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30/10/2021 às 00h00min - Atualizada em 30/10/2021 às 00h00min

MEMÓRIAS DO INTERNATO

CLEMENTE VIEGAS

CLEMENTE VIEGAS

O Doutor CLEMENTE VIEGAS e advogado, jornalista, cronista e contesta o social.

 
Posso dizer que os meus anos dourados, entre outros, compreendeu aquele tempo em que eu estive no internato da minha prateada, pranteada e inesquecível Escola Técnica Federal, no Monte Castelo, na capital. Quatro (04) anos de internato, ao todo nove anos por lá. Servidor, inclusive. Eu era feliz e não sabia! Naquele tempo vivemos e experimentamos as mais inusitadas situações. E todo o mundo que se prezava por ali, tinha o seu apelido, inclusive os professores. Vamos dar uma volta...  no tempo.

A BRIGA DE “VENTO LEVOU” VERSUS  “XIXI”

Era véspera do aniversário da Escola. Jubileu de ouro! 50 anos! Ano de 1960! Salvo engano. Naquela noite, véspera do GRANDE DESFILE, estava tudo de revirado de ponta à cabeça. Noite inteira em claros, luzes acesas. Jogo de pelada. Vibração total! Arnaldo, o Tromba de Elefante, ensaiava com o seu trombone numa dependência (aos fundos) do Teatro. Havia uma janela entreaberta em alunos expectavam. Naquela oportunidade eu havia sido submetido a uma cirurgia com uma “anestesia/local vencida” e, por isso estava internado na Enfermaria. De lá, primeiro andar, eu contemplava a movimentação no grande pátio.

Por motivo/s que até hoje não sei, irrompeu-se uma briga entre dois alunos: VENTO LEVOU e XIXI. Rapazes de mediana escolaridade; os dois de bom porte e à mesma proporção. E o pau comeu! Em princípio e durante toda a briga de igual para igual. Aí, fizeram uma grande roda. A assistência composta de uns vinte e tantos, segurou na mão um do outro e Arnaldo, o Tromba de Elefante, executou em solo de saxofone, uma antiga música de Gonzagão: A fogueira tá queimando / Em homenagem a São João / O forró já começou/ Vamos gente, rapapé nesse salão...

A porrada entre os dois corria livre, solta e pesada. Uma que ia, outra que voltava, de igual para igual, até que XIXI, declarou: “não quero mais”. No fundo, foi uma decepção geral! Ninguém esperava por essa. Naquele tempo, naquela minha Escola Técnica Federal uma briga entre dois alunos, seria tão grave quanto “O CRIME DA MALA”, mas... como tudo naquela noite, véspera de aniversário; de Jubileu de Ouro e em se tratando de dois marmanjos, foi como se nada tivera acontecido. E eu lá em cima, na Enfermaria, operado via de uma “anestesia vencida”, assistindo de camarote!

A BRIGA DE CAMBOTA E INÁCIO GAIOLA

Cambota era um cara “atentado”, abusado. Era irmão do Boca de Riri. Encostava o caneco vazio e tomava o café do outro. Cambota sacaneava com um e com outro, levava vantagem em todas mas não era um mau sujeito. Mas assim um tanto fanfarrão. Naquela época, Cambota estava  “Diretor do Grêmio Estudantil”. Teve uma divergência com o INÁCIO GAIOLA , no Grêmio e CAMBOTA dispôs-se a tomar-lhe a raqueta do Jogo de pingue-pongue. Gaiola saiu fumaçando. E lá estão dois na discussão, cara a cara. Aí Gaiola quebrou a raqueta, pôs-se sobre o meio fio e, com um salto deu com os dois pés no peito de Cambota; este que deu um “chilique”, ficou suado, calado, parado e mudo. E a briga acabou. Aquilo seria outro CRIME DA MALA, mas como eram dois taludos, ficou por isso mesmo.

E A QUE TEVE COMIGO?

