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19/10/2021 às 00h00min - Atualizada em 19/10/2021 às 00h00min

Igualzinho a um ioiô

O vendedor de ovo de égua - Causo XVIII

*Republicado a pedidos
**Publicado originalmente em 21 de dezembro de 2014

  
O “causo” agora narrado aconteceu há muitos anos, se não me falha a memória em meados do ano de 1964, em uma pequenina cidade perdida no sertão cearense. Na época do acontecido, nós, seres humanos, vivíamos uma vida bem diferente da vida que vivemos atualmente, e como tenho repetido sempre, embora não seja eu um conservador, não tem como negar que sinto muitas saudades daquele tempo. Aliás, peço até licença para escrever nestas “mal traçadas linhas”, como costumávamos escrever nas missivas enviadas, um pequenino trecho de uma poesia de minha autoria, parodiando a obra prima “Meus Oito Anos”, que confesso, não lembro se de autoria de Gonçalves Dias ou de Casimiro de Abreu. Desculpem-me pela minha memória falha.

O trecho inicial da poesia/paródia era assim: “Oh que saudades que eu tenho / daquele tempo que foi / quando eu e minha priminha / brincava de vaca e boi!”. Poesia bem inocente, não? Pois era assim naquela época, onde a inocência estava estampada no semblante de cada criança, jovem, adolescente e coisa e tal. Época em que certas coisas da vida a gente só ia saber, tanto na teoria quanto na prática, no dia do casamento, por ocasião da tão aguardada lua-de-mel. E era lua-de-mel mesmo! Bem ao contrário de hoje, que tem apenas a lua, pois o mel há muito o gato lambeu todinho.

Já falei onde o “causo” aconteceu, e agora vou divulgar a sua principal personagem, uma jovem de aproximadamente 14 ou 15 anos de idade, com um rostinho realmente encantador, um corpo escultural, e muitos e muitos outros predicados. Era ela a única filha de um casal bastante conhecido na região e que também tinha 8 filhos machos, por sinal todos eles mais velhos que a jovem. Portanto, era a caçulinha, o que de imediato dá para se entender os “mimos” que lhe davam os manos mais velhos. O seu nome era Maria da Anunciação, porém era popularmente conhecida em toda a cidade pelo apelido de “Bio”, embora eu não saiba o porquê de assim ser chamada. Imagino eu que se deve ao fato dela, por ser um verdadeiro monumento de carne e osso, ter muito a ver com o remédio Biotônico Fontoura. Isto é, assim como o Biotônico, a jovem abria o apetite e dava uma vontade danada de comer.

O pai, a mãe, os irmãos, tios e tias, sobrinhos e sobrinhas, primos e primas, e porque não dizer toda a sociedade local, tinha o maior cuidado com a “Bio”, temendo que aparecesse algum “rabo de burro” (era assim que eram chamados os conquistadores da época) e passasse a perna na jovem. Para onde a “Bio” fosse, lá estava uma verdadeira procissão lhe acompanhando, zelando pela sua segurança e reputação. Era para a igreja, para o colégio, para o cinema, para a casa de uma amiga, para um passeio na pracinha, em todos os lugares. “Bio” não andava sozinha para lugar algum.

Um certo dia, a jovem se sentiu mal, com náuseas e outros sintomas que, mesmo sem ser médico ou profissional da saúde, qualquer leigo daria o seu diagnóstico: gravidez! Mas a família, por hipótese alguma, queria acreditar nesta hipótese. “Deve ser uma buchada de bode que ela comeu no dia anterior”, dizia o seu avô coronel Hermenegildo, nos seus quase cem aninhos de vida. “Na noite de ontem, ela comeu três pastéis, que certamente estavam estragados e lhe fizeram mal”, justificava um dos irmãos. A todo instante, tinha sempre alguém argumentando em favor da jovem.

E como nada de “Bio” melhorar, a família não teve outra alternativa a não ser levar a jovem até a capital Fortaleza para ser consultada por um médico especialista, e que, com certeza, teria melhores condições de diagnosticar aquela estranha doença. Ao final do minucioso exame realizado, o médico disse à paciente: “Tenho uma boa notícia para dar à senhora”, e “Bio” de imediato retrucou: “Senhora não! Senhorita”, com o médico então declarando: “Então é uma má notícia! Gravidez confirmada!”.

Cidade pequena é um caso sério e poucas horas depois do diagnóstico do médico em Fortaleza, distante quase 400 km da cidadezinha, toda a sua população já estava sabendo que “Bio” estava buchuda, estava prenha. A coitada da família sofria uma terrível vergonha, um vexame nunca antes imaginado. Dava até pena ver o andar dos familiares da jovem: cabisbaixos e abatidos. E a pobre mãe da “Bio” era quem mais sofria com a gravidez da filha, colocando sobre os seus ombros toda a responsabilidade pelo acontecido. Algumas vezes cheguei a pensar que aquela senhora iria pôr um fim na sua própria vida, tamanho era o seu desgosto com o fato.

Foi então que a mãe resolveu agir. Em uma certa manhã, reuniu toda a família (pai, irmãos e a jovem) e perguntou a “Bio” como aquilo tinha acontecido, haja vista todo o cuidado que lhe era dispensado, e segundo um dos irmãos me contou, já que eu não estava participando da dita reunião, a jovem teria respondido que aconteceu no dia em que ela, no caso a mãe, estava com uma terrível dor de cabeça, deixando-lhe ir sozinha para o colégio.

A pobre mãe de imediato aumento o seu complexo de culpa, pois lembrou-se que um certo dia estava com uma terrível enxaqueca, não acompanhando a filha até a escola onde estudava. Contudo, lembrou-se também que, após tomar um analgésico, a dor de cabeça tinha passado, mas nem assim fora buscar a jovem na volta da escola. Para uma espécie de prestação de contas com a sua consciência, a mãe fez uma nova pergunta: “Me responda, minha filha! Foi na ida ou na volta?”.

E “Bio”, na maior inocência do mundo, juntou os cinco dedos da mão direita e afirmou fazendo gesto característico:
“Sei não, mamãe! A bicha ia e vinha!”, e complementou inocentemente: “Parecia até um ioiô!”.
 

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JAURO GURGEL

JAURO GURGEL

JAURO José Studart GURGEL, durante muitos anos Editor Regional de O PROGRESSO, em Araguaína (TO),

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