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08/01/2022 às 00h00min - Atualizada em 08/01/2022 às 00h00min

“O Brasil tem um enorme passado pela frente”

AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado aposentado do Tribunal de Justiça do Maranhão, e membro da AML e AIL - [email protected]

 
Essa frase de Millôr Fernandes atravessou os tempos, fazendo um trajeto histórico pela nossa história, a confirmar o seu sentido determinista que nos acompanha desde 1.500, ano em que as naus portuguesas aportaram por aqui e, para infelicidade dos nossos autóctenes, começaram um processo de estelionato, trocando quinquilharias por ouro, para depois escravizá-los. Começou, a partir desses pequenos atos de “bondade”, o que Millôr chama de invenção do socialismo de direita, vigente até os dias atuais. E volto a citar a uma outra contundente frase de Millôr: “O Brasil é, sempre foi, uma empresa unifamiliar.” Ou, digo, uma empresa corporativista, representada por fortes interesses dos poderosos grupos econômicos e com o beneplácito, hoje, no presente, de corporações militares, cujos membros, entre quais generais, coronéis e etc., estão a ocupar mais de 20.000 cargos na Esplanada e usufruindo das benesses do “poder”. Esse quadro dantesco reflete tristemente o conceito de democracia, mesmo o formulado pelo grande ficcionista argentino Jorge Luis Borges, que dizia que “a democracia é um erro estatístico, porque na democracia decide a maioria e a maioria é formada de imbecis”. Certíssimo, nada a opor quanto a imbecis, mas acrescento: essa maioria tem o condão de enganar a maioria que o elege e, logo em seguida, vira as costas e elabora essas coisas espúrias como fundo partidário milionário, além de um criminoso orçamento secreto, sob o olhar complacente de um ministério público, que faz do seu silêncio a arma da conivência.

2022 inexoravelmente chegou. Os órgãos policiais e militares estão bem de vida, porquanto aquinhoados pelas benesses que vêm de cima. Nada a reclamar. Em torno de tudo isso, há um silêncio estarrecedor, a retumbar, quem sabe, no momento em que o resultado das urnas eleitorais vier ao conhecimento público. Pode haver justificativa para a derrota ou para êxito. E um delas, em caso de derrota, é a de sempre: o comunismo, cujo regime nem na China existe mais, a não ser um capitalismo autoritário de Estado. A outra é mais nova, fundamentada na absoluta mentira: as urnas eletrônicas, que são inacessíveis a qualquer invasão tecnológica, ou seja, são seguras, ainda assim, gritarão aos quatro cantos do mundo, que foram fraudadas. Mas todos nós, com uma consciência cerebral sadia, sabe, e mesmo tem certeza, que não. Querem transformar uma mentira repetida – técnica de persuasão criada pelo nazista Joseph Goebbels – em “verdade”. É preciso ficar atento em defesa do Estado de Direito e na preservação dos valores democráticas agasalhados na Constituição Federal.

Com todas essas atrozes dúvidas e realidades que vêm assaltado as pessoas com alguma massa cefálica, a dizer: sem obstrução cerebral para pensar, devemos estar preparados para defesa do pleno exercício da cidadania. O desejo inicial é que nos libertemos do passado, esse enorme passado que o Brasil teima de, no curso de sua história, tê-lo pela frente. Em recente notícia que, constrangidamente li, tomei conhecimento de que Brasil tem 12,3 milhões de jovens, de até 29 anos, que não estudam nem trabalham. E essa tragédia social não decorre nem do comunismo e muito menos do socialismo, mas do capitalismo predador, que tem criado sérios contrastes sociais em países tidos como desenvolvido, em que a vontade anônimo do mercado é prevalente.

A grave notícia dessa tragédia social diz que esse percentual representa uma população superior à da Bélgica. E acrescenta: “A cada ano, diz ela, novos estudantes se formam e não conseguem ser absorvidos no mercado, o que cria um bolsão de nem-nem. Sem emprego nem renda, eles não conseguem estudar e muitos param no meio do caminho, como no caso de Gabriela (uma desempregada ou subempregada). Segundo Ana Tereza (a técnica que fez o estudo), terminar a faculdade numa fase de recessão pode ter reflexos para toda a vida profissional. Os que conseguem emprego podem ter salários mais achatados comparados a quem se forma durante a expansão econômica.” Os nem-nem são brasileiros que nem estudam nem trabalham.

Enquanto isso o capitão do Planalto emprega, ao Deus dará, 20.000 militares em postos civis e, em plena tragédia humanitária da Bahia, estava em convescote com seus parceiros de motociclismo, gozando imerecidas férias em luxuosos barcos, velejando no litoral de Santa Catarina e de lá não saiu, a não ser para – não se sabe se o fato é verdadeiro ou fake news– tratar de uma obstrução intestinal, quando na verdade deveria requisitar o medium João de Deus, para tratá-lo da sua patológica obstrução cerebral. Se for verdade o que dizem, peço a Deus que se recupere e participe, com honestidade, do processo democrático eleitoral, sem recorrer a engodos e vitimização. Que seja forte como as vítimas da covid têm sido, inclusive as crianças que precisam de proteção da vacina.

* Membro da AML e AIL
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