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17/09/2022 às 00h00min - Atualizada em 17/09/2022 às 00h00min

O homem na multidão

AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão


  
Alguns esclarecimentos iniciais e necessários devem ser feitos, para informar aos meus escassos leitores, se os houver, que o título e texto que o segue, foram retirados de uma obra, cuja leitura estava iniciando e o considerei interessante e, como gosto de dividir os esses prazeres com as pessoas de bom gosto, as quais, além dessa cativante qualidade, podem ter interesse de ler. Explico-me melhor: o texto introdutório da obra Casta, as origens de nosso mal-estar, de Isabel Wilkerson, nos leva a uma reflexão sobre o momento por que o mundo está passando, e que já passou, num momento traumático de sua história. Quero alertar que nada tem a ver com o fato de alguém ser brochável ou imbrochável. Não tenho essa preocupação fálica. Longe disso. Aliás, pelo contrário de toda essa fanfarronice, desprovida de qualquer resquício de inteligência, a vida tem que ser vivida com amor, solidariedade, respeito ao outro e ao cargo. O Brasil não precisa de garanhões em cada esquina, mas de homens e mulheres que possam participar de uma sociedade fraterna. Mas deixemos essa introdução como está e vamos à leitura do texto: O homem na multidão:

Existe uma famosa imagem em preto e branco da época do Terceiro Reich. É uma foto tirada em 1936 em Hamburgo, na Alemanha, com cem ou mais operários portuários, todos olhando na direção do sol. Eles fazem uma saudação em uníssono, com o braço direito rigidamente estendido declarando lealdade ao Führer.

“Olhando com atenção, podemos ver um homem no canto superior direito que se diferencia dos outros. Seu rosto tem uma expressão calma, mas inflexível. As reproduções modernas dessa foto costumam acrescentar um círculo vermelho em volta do homem ou uma flecha apontando para ele. Ele está cercado por concidadãos que caíram sob o fascínio dos nazistas. Mantém os braços cruzados no peito, a poucos centímetros das mãos estendidas dos demais. Só esse homem se recusa a fazer a saudação. É o único que se levanta contra a corrente.

“Olhando em retrospecto, é a única pessoa em toda a cena que está no lado certo da história. Todos ao redor estão tragicamente, fatidicamente, categoricamente errados. Naquele momento, só ele conseguia enxergar isso.

“Acredita-se que seu nome era August Landmesser. Na época, ele não tinha como saber o rumo facínora que aquela histeria em torno dele iria tomar. Mas já vira o suficiente para rejeitá-la.

“Ele próprio, anos antes, havia se filiado ao Partido Nazista. Mas àquela altura já sabia por experiência própria que os nacional-socialistas estavam alimentando os alemães com mentiras sobre os judeus, os párias da época, e que, mesmo naqueles anos iniciais do Reich, haviam causado instabilidade, terror e destruição. Ele sabia que os judeus não eram Untermenschen; sabia que eram cidadãos alemães, humanos como todos os demais. Ariano, amava uma judia, mas por causa da recente implantação das Leis de Nuremberg a relação se tornara ilegal. Eles estavam proibidos de se casar ou de ter relações sexuais, o que, nos dois casos, constituía o que os nazistas chamavam de ‘infâmia racial’.

“Sua experiência pessoal e sua íntima ligação com a casta tomada como bode expiatório lhe permitiam enxergar para além das mentiras e estereótipos tão prontamente abraçados por membros sugestionáveis — a maioria, infelizmente — da casta dominante. Embora ariano, ele tinha clareza quanto à humanidade das pessoas ditas inferiores e se importava com o bem-estar delas, com seus destinos unidos ao dele. Via o que seus conterrâneos decidiram não ver.

“Num regime totalitário como o do Terceiro Reich, erguer-se contra todo um oceano constituía um ato de bravura. Todos nós queremos crer que faríamos o mesmo. Temos a certeza de que, se fôssemos cidadãos arianos sob o Terceiro Reich, sem dúvida enxergaríamos mais além, nos ergueríamos como ele, seríamos aquela pessoa que, diante da histeria da massa, resistira ao autoritarismo e à brutalidade.

“Queremos crer que tomaríamos o caminho mais difícil de se postar contra a injustiça, em defesa dos párias. Mas, a menos que todos nos dispuséssemos a vencer nossos medos, a suportar o desconforto e a ridicularização, a sofrer o escárnio de parentes, vizinhos, amigos e colegas de trabalho, a cair em desgraça entre talvez todos os nossos conhecidos, a enfrentar a exclusão e até a expulsão, seria numericamente impossível, humanamente impossível, que todos nós fôssemos aquele homem. Qual o custo de sê-lo em qualquer época? Qual o custo de sê-lo agora?” Wilkerson, Isabel. Casta – a origem do nosso mal-estar (pp. 7-9). Zahar. Edição do Kindle.

Como esse homem na multidão, meditemos sobre o momento histórico, cuja travessia estamos na iminência de concluir. Lembremos de Cristo, que continua sendo vítima do farisaísmo daqueles que usam o seu nome para lucrar. Os templos, como fora antes, são antros pecaminosos, cuja propagação da morte e da disseminação de armas tem o silêncio interesseiro como resposta.  E o amor ao próximo só para os “convertidos”. Os demais: o fogo do inferno. Nada de perdoar. O inimigo deve ser assassinado. Meditemos então, sem farisaísmo, caso ainda haja algum resto de massa cefálica, mas sem essa patologia fálica, pois o corpo humano ainda tem coração para amar e cérebro para pensar.
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