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01/01/2022 às 00h00min - Atualizada em 01/01/2022 às 00h00min

​Dotô mata Índio...Índio mata Dotô !

NAILTON LYRA

NAILTON LYRA

O Doutor ​NAILTON Jorge Ferreira LYRA é médico e Conselheiro Regional de Medicina e Conselheiro Federal de Medicina representando o Estado do Maranhão


  
Na história da medicina brasileira deveria constar um capítulo especial, capitulo não, um livro, sobre o médico no interior, os apertos, dificuldades e soluções conseguidas, além das situações esdrúxulas e as cômicas.

Aqui relatarei algumas que ocorreram pessoalmente comigo e algumas que me contaram. Já relatei aqui o caso da apendicite em que o médico cirurgião foi obrigado a ensinar um auxiliar a realizar o procedimento, consultem no site OPROGRESSONET a crônica “O apêndice”.
Vamos aos meus relatos, inicialmente:

A sorveteria

Chegando ao interior do Maranhão, na progressista cidade de Imperatriz em 1982, recém saído de uma residência médica em cirurgia, ano em que ocorreu uma absurda enchente, no caudaloso rio Tocantins; só existia à época a barragem de Tucuruí, o que impossibilitava o controle de enchentes, resultando que a chamada beira rio de Imperatriz ficou toda embaixo d’água. Andei a primeira vez de lancha e entramos no mercado do peixe que fica em uma parte considerada alta da beira rio de Imperatriz –nunca mais presenciei um acontecimento desse porte– mas prosseguindo, tive que ir a São Luís para me apresentar ao CRM e obter a licença para exercício da Medicina. Voltando em um avião moderno, um Bandeirante de 19 lugares, decolamos em um voo previsto de duas horas, e quando estávamos na altura da cidade de Santa Inês uma turbulência jogava o aeroplano de maneira bem desagradável. O piloto voltou-se para trás, e falou bem alto: “não se preocupem pois estamos enfrentando uma leve turbulência (leve para ele, eu estava em pânico) devido a uma frente fria, que está se deslocando do Piauí para o Maranhão!” Meu Deus, onde me meti, um piloto que achou uma frente fria no Piauí!, será que entende de aviação? Minha dúvida naquele instante, então, um companheiro de viagem nos acalmou falando, acima do ruído dos motores, “gente tranquilizem, foi uma sorveteria que explodiu em Teresina”. Bem finalmente chegamos e essa foi minha introdução no Maranhão.

Pistoleiros na sala

Em outra feita estava em sala operando um traumatismo toracoabdominal por arma de fogo, não havia nenhum auxiliar, somente uma enfermeira circulante, a Iracema e o anestesista pedindo pressa. Pressa como? Sozinho, então um bioquímico de plantão veio trazer umas unidades de sangue solicitadas. Resultado? Virou meu auxiliar de madrugada. Com 30 minutos de cirurgia, adentram à sala dois “senhores” de botas e roupas sujas, ARMADOS de espingardas chamadas de “doze”, e falaram: “Dr. Nailton saia da sala pois viemos terminar o serviço!” Ai meu Deus! Que vontade de ir embora. Mas, sabiamente, o anestesista muito mais do que eu, conversou com os “distintos senhores” e esclareceu que uma conduta daquela levaria a intervenção de policiais, inclusive federais. Felizmente desistiram, UFA...

Ameba Preta

Tem muitas outras, mas uma é, especialmente, bem interessante: é a da Ameba Preta. Estava eu bastante chateado com um paciente com apendicite, somente com RX de abdome agudo, pois não havia ultrassom quanto mais TC e a família não concordava com a cirurgia, queria outro exame, queixei-me com uma senhora, antiga atendente do hospital, sobre a dificuldade, e ela falou “vou resolver”. Chamou a família e pegou uma película do RX colocando-a na janela e falou para os familiares, apontando para a película: ”tão vendo esses pretos na chapa? (a imagem de ar em alças) e ela continuou, “isso é ameba! E é da preta, se não operar agora morre”! Operei. 

E o índio?

Operei um índio que tinha trauma abdominal penetrante, causado por uma flecha (isso mesmo, flecha). Trauma renal, sem necessidade de nefrectomia total ou parcial somente alguns pontos para conter pequeno sangramento, mas evoluiu com abscesso em loja renal. Contávamos com Penicilina, Gentamicina e Cloranfenicol, somente estes de plantão, e foi evoluindo mal. Um dia chego no hospital e no pátio encontro um monte de índios. Ao tentar passar fui, cercado por eles que falavam a língua deles, não entendia nada, lógico, mas vi que a situação era perigosa. Só lembro de uma índia me empurrando e gritando: “Dotô mata índio, índio mata Dotô”! Fiquei mesmo com medo e informei que somente continuaria o atendimento com proteção. A FUNAI providenciou a retirada e o afastamento deles da casa de saúde. O paciente saiu bem após uma reoperação com drenagem da loja renal.

Tem muitas histórias e estórias, mas quero dizer aos colegas médicos do interior de Pindorama que como somente nós sabemos, é muito difícil colocar o chocalho na onça!

Aos médicos chamados por muitos de “dinossauros de Imperatriz”, dedico este artigo e presto uma homenagem a todos, saudando-os através do cumprimento de Feliz Ano Novo ao  Dr. Luís Carlos Noleto e à Dra. Joselita Aguiar.
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