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29/01/2022 às 00h00min - Atualizada em 29/01/2022 às 00h00min

ZÉ BICUDO – Uma lenda do mal e da vida real

 
Já escrevi vários títulos sobre a  lendária e enigmática figura de um sujeito que por um tempo foi ZÉ DE FOSTA, noutro tempo Zé da Gorda. Ele que virava bicho, fulo de raiva quando era chamado de ZÉ BICUDO. Pelos casuais da vida, foi morador das terras do meu avô. De sua livre espontânea opção morava dentro do mato, servido de uma precária vereda, para sair mais adiante na estradinha que servia à civilização.

Zé Bicudo era um sujeito asqueroso, e evitado  por todos. Não era amigo de ninguém e ninguém era amigo daquele sujeito. Todos, “de mamando a caducando”, dele falavam as coisas mais horrendas e tenebrosas. Diziam que ele virava “labisonho” e cercava e aterrorizava as pessoas. Pela frente porém, as pessoas travam-no de SEU ZÉ como num clima  amistoso. Mas... por trás, era esconjuro por sobre esconjuro. “Ave Maria, Cruz Credo”

O ambiente podia estar sereno e tranquilo mas se Zé Bicudo passasse ou chegasse por ali, até parece que havia uma tempestade, um furacão, um terremoto, tal a inquietude que aquele sujeito causava. E quando saia da frente das pessoas, as línguas viravam lâminas afiadas sobre aquele pobre desgraçado. Havia até mesmo uma certa ENCRUZILHADA (que era uma bifurcação de caminho), que ele costumava virar bicho Diziam.

Naquela “encruza” morava um “sujeita”, despachada, trabalhadeira de serviços alugados em roças alheias que se dava a quem queria e não se dava a quem não queria. Morava só. Atendia por JOANA DA MANGUEIRA. Num certo fim  de tarde, ZÉ BICUDO que diziam tinha lá suas rezas de “atração”, passou pela casa de Joana, assim meio encostando, querendo aproximação. Joana notando as intenções do sujeito, logo o dissuadiu: ”Olá Zé Bicudo, não vai virar labisonho por aí”. Ah pra quê?! Zé Bicudo saiu dando coice no vento e cuspindo fogo. Injuriado!

Logo anoiteceu. E o que Joana viu foi uma ventania muito forte e um bicho desvairado forçando a sua casa de palha, querendo entrar. Foi um desespero! Dizia Joana depois. Joana então pegou o cutelo (que ali chama-se patacho) e espancava o esteio de sua casa. E bradava. ”Eu sei que é Tu Zé Bicudo. Entra e eu te corto no patacho”. Ante os gritos na noite, cachorros e vizinhos de  meia distância  compareceram em socorro. Naquela noite Joana não dormiu em casa. E no dia seguinte abandonou  o seu casebre para nunca mais voltar. Dizia ela num corte de arroz, na roça do meu pai.

Numa outra ocasião, Zé Bicudo encontrava-se num pequeno comércio, quando chega um sujeito metido a garimpeiro. Era tempo de Serra Pelada. O garimpeiro, não deu importância a Zé Bicudo e logo pediu um grogue. E mais outro grogue. E Zé Bicudo ali, calado, na dele, como sempre. E o sujeito com duas dali no Juízo, puxou o trinta e oito  da cintura e páááááá e páááá, em cima do balcão. E vociferou: “Se um sujeito virado bicho me cercar, eu caio de bala. E espancava o balcão e... “eu caio de bala”. Zé Bicudo ouvia o desaforo como um osso atravessado na garganta.

O sujeito, revolver na cintura, mais uma pinga, monta no seu cavalo e vai embora. Zé Bicudo tão logo o sujeito saiu, vai ao terreiro casa, debaixo de um pequeno chuvisco e... ... uiva como um cachorro. O quitandeiro que assistiu aos fatos me dizia depois que ali Zé Bicudo estaria chamando o Capeta. “Ave Maria, Cruz Credo! O certo é que o cavalo naquela noite chegou em casa, mas o garimpeiro foi encontrado perdido no meio do mato, no dia seguinte e “todo obrado”, tais os estragos fisiológicos...

Dizia a lenda - em menor intensidade -  que Zé Bicudo teria vindo das terras da beira-campo, onde aprendeu o fado de virar bicho com sua avó – que virava curacanga – e que passava a noite no “teso” (uma área mais alta e mais enxuta do campo), onde roíam ossos de animais que morrem no campo, cuja prática diabólica fazia parte do ritual para se “desenvolver”. E  virar bicho.

Também me contaram que pessoas diversas, aguardavam num certo lugar o momento de seguirem numa camionete onde iriam para uma festa no “Oiteiro de Maria Justina”. Zé Bicudo estava por ali, na dele, afastadiço. Sozinho. Um deles, na provocação mas dando uma de cordialidade e bom sujeito, fez o convite: “Vambora Seu Zé”.  -“Quá... eu não gosto de andar nesse bicho, vão andando que eu chegou lá”. E lá se foi aquela “carrada” de gente”, rumo à festa no Outeiro de Maria Justina. Ao chegarem ao local quem já estava lá? Zé Bicudo! Chegou primeiro, antes do carro, diziam depois.

Parada braba aconteceu com o ALESTRÊ. Numa noite de sexta feira, justo debaixo daquele Mangal, onde morava Joana da Mangueira, Zé Bicudo virado “labisonho”, e atacou ALESTRÊ este que correu e sentiu-se humilhado. Para a próxima sexta-feira ele se preparou, contavam depois. Carregou a espingarda  chumbo grosso e perna de caldeirão, mais um facão afiado e foi  esperar Zé Bicudo. Lá pelas tantas o bicho surgiu a ALESTRÊ mandou chumbo! O bicho não se deu por vencido e veio pra cima e os dois brigaram na noite. Em seguida Zé Bicudo foi procurar tratamento na cidade (na capital). Quando o encontrei de volta, nas férias, no interior, a ele me dirigi: “Seu Zé, eu soube que o senhor esteve na cidade em tratamento. Não fui lhe visitar por não sabia”. No que ele me respondeu laconicamente e evitando conversa: “ASSIM ACONTECE”.

“HOJE MEUS AMIGO COME”:  Zé Bicudo, porém, possuía ali o que ninguém possuía: t Um boi. Um boi grande, um boi velho que resolveu “apurar” no açougue. E foi fazê-lo ali mais adiante no populoso Povoado de Belas Águas. Lá contratou um açougueiro. E ele ali: olho vivo, em cima, marcando cerrado, para não ser enganado. O açougueiro volta e meia bradava: “Hoje os meus amigos come”. E repetia: “Hoje os meus amigos come”. Não deu outra: a cada “pesada” em meio aos seus tantos amigos,  o açougueiro punha uma carne a mais. Era o trambique!  E Zé Bicudo ali, marcando colado e o açougueiro bradando: “Hoje os meus amigos come”. Terminado o açougue, Zé Bicudo foi conferir. Cadê o dinheiro? Enquanto isso todo o mundo ali tirando partido e na leitura do senha: “Hoje  meus amigo come”. E comeram a carne do boi de Zé Bicudo...

 * Viegas- questiona o social
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CLEMENTE VIEGAS

CLEMENTE VIEGAS

O Doutor CLEMENTE VIEGAS e advogado, jornalista, cronista e contesta o social.

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