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22/01/2022 às 00h00min - Atualizada em 22/01/2022 às 00h00min

A RODA DO DIA, NA MINHA CIDADE

 
Naquele velho tempo costuma-se dizer NA RODA DO DIA, quer dizer: durante o dia. Durante todo o dia. Hoje revejo a minha cidade NA RODA DO DIA. Uma cidade então pequena, feita em ruas de areia, ervas de vassourinha e algodão do campo. “Presos de confiança” que capinavam as ruas. As casas enfileiradas, alinhadas estabeleciam uma província. Nas noites “brancas” as pessoas sentavam-se à porta e contemplavam o CRUZEIRO DO SUL. A cidade simples chama-se VILA.

Cheguei à VILA aos sete anos de idade, vindo da escola da Palmatória no interior para continuar a escolaridade. Até eu poderiam ter me deixado no terceiro ou quarto ano (primário), mas a Diretora jogo-duro, preferiu me deixar no segundo ano e o meu pai disse AMÉM! e Logo tornei-me menino de mandado em casa alheia. Aí, o meu primeiro diploma na escola da vida. E então vamos à RODA DO DIA, NA MINHA CIDADE.

O dia, para mim começava pouco antes das seis da manhã, rumo ao mercado para comprar aos gritos e aos empurrões, uma sofrida carne com osso. No percurso os animais – gados, jumentos, caprinos ainda deitados na rua de areia. E quando, sonolentos, levantavam-se - eu ao puro medo, zarpava no carreirão. No mercado a carne boa, só depois vim a entender era separada aos colarinhos: prefeito, juiz, promotor, deputado, padres, coletores, cartorários e outros. E então fiquei com trauma do mercado e das ruas em animais deitados.

Lá pelas sete e meia e mais adiante, a cidade era um chão estrelado de um vai e vem em azul e branco, era os alunos e alunas das duas escolas primárias; um cenário que se repetia lá pelas doze horas, quando encerravam-se as atividades escolares. E os alunos de volta para casa.  De oito em diante, as ruas de areia, formavam um traçado paralelo das carroças que conduziam tijolo telhas ou mercadorias do comércio atacado, chegadas da capital em lanchas ou barcos. Também tinha o LULUCA DO AREÁ. Luluca com três pingas, em pé, na sua carroça, chicote nas mãos, faca na cintura dava o mote de sua disposição: “LULUCA DO AREÁ, ROLA BALA ROLA FOGO, LULUCA TÁ NO MERMO LUGÁ”.

Quando dava nove e meia, dez horas, parte da cidade era tomada por uma avalanche de cavalos e cavaleiros. Eram os roceiros do interior que vinham vender suas colheitas; milho, arroz em casca, farinha, feijão, frutas... carvão. Era um tempo de Manelãozinho, Geraldo, João pessoa, João de Quirina, Benedito Vale Torquato Cebola e outros. Lá pelas doze, cavalos e cavaleiros deixavam a cidade, de volta às suas casas, rumo ao interior, onde chegam por voltas das seis, sete e mais da noite. Em  casa a mulher perguntava: O que tu comeu na VILA? Um gelado (um refresco) com pão no seu Mundiquinho ou... quando não... um (sofrido) ARROZ DE COELHO, que era do vendeiro do mesmo nome.

Lá pelas duas da tarde com a cidade esvaziada, apareciam esparsos os caçadores, e seus cães de caça. Uns que já venderam senão no todo mas em parte de sua caçada e outros que, levavam pendurado à cintura os seus troféus da batalha: jaçanãs, japeçocas, marrecas e até paturis e carões pendurados ao cano da espingarda. Era a rotina da cidade. A essa altura, o caminhão de Isidro Teixeira já vinha recolhendo gente, caixas, cofos, sacos e outros “teréns” – tudo com destino ao interior. Lá em cima no “taipá” do caminhão estava escrito: “SÓ SI VENO”. Eu era um garoto e me perguntava porque SÓ SI VENO? Só mais tarde entendi a mensagem.

E quando dava sete da noite, a cidade era tomada de uma gritalhada da molecada na rua: Era a recepção, a alegria. Era SEU JOSAFÁ, que acabava de ligar o motor da USINA DE LUZ. E então a cidade se iluminava. As casas se iluminavam.   Aí, sem mais demora, entrava no a AMPLIFICADORA DE SEU BIBI, que, ao lado de Torquato Cebola eram os homens públicos mais ilustres daquele tempo. Na amplificadora entrava Zé Lobato: “Esta é a sua LÍDER DE SÃO BENDO, VOZ DA LIBERADDAE QUE VAI PARA O AR...  COM MÚSICAS E GRAVAÇÕES VARIADAS. E aí vinham as mensagens musicais “De alguém para alguém, com muito amor” e carinho.”... ...

Também da época três músicas  me foram impossível esquecer: Ari Lobo com Eu vou pra Lua/ Eu vou morar lá; Luís Gonzaga com “Bate a Enxada no Chão / Limpa o pé de Algodão”, e a característica musical da Voz de Seu Bibi que era um Getulista apaixonado. No dia seguinte recomeçava a rotina, cedo da manhã,  com os pescadores chegando do campo para expor os seus pescados dentro do cofo, no galpão: traira, jeju, piranha, bagrinho e outros. A esse tempo Zé do Bule vivia entre nós.

E assim eu vou escrevendo e registrando, ao intuito da fidelidade, do quanto me vem na lembrança,  da RODA DO DIA  da minha cidade – São Bento, no Maranhão, ao final da década de 1950.

* Viegas questiona o social
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CLEMENTE VIEGAS

CLEMENTE VIEGAS

O Doutor CLEMENTE VIEGAS e advogado, jornalista, cronista e contesta o social.

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