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05/02/2022 às 00h00min - Atualizada em 05/02/2022 às 00h00min

“MINHA VIDA DÁ UM LIVRO”

CLEMENTE VIEGAS

CLEMENTE VIEGAS

O Doutor CLEMENTE VIEGAS e advogado, jornalista, cronista e contesta o social.

 
Lá pelos meus 19 a 22 anos eu tinha um hábito indomável de fazer concursos ou testes públicos. O primeiro deles, porém, ainda lá pelos onze anos foi o EXAME DE ADMISSÃO para a Escola Pública – 510 candidatos, 60 vagas.  No final do certame eu estava lá entre os 60! Mais tarde (entre os meus 19 e 22 anos), vivia caçando por onde fazer um concurso público.

Foi assim que passei num seletivo para a Escola Técnica Federal onde trabalhei por vinte meses; um concurso para o Banco Comércio e Indústria de Minas Gerais, onde fiquei por pouco tempo e deixei-o deliberadamente. Concurso para Locutor da Rádio Timbira onde obtive aprovação, porém o “estágio” foi um fiasco. Concurso para a Fundação SESP (um empregaço!, onde fiquei por seis anos), Concurso para a Caixa Econômica onde fui aprovado em 12º lugar, num universo de 32 aprovados e dez mil candidatos concorrentes. Concurso para um serviço Público, temporárioonde, com outro, obtive o primeiro lugar, com a nota 9,8. Deliberadamente, não assumimos. Nessa maratona, fiquei reprovado no concurso para o Banco BASA., lá por 1968/1969, quanto o citado Banco estaria chegando em São Luís.

Eu estava exercendo o cargo de Escrevente Datilógrafo –Nível-7 na Fundação SESP, onde ingressei por concurso público, quando fui aprovado para o Concurso à Oficial-PM, da Polícia Militar do Maranhão. Éramos em 60 candidatos e somente quatro fomos para o Curso em Fortaleza-CE. Esse concurso tem um fatorelevante e interessante, mas... deixo-o para uma outra oportunidade.

No Grupamento Escola (Academia Militar), logo de chegada o “trote” foi de rachar. Sete do Piauí que chegaram primeiro já haviam sofrido todos os trotes, foram novamente submetidos quando chegamos os quatro Maranhão. Levei de cara o apelido de CATANÃ, porque estava de cabeça raspada (em alusão à aprovação no vestibular). CATANÃ que era um pistoleiro famoso do Ceará. Cabeça raspada, naquele tempo tinha a ver com a marginalidade. Eentão eu era o CATANÃ.

Naquele domingo, quando chegamos, saiu um jantar ainda cedo da tarde. E fomos para o alojamento. E haja trote! Haja trote! Cada apelidotinha uma senha: uma ação, uma conduta que a vítima praticava no simbolismo do apelido. E eu, de posse de um cabo de vassoura:“Eu sou o Catanãããããããããã.Eu vou matar todo o mundo, E simulava disparos com aquela “arma” tá-tá-tá-tá. E os demais tinham que deitar ao chão e se arrastar. O-bri-ga-to-ria-men-te! E eu levava na boa, sorria à fartas. Eos caras no sofrimento...

Naquele domingo de chegada levamos trotedas 5 da tarde até às dez da noite. Exausto, estressado, quando procurei uma cama, não havia lençol, nem travesseiro nem nada. Mas como o bom cabrito não berra e eu acostumado às escaramuças de internato, de “repúblicas” e pensionato, aquilo para mim eu estava tirando de letra. Por volta da meia noite, chega da rua um aluno do último ano, com cheiro de álcool, levantando todo mundo, acordando todo o mundo para uma reunião do Grêmio. Pegou uma pasta vazia e... zap, debaixo do meu braço; “Tu aí. Tu aí vai ser o meu secretário”.

Bem ao estilo militar, manda os onze calouros fazerem “meia lua” à sua frente e dá a ordem para um do Piauí, o “Chico Anísio”. Tu aí, faz um discurso”. O cara ricocheteou, emudeceu e não disse uma única palavra. Tinha lá, um cara do Maranhão que me conhecia de outrora,mas lá me ignorou friamente. Foi quando ele do segundo ano (sem força de trote), disse: “Põe o Catanã”.Aí... aí... jogaram um peixe dentro d’água!

É que a um tempo de Casa do Estudante, eu liderava e exercitava treinamentos em discursos, para falar em público. Aí... caiu a sopa no mel! Ainda me lembro de trechos do discurso, em olhar panorâmico: “Magníficos (4º ano), Excelentíssimos (3º ano), Distintos(2º ano), meus colegas BICHOS: Nós, tanto do Maranhão, quando do Piauí, representamos a elite cultural dos nosso respectivo Estado. Estar aqui, é uma vitória, um diploma,isto aqui não é um trote, é a celebração da vitória, da nossa escolaridade. Os veteranos viveram e essa mesma celebração.Hoje aqui e amanhã preparados para servimos à BRIOSA POLÍCIA MILITAR DO NOSSO ESTADO. E segue o discurso. ... ...

E quando falei em “BRIOSA”, até parece que ali todo o mundo caiu de quatro, emudeceu, algo como uma transfiguração no rosto de todos ali. E a motivação do trote ali, praticamente acabou. Afinal falar em “BRIOSA “do seio da PM, é tudo de mais honroso à corporação. Naquela noite, o trote não foi mais o mesmo e... sem jamais imaginar, eu já inaugurava ali os meus CINCO MINUTOS DE FAMA, par a continuidade de um curso que em seguida não continuei mais...

No dia seguinte, sala de aula e o instrutor já dizia que o futuro Oficial-PM deveria preparar-se para falar em público, vez que poderia ser designado para comandar uma Companhia, um Batalhão. E em solenidade pública poderia ser convidado a falar. Deveria então o futuro oficial – dizia o instrutor – saber expressar-se publicamente. Aí a turma gritou:“Oh aí professor, o Catananã”. Dali em diante, toda a fala do instrutor era como se dirigida a mim.

Sem mais demora manifestei o desejo de DEIXAR O CURSO. O ambiente esfriou.Por quê? Por causa do trote? Me perguntavam.  - Não, isso não.Eu respondia seguramente.

Numa certa tarde sentado à calçada de um pavilhão, um aluno do último ano me chamou: Quer deixar o Curso por quê?Por causa do trote? - Não Isso não.O que você fazia no Maranhão? - Eu era emprega público por concurso; havia acabo de ser aprovado novestibular e, no “hobby”, escrevia uns artigos para o jornal. O quêêê?  Aí o cara endoidou. E declarou: Eu sou um “aluno empregado”, trabalho na Secretaria”. Saio este ano. Tenho o direito e dever de indicar um aluno par ficar no meu lugar”. E me indicou as vantagens: Não entra em fila para comer, não doa sangue, e pode até sair nas noites, durante a semana. Tem mais: “O aluno empregado trata diretamente até com as notas dos demais e com a Cúpula da Academia.É um privilégio!!! - Não eu vou embora, respondi.

Lembro-me então que ele ficou ressentido, decepcionado ao perceber que o seu “latim”, não me demoveu da ideia de ABANDONAR O CURSO. Voltei em 15 dias e assumi o emprego na Fundação SESP. Hoje eu volto no tempo e vejo o quanto A MINHA VIDA DÁ UM LIVRO.

* Viegas é advogado e questiona o social.
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