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15/04/2022 às 00h00min - Atualizada em 15/04/2022 às 00h00min

O VELÓRIO DE CHICO BRASIL

CLEMENTE VIEGAS

CLEMENTE VIEGAS

O Doutor CLEMENTE VIEGAS e advogado, jornalista, cronista e contesta o social.

 
Foi todo ele no superlativo. O maior e mais expressivo que vi em todos os meus quarenta e nove anos nesta cidade. Muita gente, muitas coroas de flores, muitos discursos, muitas emoções. Muitos amigos como todos assim se diziam. Chico, nosso contato aqui no chão foi pouco mas ainda assim a gente se conhecia e se cumprimentava quando a gente se via. Descansa em paz, Chico Brasil, é quanto a ti almejo.

“É TEMPO DE SEMANA SANTA”. Era assim que a gente dizia quando criança. Era um tempo incomum, fora de toda a rotina para a gente ali nos cafundós do meu sertão, onde o vento fazia a curva.  Hoje não faz mais. Tem energia elétrica, tem aposentadorias, “encostos”. E o povo conhece dinheiro. Já escrevi, ainda que para o meu gost,o saborosos temas sobre o tema. Assim foi em 2010, em 2012, em 2014, em 2018, cada tema um tema diferente, todos que os tenho “guardado” e outros tantos que os perdi.

Num deles escrevi “O DE COMER DA SEMANA SANTA. Tanto lá quanto cá, eu volto no tempo. Tinha sete, oito, dez, treze, catorze anos. E via a minha mãe e as minha avós, cuidando do “de comer da Semana Santa”. Faziam bolos e biscoitos de tapioca. Chocolate de caroço de cacau, “vinho” de coco babaçu para amistura, torta de peixe seco, feijão, abóbora, quiabo, maxixe, batata, cará roxo, milho verde, canjica, pamonha, tudo para a Semana Santa.

Depois na Desobriga (e só na Desobriga), vinha o padre, empanturrava-se de galinha caipira e café  combolo e advertia: “A semana Santa é um tempo de jejum, de abstinência. Mas, ao contrário, as pessoas guardam quantidades e fazem  excessoem seus paióis, de comida na semana santa”, dizia o santo padre. Anos depois eu interpretava: “Faz o que eu mando, mas não faz o que eu faço”.

Era um tempo, quer dizer uma semana em que menino não levava um “cocorote”. Não se podia bater e até mesmo evitar ralhar com os cachorros. Todo o silêncio era pouco. Irmão com irmão discutir? Isso nunca! Minha avó materna, na sua fé, falava em “Senhor Morto”. E todos respeitávamos contritos, atenciosos, solenes. Aquilo tinha força de lei. Eu me lembro. E todas as pendências e mal feitos e desobediência e coisa errada que o moleque fazia, ficava tudo acumulado para o Sábado da Aleluia. E quando era Sábado da Aleluia! (E quando era Sábado da Aleluia), aí era um tal de “Romper a Aleluia”.Indicativovo de que iriamos acertar as contas pendentes, os débitos em atraso.

HOJE EU ME LEMBREI DO CINE MARABÁ que tivemos por aqui. Anos 170 (quando conheci) e mais adiante. O Cine Marabá foi um potência no serviço a que se prestava. No Cine Marabá tinha “lá em baixo” e tinha “lá em cima”. Lá em cima era o “balcão”(?). Certo dia chegueinum depósito de madeira usada por aqui, nem faz tanto tempo assim  e vi uma montanha de madeiras que serviram às estruturas de sustentação e cobertura do Cine Marabá. Inclusive telhas de amianto (brasilit). E eu só no pensamento: “Eis a v ida”. Domingo passado, pelas ruas da vida, eu vi uma figura de máscara e me lembrei que certa noite ela  esteve sentada na cadeira ao meu lado, no Cine Marabá. E lá se foram quarenta e nove anos. E a mente da gente registrando um velho tempo, fazendo do passado, um tempo presente. Tem dessas coisas, a mente da gente!

PAREI DIA DESSES ali no Bacuri, pouco depois de uns “drogueiros” e drogados que ali faziam (fazem) ponto e se misturam, e usam droga, ali perto da Feirinha. Parei com a intenção de estacionar. Do meio da maloca de usuários de droga, imediatamente sai um sujeito, corre na minha direção e já vai estendendo o dedo com sinal de “positivo”. Já fiquei apavorado e já fui saindo no vapor!  Lá adiante, fora dos caras, fiquei imaginando: ou o sujeito pensou que eu  seria mais um para o grupo, ou que eu teria alguma “coisa” que lhes pudesse interessar. De pensamentos esses eu fico pensando que “onde tem fumaça tem fogo”. Eles consumidores, são a fumaça e o fogo que vem do traficante? E polícia nem aí... E os cara lá, na maior!!!

LÁ VAI A MÃE E SUA FILHA. Do jeitinho espalhafatoso, e desconcertante  e insinuante  como  se veste a mãe, é do mesmo jeito queesta veste a sua filha. E então: tal mãe, tal filha. No meu tempo de moleque eu já ouvia dos mais velhos: “Casa de mãe escola de filha”, E é...taíno que dá. Passe o tempo que passar.

POR FALAR NISSO, faz dias assisti a uma cena, enquanto esperava um ônibus no Bairro Vila Nova: Lá vão marido e mulher e com eles um filhote dos seus quatro anos de idade, por ai assim. O molecote com o seu cabelo recém-cortado, com aquelas riscas que estão em “moda” nas barrancas por aí. Parecia todo prosa, feliz da vida.  E eu ali olhando a vida. E me lembrando daquele outra lição da vida: “Casa de pai escola de filho”. E me conformei: “Cada um dá o que tem”.

PACU MANTEIGA é um pescado da antiga fauna do nosso Rio Tocantins. Quando cheguei por aqui, em 1973,  pacu manteiga era o que tinha por aí.  A gente comprava farto aos cambos, amarrados ao cipó. Cada peixe, uma peixada!  E nas manhãs os “vareiros” carregados em sobrepeso,  saiam gritando pelas ruas da cidade: Oh o Peixe! Oh o peixe! Ao apreciá-lo é que entendi porque o seu nome é ”pacu manteiga!”.

O peixe, contudo, desapareceu. Não se vê mais. Esta semana por acaso, encontrei uma pequena porção na feira do Mercadinho. Mas aí... quando mearremeti,já tinha dona, que me olhou com cara de quem  zombava da minha cara. Te juro que eu tive vontade de pedir para almoçar na casa daquela senhora mas aí.... eu poderia ser mal interpretado. O pacu é um peixe tão especial que tem até um TROFÉU DO SOCIAL com o seu nome.  O Cássio da movelaria de pré-moldados é quem gostaria de serhomenageado com esse troféu. E haja imaginário e imaginação do Cássio!

CAPIJUBA: Seu Capijas,  como assim o trato, é o meu nomeado meu “Embaixador” perante O Progresso. Ele me telefona ainda na terçafeira,  a mim me advertindo e cobrando: Oh! Não vai ter expediente na Sexta Feira. O Jornal vai sair na quinta feira.  E prossegue: “Você deve mandar a sua coluna, no máximo até quarta-feira”. E arremata com um sonoro “Muito brigado”. – Agradecido digo eu, Seu Capijas. E então,taí a coluna.

Viegas questiona o social.
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