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10/09/2022 às 00h00min - Atualizada em 10/09/2022 às 00h00min

A civilização incivilizada

AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

 
O homem primitivo custou a entender o mundo: o que fazia no mundo e o que significava o mundo em seu redor, com os seus fenômenos inexplicáveis. Não sabia o que era o tempo. Vivia apenas. E sabia muito pouco sobre a vida, e sobre a morte. O tempo lhe foi ensinando como superar as intempéries e vencê-las. Uma das primeiras descobertas do homem (o homo sapiens) foi o fogo. De início, de uso acidental. Depois, controlado e, em seguida, produzindo-o por vontade própria. Tenho eu a impressão que, a partir desse conhecimento, o homo sapiens, nosso antecessor, começara o processo civilizatório, até chegarmos ao tempo onde nos encontramos, a nos dizer que superamos várias etapas. Produzindo o fogo, e, em torno dele, para alimentar-se e se proteger do frio e dos animais selvagens, o homem passou a se reunir comunitariamente. Daí para frente criou a consciência de que tinha necessidade de viver a vida em comum, para poder superar a corrida de obstáculos, que é a própria vida. Além do fogo, que passou a controlá-lo e produzi-lo, inventou armas – não para simplesmente matar – mas para delas fazer uso e abater os animais, cuja carne lhe servia de alimento para matar a fome, a sua grande carência.

Chegamos aonde estamos. O mundo da virtualidade, mas não tão virtual assim. Há realidades que nos fazem pensar se regredirmos para o período da incivilização do homo sapiens. Vejamos. Sou leitor da Revista Cult. Sempre tenho um tempinho para ler os seus excelentes e bem alinhavados textos. É uma publicação que trata dos assuntos mais variados. Vai do samba, arte plástica, literatura, psicologia até necrobiopoder: maternidades periféricas contra o Estado. Uma expressão pomposa, porém de conteúdo extremamente sério.

As nossas sofridas mães, desde os tempos bem antigos, têm sido vítimas dessa prática desumana do necrobiopoder. A Cult nº 274, ano 24, de outubro 2021, traz matérias extraídas do dossiê Mães contra o Estado. Maternidade, luta, luto. A primeira delas reproduz um texto da professora Berenice Bento, no qual é relatado, de início, este caso: “CENA 1 – Ano: 1871. Rio de Janeiro. Deputados federais disputam o destino dos/as filhos/as das mulheres escravizadas. Pela primeira vez na história do Brasil, o Estado pauta o tema da abolição (indireta) da escravidão. A proposta, encaminhada pelo imperador Dom Pedro II, decretava o fim da hereditariedade biológica da condição escrava. As mulheres escravizadas dariam à luz filhos livres. E elas? Continuariam escravizadas.” A discussão foi intensa e levou tempo, meses. Os deputados, na luta pelos interesses dos seus financiadores, levantavam os argumentos mais cretinos possíveis. Aliás, é muito comum ainda hoje. Um deles afirmava peremptoriamente: “Como vamos aceitar em nosso meio uma turba selvagem (as crianças nascidas livres, acrescento), sem educação, sem religião?” E aí, eu pensei, distraidamente: que religião? A de Cristo, com certeza, não.

Na CENA 4, consta que o então governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, famoso por suas falcatruas e de cuja mente insana foram abortadas inúmeras safadezas, defendia o aborto obrigatório em mulheres pobres, sob esse desumano e incivilizado argumento: “Isso é uma fábrica de produzir marginal.” Pensei sobre essa solução, digna de um Hitler dos tempos atuais: a mãe do marginal Sérgio Cabral não teve o cuidado civilizatório de abortá-lo, para nos livrar da sua voracidade delinquencial. Uma pena, não?!

No Brasil, pós-homo sapiens, há uma mania da nossa polícia de matar negros, negras e pobres dos nossos morros e das nossas favelas. Mas o pior de tudo é que há alguns imbecis (e ainda muito mais pior, desculpem a redundância, religiosos, com a santa bíblia debaixo do sovaco) que adoram essa espécie de criminalidade, porque, quem sabe o que vai na cabeça dessa gente, tem uma finalidade profilática, na linha exterminadora do pensamento do famigerado Sérgio Cabral, ou mesmo do nosso capitão do Planalto, que disseminou o uso das armas, que, penso eu (tenho essa mania de pensar), já devem estar sendo vendidas em qualquer bodega da esquina.

A Cult não deixou por menos. E, no texto, O ventre negro no Brasil, consta o assassinato, no dia 8 de junho de 2021, de Kathlen Romeu, de 24 anos e grávida, ao ser fulminada por um tiro de fuzil no peito, pela Polícia Militar do Rio de Janeiro, por ter a desdita de fazer uma visita à avó no Complexo do Lins, localizado no bairro do mesmo nome. A mãe de Kathlen chora a perda da filha e diz: “...minha alma foi junto contigo.”
 
Uma outra mãe, Ana Paula de Oliveira, criadora do coletivo Mães de Manguinhos, choro a perda do seu filho Johnatha, assassinado por um policial militar. E, assim, de assassinato em assassinato, a sociedade dita civilizada se inciviliza cada vez mais. À margem da lei, mata-se, mata-se, mata-se. Muitos adoram, dizendo-se cristãos, mas com argumentos demoníacos; outros, não aceitam, mas omitem-se. Recorrem à célebre frase que nega o exercício da cidadania: - não é comigo, não tenho nada com isso. Absoluto engano. Todos somos responsáveis na construção de uma sociedade justa e humana. De outro modo, não há reza nem oração que afaste o inferno que, parodiando Sartre, somos todos nós e não os outros.

* Membro da AML e AIL
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