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24/09/2022 às 00h00min - Atualizada em 24/09/2022 às 00h00min

Visita ao passado

AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

 
Não sei por que tenho medo de visitar o passado. Se faço esse retorno, revolvo lembranças, sagradas lembranças, que me transportam para um mundo que chego a pensar que é de felicidade, e não de simples saudade. Nesse filme, nublado pelo tempo, vejo os amigos do jogo de bola, de empinar papagaio, do preto fugido, do jogo de bolinha e, já um tanto para adolescência, do jogo de dama e de dominó, em que as vitórias eram festejadas entre risos e hilariantes provocações do vencedor. Não havia conflito. Tudo era uma festa.

Quando chego ao passado, ultrapassando todos esses anos de vida, penso em Wlliam Faulkner, aqui algumas vezes citado, que criou uma frase perfeita para definir o passado. Ele diz: “O passado não está morto e enterrado. Na verdade, ele nem mesmo é passado.” Tentei, e tenho tentado descortinar algum sentido filosófico a essa afirmação de Faulkner, mas não tive êxito. Mas me vem apenas a certeza de que o passado não está morto. Não há presente sem o passado, ainda que seja tormentoso, em que se conseguem vencer os obstáculos que são postos no curso de nossa caminhada. E a corrida de obstáculos, que exige tanto de todos nós, é concluída. Com denodo, dedicação e muito combate – já que a vida é combate, que os fortes e bravos só podem exaltar -, as dificuldades são superadas, e resta-nos a lembrança do passado, que não morre.

Na canção, Em meus tempos de criança, uma das obras-primas de Ataulfo Alves, ele evoca todo seu lirismo poético de sambista para voltar à cidadezinha onde nasceu. Os primeiros versos do samba mostram como o passado não morre. Imortaliza-se: “Eu daria tudo que eu tivesse / /Pra voltar aos dias de criança / Eu não sei pra que que a gente cresce / Se não sai da gente essa lembrança.”

E mais. Canta o mestre Ataulfo: “Aos domingos, missa na matriz /Da cidadezinha onde eu nasci /Ai, meu Deus, eu era tão feliz /No meu pequenino Miraí. / Que saudade da professorinha / Que me ensinou o beabá / Onde andará Mariazinha / Meu primeiro amor, onde andará? / Ai, eu igual a toda meninada / Quanta travessura que eu fazia /Jogo de botões sobre a calçada / Eu era feliz e não sabia / Aos domingos, missa na matriz / Da cidadezinha onde eu nasci / Ai, meu Deus, eu era tão feliz / No meu pequenino Miraí / Eu igual a toda meninada / Quanta travessura que eu fazia / Jogo de botões sobre a calçada / Eu era feliz e não sabia.” E Ataulfo repete o refrão: “Eu era feliz e não sabia.” Outros fizeram coro a esse saudoso estribilho, como Noite Ilustrada e Jamelão, dois sambistas de voz suave, que, sem gritos e trejeitos, sabiam cantar um samba. Ainda vale a pena ouvi-los.

Ainda sobre o passado, faço uma passageira e descompromissada leitura de livro 1922 – cenas de um ano turbulento, cujo autor é Nick Rennison, publicado pela Editora Astral Cultural, ano 2021, capa dura, muito bem editado e vendido por um preço razoável, haja vista que trata de vários temas que abalaram o mundo após a Primeira Guerra Mundial, como a mortandade da gripe espanhola, ceifando a vida de vinte e cinquenta milhões de pessoas, e a fundação oficial da União das Repúblicas Socialistas Soviética, nos últimos dias de 1922, além da radical mudança dos costumes e da moral, como o relaxamento das regras no âmbito da sexualidade, passando-se a viver o hedonismo como regra imperante na vida social.

Constata, pois, o autor um passado que se faz presente. O racismo continua sendo um vírus destrutivo a contaminar até as sociedades autodenominadas de modernas. A humanidade não conseguiu se livrar desse espúrio e degradante passado. E tudo está bem aí, em frente ou ao lado de sua casa.. Fazemos vista grossa ou dialogamos intimamente: - Não estou nem aí. Cada um trate de si.

O escritor J. P. Hartley, nascido no Reino Unido, em 1895, portanto aportou neste mundo num passado bem distante, creio que na época, por lá, não havia mais carro de boi, já que a Inglaterra estava consolidando o seu avançado processo de industrialização, que teve início na metade do século XVIII, quando a maquinização do trabalho deu os primeiros passos para formação da economia capitalista. Hartley afirma que “o passado é um país estrangeiro; lá as coisas são feitas de um jeito diferente”. É mais uma verdade sobre o passado. Por isso, recorrendo mais uma vez a Nick Rennison, acima referido, na abertura desta nossa conversa, concluo deixando uma mensagem de esperança: “Espero que todos estes retratos do passado, que às vezes carregam consigo ecos surpreendentes do presente, sejam divertidos e esclarecedores.”  Ou, no plano estético, melhor seguirmos as pegadas de Agualusa e sermos vendedores de passados, como antídoto a estes tempos presentes.

* Membro da AIL e AML
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