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30/10/2021 às 00h00min - Atualizada em 30/10/2021 às 00h00min

Recado a João

 
João, escrevo-te aqui, desta Ilha do Amor, para dar-te algumas boas notícias que talvez sejam do teu conhecimento. Passei alguns dias lá na nossa terra, às margens do Tocantins. Bem que gostaria de seguir literalmente o itinerário do eterno Rubem Braga. Mas você que é poeta, tão poeta quanto tantos outros que tivemos a ventura de encontrar nas encruzilhadas desse mundo travesso, sabe da minha tormentosa impossibilidade. Se não fosse esse grave obstáculo, eu te diria: As chuvas chegaram. E tu resolveste, cumprindo as determinações do tempo, essa eternidade móvel, pendurar a toga, que sempre a honraste com respeito, dedicação, distribuindo o direito e fazendo justiça. Boa parte desse tempo de vida, tu o fizeste ao lado da tua Santa, companheira dedicada e que se encontra, bem quieta, numa casinha modesta, adornada pelas flores do amor, no reino dos justos. Um dia todos nós estaremos lá, dando aquelas gargalhadas, como o fizemos algumas e repetidas vezes.

Estive lá na nossa terra, onde tu vais gozar alguns momentos dessa tua felicidade do ócio. Ouvirás o cantarolar dos pássaros. São muitos e variados. Como é bom vê-los indo de um lá para o outro. Aconchegarem-se nos frágeis galhos das árvores, que suportam com carinho as suas estrepolias matinais. O roçar dos bicos nas asas meio abertas, como se tivessem afagando o corpo em descanso. Depois, o toque ligeiro no chão, na busca de um pouco de alimento, uma semente perdida no meio da folhagem, ou um grão de arroz que, desprovido de asas, fez morada em algum espaço devoluto.

Meu caro João, em nossa Imperatriz, a água tem caído com vontade. Tu precisas ver para crer. Ou mesmo, como é do teu conhecimento, precisas crer sem necessidade de ver. Lembra-te daquelas chuvas torrenciais, com assustadoras trovejadas? Assim está a nossa terrinha do Frei. Estás na iminência de tirar a toga, e este recado que te mando é para que tu mates a saudade, fazendo do nosso começo nas lutas advocatícias e depois na magistratura, o palco das nossas reminiscências. Ah!, meu caro João Santana, eram tempos difíceis, mas bom de mais. Olha, Cândida, eu nunca mais vi. Soube por fontes não bem informadas, porém as únicas disponíveis, que ela partiu para outras terras. Talvez a nossa querida Marluce saiba nos dizer pra onde ela foi. Odon, lembra-te, João? Não teve tempo de gozar o ócio da aposentadoria. Partiu muito ligeiro, sem ter tempo de nos dizer adeus. Estive olhando com o olhar prescrutante da saudade a mesa da sala da minha casa de Imperatriz. Lá, uma ou duas vezes por semana, reuníamo-nos para estudar para o concurso – Leomar, então advogado do BASA, depois juiz federal, Josemar, hoje desembargador, e o amigo. Eu fui reprovado. Tu, Leomar e Josemar passaram. A nossa preocupação era contigo, havias sofrido pouco antes das provas um AVC. A tua saúde estava abalada por esse incidente. Mas Deus te deu uma missão. E a estás concluindo com dignidade. Chegas às setenta e cinco primaveras, com uma saúde de Hércules. Lá, da casinha rodeada de flores, Santa, em silêncio, está feliz. Nós estamos felizes. Deste um piparote no AVC. Ele fugiu da tua sanha combativa. Foi apenas um susto passageiro. Estás a partir para o ócio com a certeza de que serás mais poeta do que até aqui o foste. A vida, meu caro João, para quem sabe viver, é pura poesia. O tempo é poesia. O amor é poesia. Os filhos são poesia. O viver é poesia. Se ainda pudéssemos conversar com Quintana, sim, e ainda podemos, e ele nos dirá que “um poema como um gole d’água bebido no escuro. / Como um pobre animal palpitando ferido. / Como pequenina moeda de prata perdida / para sempre na floresta noturna. / Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa / condição de poema. / Triste. / Solitário./ Único. / Ferido de mortal beleza.”

Vai, com a imponência do dever cumprido. Balança a tua rede debaixo de uma copuda e florida árvore e descansas desses tantos anos de luta. Não esqueças de ter, bem próximo, uma rústica mesinha para os livros e algum papel em branco para transformar a natureza em poema. Pescas um desses peixes saborosos que as águas do Tocantins, com a bondade que Deus lhe deu, nos doa, diariamente, quer chova ou faça sol.

João, também não esqueças desta Ilha do Amor, que, em toda esquina, mora um poeta, e que, na sofrência ou na alegria, traduz os sentimentos mais puros da poesia, pois afinal nossa terra, aqui como lá, tem mais flores e palmeiras onde canta o sabiá e muitos bem-te-vis que, na sinfonia do seu canto, nos despertam para o novo dia. Sem adeus. Um grande abraço.

* Membro da AML e AIL.
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AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

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