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12/02/2022 às 00h00min - Atualizada em 12/02/2022 às 00h00min

Poemas, poetas e poesias

AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

 
Comecemos nosso périplo poético por esse gênio Francisco Buarque de Hollanda, conhecido universalmente apenas por Chico Buarque. São duas canções, entre tantas e muitas por ele criadas e extraídas da sua veia poética de imensa qualidade estética, que vêm nos cativando durante todo esse tempo de inesgotável criatividade em que a sua arte tem a força e a vibração de todos os sentimentos do mundo. E o seu canto não trai as coisas mais simples da vida, como a saga de Pedro pedreiro e o romantismo de Januária na janela, apesar da estupidez do mundo que nos rodeia. Esse compromisso estético do poeta Chico Buarque estabelece um vínculo com as carências e belezas do mundo, e ele nos fala do cotidiano, das flores, dos luares, do bosque, do muro alto, mas acredito, na sua profecia de ver e mudar o mundo, pois amanhã pode ser novo dia. Até pensei - é uma das suas criações mais intensas, porque nos retorna a um mundo de sonho e fantasia, a esperar pela ternura de um mundo pobre tão pobre de carinho. Nesse refletir poético, esse grande trovador de nossos sonhos de viver essa fantasia canta essas belezas, a nos provocar a viver a poesia dessa modinha:
Junto à minha rua havia um bosque
Que um muro alto proibia
Lá todo balão caía
Toda maçã nascia
E o dono do bosque nem via
do lado de lá tanta aventura
E eu a espreitar na noite escura
A dedilhar essa modinha
A felicidade morava tão vizinha
Que, de tolo
Até pensei que fosse minha

E o poeta Chico Buarque não perde o lirismo essencial do seu canto e nos desperta para as coisas simples que fazem a vida mais feliz, sempre mais feliz, ao assim poetizar as coisas simples da vida:
Se lembra da fogueira
Se lembra dos balões
Se lembra dos luares dos sertões
A roupa no varal,  feriado nacional
E as estrelas salpicadas nas canções
Se lembra quando toda modinha falava de amor
Pois nunca mais cantei, oh maninha
Depois que ele chegou
(...)
Se lembra do jardim?
Oh maninha, coberto de flor
Pois hoje só dá erva daninha
No chão que ele pisou

Deixo Chico e busco a companhia de Ferreira Gullar. Maranhense, que fez da sua terra a fonte da sua criação poética, e, em Traduzir-se, um dos seus belíssimos poemas, uma espécie de autoconfissão dos seus sentimentos, ou dos seus espantos, dos quais nasciam a sua poesia traduzida em poemas, faz a genuflexão ante o sacrário da arte para dizer:
Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Gullar, o poeta concretista de A luta corporal, no seu livro Sobre arte Sobre poesia (Uma luz do chão), em que trata de estudos teóricos sobre o fazer artístico, de um modo geral, confessa: “São Luis do Maranhão, minha cidade, com seus dias luminosos e azuis, mantinha-me entre o deslumbramento e o desespero: a vida era bela e destituída de propósito. A literatura, que me prometia uma resposta para o enigma da vida, lembrava-me a morte, com seu mundo de letras pretas impressas em páginas amarelecidas. Compreendi que a poesia devia captar a força e a vibração ou não teria sentido escrever. Nem viver.” Ao compromissar-se esteticamente, diz o poeta Gullar: “...o canto não pode ser uma traição à vida, e só é justo cantar se o nosso canto arrasta consigo as pessoas e as coisas que não têm voz”. No poema Improviso para a moça do circo, Gullar retorna ao seu tempo em que o cotidiano é a vida a servir de argamassa para o seu canto: “Na Rua das Cajazeiras chovia muito. / Para falar com franqueza, chovia demais. / E as água invadiram a cozinha / atravessaram a casa toda e saíam naturalmente / pela porta da rua.”

Como de poeta e de louco todo mundo tem um pouco, nos meus devaneios de loucura, fiz esse poeminha: A vida / Começa todos os dias / Cada dia, cada dia, cada dia / No fim / Um dia / Chegará o tempo para nascer e para morrer / E tudo começará em novo dia / A vida eterna de todos os dias. Tenho a impressão (na verdade, obsessão) de que sem poesia não há vida.

* Membro da AML e AIL
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