Foi numa sexta feira à tarde, final de um “ensaio-de-desfile”. Coisa que a Escola costumava realizar. Estávamos no pátio interno da Escola. Como a minha turma da 4ª. série havia sido liberada primeiro, as demais turmas vieram depois. Numa dessas eu me dirigi ao BOI, que passava: “Marcha direito, BOI!”. Foi só isso. E ele me prometeu que ao final, viria acertar as contas comigo, na porrada. Olha a situação! Agora quem estava “gelado” era eu. Fazer o quê? Correr? Me esconder? Nunca fui de briga mas não podia fugir. Seria vexatório. E então fui lá no internato, peguei o meu compasso pontiagudo de desenho e me postei justo naquele lugar onde estava quando o BOI passou. Despedida a sua turma do ensaio do desfile, lá vem o BOI na frente, seguido dos seus colegas, querendo ver a pancadaria! E quando o BOI se aproximou, o meu compasso enferrujado teve serviço! Aí quem ficou emudecido e gelado foi o BOI. E abriga acabou. Santo remédio aquele meu compasso.

FLAUTA - O TIRA AS CALÇAS

Eu tratava o FLAUTA por “conterrâneo”. Flauta era um rapaz entre monossilábico e fechado, cumpridor de sua etapa colegial. Nas noites, antes do  SILÊNCIO, porém, com o pátio vazio e silenciado, FLAUTA, solitário, executava o seu instrumento  Daí o apelido que ele desprezava. PERIQUITO era queixudo (queixo pronunciado). Os mais fortes pegavam ao queixo e... “Compá Pereco” pra cá, “Compá Pereco” pra lá. Pereco ficava pê da vida. Numa certa noite FLAUTA E PERIQUITO entraram num bate boca. Em pleno vestiário! Aí o FLAUTA: “Peraí, que eu vou tirar as calças pra gente brigar”. Ah pra quê? Ficou conhecido como “FLAUTA, TIRA AS CALÇAS... Aí o cara virava uma fera...

UI UI, SEU “EME” PASSA MANTEIGA!

Na Escola “acho que não sei porque” rolou por lá uma frase: “Passa  manteiga”.    Seu  EME era o chefe do internato. Um vozeirão! Dele diziam coisas (???). O Haroldo era um aluno talentoso; destacava-se na  oficina de eletrotécnica. Um rapaz sério,  firme no cumprimento da escolaridade. Um, dia, porém, porque sim ou porque não, HAROLDO deu um grito quando SEU EME passava: “Ui, ui, Seu EME, passsa manteiga”. Ah pra que?  Um vulcão tomou conta da querela. Rendeu. E por causa desse “ui-ui”, HAROLDO foi expulso do internato. Foi trágico e doído, para todos nós, ali ver a expulsão de HAROLDO, sendo recebido pelo seu responsável, em pleno pátio, após o hasteamento da bandeira.

O PROFESSOR ELE-ZÊ, O HERÓI...

Na Escola tinha o professor Ele-Zê. Seus jeitos e seus trejeitos indicavam a sua “ferramenta”, mas nem por isso ninguém lhe desrespeitava, salvo em pensamento. Era um professor de artes-ofício. Amistoso. Havia um aluno do seu ofício,  o GÊRÊ uma espécie de “queridinho do peito”, do mestre, tais os esgaios do professor Ele-Zê.  Naquele tempo, PÊ-ZÊ,  era o chefe, o coordenador da limpeza e serviços gerais. Enfim, o HOMEM que mandava em outros homens e podia arrebanhá-los ao serviço, à qualquer momento, fosse necessário.

Conta a lenda que o professor Ele-Zê, ao avistar uma “labigó” na parede, exclamou em tom de esgaio, pavor, escândalo e defesa: “GERRÊ!”!!, vai chamar o PE-ZÊ, para vir assassinar este mooooonstro! Porque eu, enquanto mestre, estou aqui para defender os meus queridos alunos”. Essa estória rolava e a turma se deliciava... longe do Professor Ele-Zê. É claro!

- Taí SEU CAPIJAS, o texto!

* Viegas questiona o social
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