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26/02/2022 às 00h00min - Atualizada em 26/02/2022 às 00h00min

Folha, 101 anos

AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

 
Folha de São Paulo, um jornal que passei a ler diária ou semanalmente, quando, em 1975, cheguei a Imperatriz, esta pujante e agradável cidade do Sul do Maranhão, que vive ao lado da beleza e da força do rio Tocantins. Como todo órgão de mídia, a Folha tem uma linha ideológica, mas, ainda assim, é um jornal pluralista, com a segunda e terceira páginas albergadas por colunistas – notáveis colunistas, como foi o caso de Carlos Heitor Cony, Otto Lara Resende e Samuel Wainer - que emitem opiniões sem que sejam submetidos à censura dos controladores da empresa e da interferência de empresários, que, em suas páginas, divulgam a publicidade dos seus produtos e contribuem para circulação da notícia. Essa é a impressão se tem da Folha. Evidente que, aqui e acolá, comete alguns equívocos que recebem o comentário do ombudsman, o ou a jornalista que representa os leitores e que tem o poder de crítica do que é publicado, como publica ou deixa de publicar. Tenho o cuidado de, sempre que posso, fazer a leitura do que o ombudsman escreve, porquanto esclarece alguns pontos controvertidos a respeito da linha editorial da Folha, apontando erros que podem ser corrigidos ou mesmo discutidos pelos editores. Isso é salutar para que se tenha uma imprensa livre, sadia, que fortalece a democracia e seus valores, entre os quais a liberdade de expressão, e o Estado de direito, alicerçado nas normas constitucionais, que devem ter a vigilância permanente de todos nós e, em última instância, quer queiramos ou não, do Supremo Tribunal Federal, o guardião da Constituição Federal.

A Folha de São Paulo, historicamente (faço referência ao sentido histórico da sua posição), foi um jornal que deu total apoio à campanha das Diretas Já!, um movimento político da cidadania brasileira que clamava, em todos os rincões acessíveis ou não, por eleições diretas para todos os cargos políticos; nessa luta, a reivindicação do direito do povo brasileiro de votar para eleger o presidente da República, que era imposto pelo regime ditatorial militar, com o aval do cabisbaixo e oprimido colégio eleitoral, formado por deputados e senadores, Na verdade, um simulacro de eleição.

À frente desse movimento, político de cunho popular, que, reitere-se, teve como objetivo a retomada das eleições diretas ao cargo de presidente da República no Brasil, estiveram vários grandes líderes políticos, da cultura popular, do sindicalismo, além de vasta representação da sociedade civil. Iniciou em maio de 1983 e foi até 1984, tendo mobilizado milhões de pessoas em comícios e passeatas. Mesmo sendo marcado por significativo apelo popular, o processo de eleições diretas só ocorreu em 1989. A emenda constitucional Dante de Oliveira não foi aprovada pelo Congresso Nacional. Lembro da frustração do dia em que acompanhávamos a votação no Congresso, quando a emenda foi rejeitada. A tristeza assolou a nossa alma. Não perdemos a esperança. A luta continuou, na mesma linha de resistência da campanha das diretas. Entre os principais articuladores do movimento, estavam o deputado federal Ulisses Guimarães, o Senhor Diretas, Brizola, Montoro, Iris Rezende, Mário Covas, Dante de Oliveira, este o autor da emenda das diretas, Tancredo Neves, Richa, Luiz Inácio Lula da Silva,  Fernando Lira e muitos e muitos outros. Aqui, no Maranhão, formou-se um grupo de resistência e de luta democrática, com Renator Archer, Cid Carvalho, Haroldo Saboia, Luís Pedro, Wagner Lago, Gervásio e muitos outros, que, unidos, fizeram a caminhada em busca das eleições de direta para presidente da República.

O movimento foi a tradução da insatisfação do povo brasileiro com a perseguição política e a ineficiência econômica da ditadura militar. Em 1983, a inflação chegava a 211%, a dívida externa comprometia boa parte de nossas riquezas ou pobrezas (?). Vivíamos às expensas do FMI. A crise do petróleo afastava investidores. O general João Figueiredo, ditador de plantão do regime militar, preferia o cheiro do cavalo ao do povo. E essa preferência, sem nenhum pejo, foi declarada por ele em alto e bom som.

A Folha de São Paulo assumiu a liderança do apoio a esse movimento popular. O comício da Sé, liderado por Franco Montoro, governador de São Paulo, foi um monumento cívico, exposto na primeira página do jornal, como exemplo de jornalismo combativo. Depois, com onda se agigantando, teve-se o comício da Candelária, liderado por Brizola, que concentrou milhões de pessoas. O regime militar, com a participação expressiva da imprensa, mas com resistência inicial do grupo Globo, já que as divulgações eram por canais de TV, como a Manchete, se esfarelava, sendo obrigado a entregar o poder aos civis, com o país vivendo uma situação sócio-econômica das piores, que, como hoje, só não atingem os banqueiros de bicho ou do dinheiro especulativo, dos empresários rurais ou urbanos e dos grandes grupos econômicos dominantes, que têm os seus interesses preservados, sobretudo em países subdesenvolvido como é o nosso Brasil.

Ainda hoje, a Ilustrada da Folha nos provoca o apetite para leitura. Quem gosta de arte – literatura, teatro, música, pintura – tem na Ilustrada um prato dos mais diferenciados e agradáveis sabores. Isso a partir da primeira página.

É verdade que a democracia anda cambalida pelo mundo. A Europa se digladia. Os Estados Unidos da América tiveram a desdita de eleger um Trump, ou seja, optou pelo atraso. Ora, dirão, mas cresceu economicamente! Mas também na burrice. E o Brasil? Estamos diante de um óbvio ululante, expressão do reacionário Nelson Rodrigues. Que não teve nenhuma participação nos acontecimentos relatados acima. Mas, ao menos teve a presença ativa de Fernanda Montenegro, que ocupa com distinção uma das cadeiras da Academia Brasileiras de Letras. Ainda bem.

* Membro da AML e AIL
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