gonçalves Dias: “Não chores, meu filho; /

Não chores...” E mais esta necessária exortação: “que a vida /

É luta renhida: /

Viver é lutar.” Danares continuará a fazer o seu trabalho de nada fazer. Será, como muitos foram, e nada foram, muito menos exercente do mandato de senador ou senadora, deixando a representação do seu Estado sem representante, para ser servil a quem esteja no comando do Poder Executivo. Essa, com as exceções que se têm conhecimento, tem sido a regra. Portanto, não chores, meu filho, não chores. Você que teve a ousadia de elegê-la, e outros, portadores também de subnutrição mental, aguente as consequências e não reclame da democracia. O exercício do governo do povo, pelo povo e para o povo exige do eleitor, portanto, da cidadania ativa, que o voto nada tem a ver com religião. Pelo contrário, no regime democrático, o fundamentalismo religioso, de qualquer natureza, não pode nem deve ser imposto a ninguém. Essa concepção se encontra presente em postulados ético-religiosos de países desenvolvidos não só economicamente, mas educacional e culturalmente. O Estado é laico, não podendo assumir uma postura confessional. Quando isso ocorre, surgem as figuras messiânicas, oportunistas, a aproveitarem-se dos distúrbios mentais de uma fé, que mais cega do que racionalmente esclarece.

Em A Terra é Redonda, li um excelente texto, que a senadora eleita Damares poderia passar ao menos uma vista d'olhos, cuja autoria é de Francisco Fernandes Ladeira, que o intitulou de O Jesus brasileiro. O autor é doutorando em geografia na Unicamp. E, ao iniciar, ele faz a seguinte observação: “Se Jesus nascesse no Brasil de hoje, seria crucificado pelos ‘cidadãos de bem’.” Em seguida, expõe uma lógica contemporânea irreversível, a esclarecer o porquê dessa afirmação inicial: “De acordo com as chamadas Escrituras, Jesus, filho de uma família pobre, nasceu num estábulo, lugar onde eram guardados animais. Portanto, por analogia, se o Messias voltasse em alguma grande metrópole brasileira, muito provavelmente teria nascido em uma favela; seu tom de pele seria escuro. Evidentemente, não pertenceria a nenhum clã que reside em área nobre. Isso significa que, só por sua condição de nascença, ele já seria odiado pelo ‘cidadão de bem’, que o consideraria o estereótipo do bandido. Assim como os soldados romanos perseguiam o ‘Jesus judeu’, sua versão tupiniquim constantemente seria abordada pela polícia; não por cometer um ‘crime’, mas por sua cor e origem. Ele também teria dificuldades para dar um rolezinho no shopping com seus amigos: ou levaria uma ‘geral’ da PM, ou seria alvo de olhares recriminatórios por parte do ‘cidadão bem’ (afinal de contas, estaria frequentando um ‘lugar’ que não é para ‘gente de sua laia’). O ‘Jesus brasileiro’ provocaria a ira de alguns pastores evangélicos de sua comunidade (que, assim como seus congêneres, os vendilhões do Templo de Jerusalém, utilizam-se da fé alheia para enriquecimento pessoal). Como todo pacifista, certamente ele não frequentaria cultos onde as pessoas fazem ‘arminhas com as mãos’. Definitivamente, não seria eleitor do ‘mito’.”

A partir desse texto historicamente comparativo e inteligente, em que, de forma alegórica, transmuda-se o passado para o presente, percebe-se, nesse caminhar, que não fica a dever a um fariseu, que conseguiu que o povo escolhesse Barrabás e fosse crucificado Jesus, o amor ao próximo está bem distante, e os interesses próximos estão bem pertinho dos que fazem da fé uma rendosa negociata na qual a compra de centenas de imóveis parece mais conto da carochinha, sem nem sequer despertou a ira investigativa do IR. Não choremos. Tentemos algum resto de esperança.

* Membro da AML e AIL
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