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27/11/2021 às 00h00min - Atualizada em 27/11/2021 às 00h00min

Sonhos sonhados

 
Todos nós sonhamos; mesmo acordados, sonhamos. Ainda que os sonhos sejam pesadelos, mas são sonhos. Na vida, vivemos e sonhamos. Muitas vezes sonhamos mais que vivemos. E os sonhos sonhados podem ou não se realizar, na mesma medida em que sonhamos. Se não se realizam, azar para quem vive de sonhos. Quando os sonhos se realizam, vem a exclamação da conquista: – Realizei o sonho da minha vida! Sonhamos: ou porque encontramos o grande amor. Ou porque descobrimos, num átimo de uma leve carícia, que se está sendo amado. Ou porque conseguimos a cura de um incurável mal. Ou porque satisfazemos o desejo de beijar a mulher amada. Ou porque se fez a viagem para a América ou para a Europa e conhecemos todas aquelas maravilhas que por aqui são lugares-incomuns. Ou porque o esperado filho nasceu no romper de uma manhã ensolarada. Ou ainda porque veio ao mundo a sonhada e tão desejada neta, para fazer de cada dia a esperança de que a vida é eterna. Ou porque, de mãos dadas com amada, se foi ao cinema, para assistir a um provocante filme de amor, com o rosto colado um ao outro, num aconchego de eternos namorados e de intensa ternura que realiza todos os sonhos. 

Os sonhos nos faz renascer e ainda servem de roteiro para nosso caminhar por todos os caminhos, e são desejos lapidados em nossas reiteradas orações de súplica pela felicidade.
Cecília Meireles, essa poeta sonhadora, de Viagem, talvez esteja certa ao dizer-nos no poema Sonhei um sonho: “Sonhei um sonho / e lembrei-me do sonho / e esqueci-me do sonho / e sonhei que procurava / em sonho aquele sonho / e pergunto se a vida / não é um sonho que procurava um sonho.” Eis a verdade. Não sei se apenas uma metáfora poética: a vida deve ser esse sonho que se procura no sonho, porque a vida sem sonhos é um deserto de tempestades brutalmente reais. Por isso, é ainda Cecília, em outro poema, que vislumbra um sonho, em que a morte lhe veio buscar, que diz: “Outro dia sonhei que o coche fúnebre / vinha buscar-me e eu não me achava preparada: / não estava nem morta nem doente, / e sentia que tinha de partir. / Então disse para o cocheiro: / ‘Espere um pouquinho, / que estou acabando de ler este livro.” / E o cocheiro concordou e esperou. / Deve estar esperando.” O sonho lírico de esperar a partida que nunca se dará, a não ser que se desperte do sonhar para realidade finita.

Em Hynme a l’amour (Hino ao amor), de Edith Piaf, canção que ficou famosa no Brasil nas vozes de Dalva de Oliveira e de Maysa, na versão feita para a língua portuguesa, o sonho é um dos fundamentos líricos desse poema-canção, que atravessou todas as fronteiras e venceu a barreira do tempo, para se eternizar entre nós, para sempre. Edith Piaf constrói um monumento ao amor e dá ao sonho o começo e o fim de tudo. E assim é o seu canto: “Se o azul do céu escurecer / E a alegria da terra fenecer / Não importa, querido, viverei do nosso amor / Se tu és o sonho dos meus dias (...) Não importa, querido, porque morrerei também / Quando enfim a vida terminar / E dos sonhos nada mais restar / Num milagre supremo / Deus fará no céu eu te encontrar.” O sonho, como exaltado nessa canção, recheada de sentimentos poéticos, que nos convida para sonhar, tem essa ambivalência: ampara os momentos de felicidade no amor e serve de consolo quando nada mais resta, a não ser o milagre supremo de um possível encontro na eternidade.

O que seria a vida sem os sonhos? Seria de um vazio depressivo, independentemente de os sonhos serem possíveis ou impossíveis. Como um paradoxo, os sonhos se realizam, em que pese as suas impossibilidades. Sonhamos e lutamos com bravura e com alguma bravata, e todas as forças de nossos sonhos, para realizá-los.  Ser feliz é um sonho que nos acompanho desde o sorriso despretensioso do nascer até o choro sentido quando, fisicamente, já não nos resta mais nada para sonhar. Ainda assim, não abandonamos nossos sonhos: o sonho de viver, e viver feliz, mesmo nas intempéries dos desalentos. O sonho nos desafia a vencer a resistência dos ressentimentos.

Luther King, em 28 de agosto de 1963, quando lutava, nos Estados Unidos da América, pela coexistência harmoniosa entre negros e brancos, nos degraus do Lincoln Memorial, em Washington, DC, inconformado porque o negro ainda vivia numa pobreza extrema no meio de um vasto oceano de prosperidade branca, sonhou e disse: Eu tenho um sonho “(...) que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia os filhos dos descendentes de escravos e os filhos de descendentes dos donos de escravos poderão se sentar junto à mesa da fraternidade”. E, isto acontecendo, sonha Luther King, todos os homens, brancos e negros unirão as mãos e cantarão o canto sonhado da liberdade. E a paz reinará entre todos. Nós somos livres dirão, afinal. Sonhemos, pois, pelo menos o sonhar nos impulsiona para travessia de todas as esperanças de fazer dos sonhos realidade. Apesar de você, de mim e de muitos, os sonhos devem ser sonhados. Com realismo.

* Membro da AML e AIL
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AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

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