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18/06/2022 às 00h00min - Atualizada em 18/06/2022 às 00h00min

Na rua onde nasci

AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

 
Nesta rua, nasci para o mundo. Nela cresci e aprendi as primeiras lições de como seria esse mundo. Ela está em mim. Não consigo expulsá-la de mim. Como se fosse a mulher amada, penso nela incessantemente. Nela joguei bola, bolinha de gude (que se chamava apenas bolinha), empinei papagaio, corri para cima e para baixo. Subi em mangueiras. Lá de cima, trepado num galho, ouvia os gritos: Manequinho, Manequinho, a demonstrarem o temor por aquela peripécia de criança que enfrentava os primeiros desafios da vida, afrontando a lei da gravidade, para saborear a doce manga bacuri. Dessa rua, vi a vida dos que lutavam para viver. Quando chovia, as águas se avolumavam e tomavam conta dela, de lado a lado, em enxurradas gigantescas, que entravam pelas casas, atravessando-as até alcançar o recôndito dos quintais. Mas como eram boas as chuvas. Eram agressivas, é verdade. Não tinham consideração com os menos afortunados moradores, que, num silêncio reconfortante, apenas com o som suplicante do balde e da vassoura, enxaguavam os raros pisos de cimento das casas, em sua maioria de chão batido. Por essa rua, andei para o infinito. Continuo a fazer a travessia, com insistência arraigada, dessa curta ponte que faz o caminho entre a vida e a vontade viver.

Nesta rua, apreendi a vida nos seus detalhes mais cativantes. As nossas frutas exóticas que desafiavam o nosso não tão exigente paladar. Canapum, conhecido também como bombom-da-roça. Como era gostoso abri a sua frágil capinha e espocá-lo entre os dentes e saborear o seu frescor. Vendido pelos verdureiros, que, carregando às costas os cofos, iam, de porta em porta, para atender aos pedidos das devotadas donas de casa, sob os olhares de súplica das crianças. Na bacia, um maço de vinagreira, banana-comprida, para o cozidão, o agrião para salada do domingo, joão-gomes, o maxixe, o quiabo, o jerimum, e ainda uma lata do canapum. No fim da rua, os pesados cofos, já desfalcados desses produtos, pesavam menos nas costas dos incansáveis verdureiros.

Nesta rua, convivi com a solidariedade, o humanismo da vizinhança. Havia carência, mas não fome. Pobreza, sem miséria. O quitandeiro vendia fiado, sem a advertência incômoda do “fiado só amanhã”. O cartão de crédito estava na confiança de ter o comprador o nome anotado no caderno, para pagar sem juros ou correção monetária. Havia atraso, mas não havia mora, e todos tinham um lugarzinho ao lado do Deus Pai Todo Poderoso.

Nesta rua, muitos viveram e muitos morreram. Vida e morte faziam parte dela. Bebia-se o mijo da criança e fazia-se velório. Afinal, não há como fugir dessa dialética no trajeto da existência. Vi D. Deja e D. Eunice, cedo, muito cedo, ainda no escuro do novo dia, saírem às pressas, para chegarem à fábrica onde trabalhavam. Vi D. Maria do seu Vilarinho, que ganhava a vida como lavadeira, ajoelhada no quintal, separado por cerca de vara, amassando as roupas sujas, com gestos firmes e mãos calejadas, para extrair delas a sujeira, ou, ensaboando-as, colocá-las no quaradouro para, com o calor intenso do sol, poder limpá-las. D. Maria, mãe de Chagas e Benjamin, companheiros de algumas travessuras, enfrentava em cada dia a batalha de viver a vida. Mas eram tantas as Marias. Em cada casa, havia uma. Ou Zuleide, ou Ivonete, ou Carrinho. Napoleão, o alfaiate, seu Vitória, o sapateiro, D. Pedrinha e D. Neném, além de D. Maria Beiju, a quituteira da rua. Na época do milho, vendia pamonha bem quentinha. Na época da juçara, amassava nos alguidás e vendia em canecas. Como sempre houve tempo pra tudo, D. Maria Beiju, com a participação das filhas e filhos, numa sociedade familiar, construída pela necessidade e pelo amor, ia fazendo a travessia e vencendo as intempéries.

Nesta rua, também fazia um abrasador sol. Um sol cativante para um jogo de bola ou para empinar papagaio. Mas a música fazia a trilha sonora dos sábados ou domingos, ou mesmo no meio da semana. De algumas casas saíam o enternecedor som do bolero e do samba-canção. Anísio Silva, Alcides Gerardi, Orlando Dias, Nelson Gonçalves, Carlos Nobre, Orlando Silva, Roberto Silva, Ângela Maria, Dalva de Oliveira, Emilinha Borba, Marlene, Noite Ilustrada, Jamelão, Cauby Peixoto, Sílvio Caldas, Roberto Luna, Elizeth Cardoso, a Divina, Waldick Soriano, o também eterno Nat King Cole, Bienvenido Gandra, e muitos outros. Nesta rua, a música fazia a tristeza envergonhar-se de ser triste. Era só alegria.

D. Antônia do Cabo Oto era a festa. Havia sempre um baile na sua casa, localizada já quase no final da rua. Festa de radiola. Mas não essas radiolas empresariais. Radiola doméstica. Uma ou duas caixas de som na sala, outra na varanda. E, para alegar os dançantes, uma boa discoteca, com os boleros, ou sambas-canções, mais tocados nas rádios, e algum merengue. Pronto. Era a receita. Todos dançavam coladinhos, braços aconchegantes nos ombros, para fazer o encontro não virar um pesaroso desencontro. E mais: saber dançar. Ia-se pela madrugada, até o último acorde. Nesta rua, a vida era vivida de casa em casa. E os conflitos eram mediados pelo amor. Nesta rua, vivia-se a vida. Aprendi tudo com ela. E ela está em mim.

* Membro da AML e AIL
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