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04/12/2021 às 00h00min - Atualizada em 04/12/2021 às 00h00min

As luvas do amor


   
A história da medicina envolvendo seus progressos são capítulos interessantes da ciência moderna que, para os interessados, são extremamente envolventes e saber desses fatos nos permite a compreensão de muitas coisas que hoje nos parecem corriqueiras e não damos nenhuma atenção. Um desses fatos corriqueiros é calçar luvas cirúrgicas, como chegamos a este resultado envolve inicialmente dois personagens que a profissão os aproximou e o amor os uniu.
 
No Hospital John Hopkins fundado em Baltimore, Maryland, fundado pela doação de um filantropo de mesmo nome e hoje um dos maiores hospitais do mundo, houve um cirurgião chamado Willian Stewart Halstead (1852-1922) que tem seu nome marcado na história da medicina tanto pelo seu vasto conhecimento médico como pelo desenvolvimento de equipamentos e técnicas cirúrgicas (Pinça de Halstead, Cirurgia de Halstead – mastectomia radical, sutura de Halstead).
 
Em 1889 Halstead ingressou no recém fundado Hospital John Hopkins e foram admitidas também duas enfermeiras, Caroline Hampton (1860-1922) e Isabel Hampton, não eram parentes e tinham enorme animosidade uma com a outra, para solucionar esse problema, Halstead separou as duas sendo Caroline nomeada supervisora e instrumenta Dora no Centro Cirúrgico. Era uma época de grandes avanços na medicina, Lister tinha recentemente enunciado os postulados iniciais sobre infecção e cirurgia em Glasgow na Escócia e estes estavam sendo correntemente aplicados em todo o mundo.
 
Halstead seguia rigorosamente todos os protocolos cirúrgicos que envolvia a desinfecção das mãos de toda a equipe cirúrgica com soluções antissépticas como cloreto de mercúrio, mas sua instrumentadora, a Caroline, desenvolveu severa dermatite de contato com esses produtos, Halstead preocupado em perder a jovem, linda e apaixonante auxiliar, por quem já estava demonstrando uma queda de asa, procurou a Goodyear Rubber Company para que criasse dois pares de luvas de borracha especiais e finas para que a encantadora auxiliar pudesse exercer seu mister, deveriam ser confortáveis e não tolher movimentos e assim foi feito, a jovem permaneceu em sua atividade cirúrgica.
 
O fato é que em 1890 Halstead e Caroline se casaram e as luvas desenvolvidas para que sua enfermeira não saísse de seu lado teve seu uso ampliado por observações mesmo hospital, um dos seus auxiliares fez a primeira observação cientifica sobre seu uso em cirurgias de hérnias com queda acentuada no nível de infecção cirúrgica.
 
Adotada rapidamente em todo o mundo e possibilitou a Goodyear ganhos substanciais com seu desenvolvimento e industrialização.
 
Halstead é o mentor da ideia de imersão total em ambiente cirúrgico para o aprendizado da arte real e tornar-se um cirurgião adequadamente preparado para o exercício de sua profissão, a Residência Médica, sendo chamado de “O pai da cirurgia moderna”. 
 
Um dos membros do chamado “The big Four”, os quatro médicos iniciais fundadores do John Hopkins que eram ele na cirurgia, patologista Welch, internista Osler e o ginecologista Kelly foram responsáveis por uma grande modificação no ensino médico dos USA que culminou no relatório Frexner, que estabeleceu em definitivo as bases do ensino médico que se encontrava bagunçado na época, eles lá resolveram isso no início do século XX aqui estamos ainda criando problemas, “a roda já existe é só colocar para funcionar”
 
Halstead morreu em 1922 no mesmo ano que sua amada instrumentadora, não tiveram filhos, infelizmente não é um final feliz essa história. No desenvolvimento de técnicas anestésicas viciou-se em cocaína que estava usando nesses trabalhos e tentou abandonar usando morfina, o que piorou, não conseguiu nunca abandonar a dependência química.
 
Esse relato de revisão é dedicado a uma baiana “PORRETA”, Conselheira Federal pelo Estado da Bahia, a quem aprendi a gostar respeitar e ouvir, ela foi que sugeriu esse tema de revisão. Obrigado Dra. Maira Dantas. Viva a República da Bahia.
 
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NAILTON LYRA

NAILTON LYRA

O Doutor ​NAILTON Jorge Ferreira LYRA é médico e Conselheiro Regional de Medicina e Conselheiro Federal de Medicina representando o Estado do Maranhão

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