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12/03/2022 às 00h00min - Atualizada em 12/03/2022 às 00h00min

UM SÁBIO... QUE SE CHAMOU LEÓ FIALHO

CLEMENTE VIEGAS

CLEMENTE VIEGAS

O Doutor CLEMENTE VIEGAS e advogado, jornalista, cronista e contesta o social.

 
Quando cheguei em Imperatriz, em maio de 1973, deveria existir por aqui três ou quatro surradas motocicletas. Numa casual conversa  com o Sr. Ney Milhomem, na época, me disse este que iria representar as MOTOCICLETAS YAMAHA, dentro em breve. Logo “enlouqueci” e acabei comprando a PRIMEIRA MOTOCICLETA YAMARA CINQUENTINHA (importada), 0 KM. Logo surgiram outras motocicletas. Então por aqui logo formou-se um pequeno grupo de seis ou sete participantes. Mas ainda assim haviam uns afoitos e destrambelhados e isso me tirava do sério. Daí que desisti daqueles “passeios” urbanos que por vezes o grupo fazia.

Certo dia marcaram um passeio dos tais “motoqueiros”, a SITIO NOVO DO MARANHÃO, com uma advertência de que, à qualquer desencontro, de já ficaria marcado em MONTES ALTOS, na casa do Sr. LIÓ FIALHO, que vinha a ser o tio de um dos partícipes do tal passeio. Tudo combinado.  Era domingo, cedo da manhã, quando deixei Imperatriz, montado na minha CINQUENTINHA ZERO QUILÔMETRO. Chamava-me a atenção de que eu não dispunha de um ponto de partida, aqui em Imperatriz. E então, toquei-me com destino a MONTES ALTOS.

- Era por volta de menos de nove horas quando lá cheguei.- É aqui a casa do Sr. Leó Fialho? Perguntei. - Chegou por aqui um grupo de rapazes em motocicletas? Negativa aresposta, continuei vendo tudo estranho, mas, ainda assim, resolvi aguardá-los. E o tempo foi passando, foi passando e nada. Olha como Deus escreve certo por linhas tortas, na nossa vida!
Comecei então a conversar com o Sr. Leó Fialho, um homem simples, pacato, viúvo que vivia em companhia de uns três (?) filhos e irmão, todos ali celibatários. Seu Leó era Juiz de Paz e roceiro ao mesmo tempo. À proporção que eu conversava como aquele homem eu encontrava nele qualidades extraordinárias! Espetaculares! Disse-me que aprendeu a ler na escola do sertão até a CARTILHA. E daí por diante passou a ler nos eventuais papéis, que os encontrava à beira do caminho. Parava, juntava, lia, lia, dispersava e ia embora. Por vezes levava a sua leitura e ia lendo nas oportunidades extra roçado. Foi assim que aprendeu a ler.

Nessa conversa vai, conversa vem, vi sem sombra de dúvida que eu estava diante de um SÁBIO. Justo eu que aos dez anos li no Livro MEU TESOURO, no 4º ano primário sobre a fábula de UM SÁBIO QUE VIVIA NO DESERTO. Fiquei fascinado pela estória e tinha uma “enlouquecida” vontade de conhecer um sábio. Agora eu estava aos 28 anos, exercitando os primeiros passos como advogado e plenamente feliz por ter conhecido um sábio.

Ao retornar para Imperatriz naquela tarde de domingo, sem nenhuma frustração pelo frustrado passeio, perguntei ao Sr. Leó Fialho se poderia voltar outra vez para privar do convívio em sua casa, em sua mesa farta com um reforçado café pela manhã e outras tantas farturas, bem como de sua aprendizagem. O sábio Leó Fialho, então me confirmou: “Pode voltar quando quiser. As portas estão abertas”. E assim voltei por lá tantas outras vezes, partes das quais, intencionado, pernoitava no sábado e retornava aos domingos.

Numa inacabável sequência de conversas que tive com o Sr. Lió Fialho, sempre me convencendo da sua SABEDORIA e do seu potencial de homem sábio. Certa feita ele me disse que era ESPÍRITA POR VOCAÇÃO, POR CONVICÇÃO. Disse-me que ninguém o levou a isso e que o ESPIRITISMO em sua vida era um ato, de pura consciência. Não acendia velas, não usavas vestes, não tocava tambores nem exercia bailados. E defendia mil e uma teses de caráter empírico, em suas próprias convicções. E do plano do seu piso, me disse que se sentia habilitado, estimulado e convicto para debater sobre o assunto com qualquer pessoa (qualquer pessoa). E até com o PAPA, enfatizou.

Tantas vezes, noite a dentro, eu ouvia LEÓ FIALHO, em sua casa de adobe e piso de chão, em pleno silêncio, sem interromper aquele monge de todas as humildades, de todas as sabedorias, de todas as dignidades; de todas as honrarias – tão modesto e tão simples, chapéu de palha na cabeça, como assim o era. Ele mesmo a quem as pessoas, os casais compareciam espontaneamente em sua presença, e ele mansamente os orientava, quer como cristão, quer como Juiz de Paz, do piso de sua humildade e de todas as dignidades.

O sábio Leó Fialho, tinha ao redor de sua casa um bom terreno, onde seus filhos se assentaram e um belo e estendido quintal cultivado com múltiplas árvores frutíferas e outras plantações,  cujo terreno ocupava por tantos anos e mais anos pacífica e tranquilamente. Ocorreu que um certo Prefeito arguiu perante o humilde sábio que tinha planos de fazer do terreno que se espraiava do seu quintal um loteamento para expandir a cidade. O sábio do piso de sua humildade retrucou ao Prefeito. Eu vivi com a minha mulher e criei os meus filhos todos que estão aí. Sempre zelei e cultivei no local. Nesse chão estou faz uma vida e bem assim ele faz parte da minha vida. Mas se você entende que é direito seu me despojar da minha posse, você tem o livre arbítrio e o poder. Mas, ainda assim, se você entender que eu faço jus em permanecer onde estou, como estou e porquê estou, que então me deixe em paz. (Interpretação livre).

Então o Prefeito foi embora, deixou-o sossegado e não voltou mais. E eu ficava embasbacado, boquiaberto e “queixo caído”, diante daquele SÁBIO, Leó Fialho, de Montes Altos, para cuja casa voltei tantas vezes - ora para fustigar suas fruteiras do quintal; ora para catar muricis no seu bendito terreno, de olho sempre na lauta mesa das refeições, com detalhes inesquecíveis do seu café da manhã: leite, cuscuz, carne assada, frutas. E eu sempre ali, sentado ao lado do SÁBIO e sorvendo as suas áureas, pétreas e inestimáveis lições.

Certo dia, tantos anos mais tarde quando aqui em Imperatriz eu soube, já dias depois que aquele SÁBIO e espírita houvera falecido, eu lhe dediquei no meu programa RÁDIO LIVRE, um tema: “LIÓ FIALHO DE MONTES ALTOS um sábio em carne e osso, um gênio que viveu nesta terra  e DESENCARNA para viver na eternidade”. Agora revendo os recônditos da minha trajetória, eu lembro dos momentos em que privei ao lado e ouvindo aquele SÁBIO, das minhas indeléveis e tantas SAUDADES, a pretexto de um equivocado “passeio”, em meio a uns tantos destrambelhados.

 * Viegas questiona o social
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