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15/10/2021 às 00h00min - Atualizada em 15/10/2021 às 00h00min

As elucubrações de quem escreve

 
Clarice Lispector disse certa vez que escrever é uma maldição. E ela mesma, no livro Aprendendo a viver, é quem justifica o que dissera: “Eu disse uma vez que escrever é uma maldição. Não me lembro por que exatamente eu o disse, e com sinceridade. Hoje repito: é uma maldição, mas uma maldição que salva.” Logo, Clarice é mais precisa a respeito do que dissera, esclarecendo aos seus leitores que não estava se referindo muito a escrever para jornal, “mas escrever aquilo que eventualmente pode se transformar num conto ou num romance”. Mais adiante, nas suas elucubrações de grande escritora, Clarice, que viveu para escrever e escreveu para viver, diz: “Escrever para jornal não é tão impossível: é leve, tem ser leve, e até mesmo superficial: o leitor, em relação ao jornal, não tem nem vontade nem sempre de se aprofundar.” Nesta última elucubração clariceana, não quero contradizê-la. Fui, nos jornais e nos livros, seu leitor, como ocorreu com outros grandes cronistas, poetas, romancistas, contistas e críticos de arte, que escreviam e se popularizaram através das páginas dos jornais impressos. Já o disse por aqui: JB, Última Hora, O Dia, Estado do Maranhão, O Imparcial, O Globo, Correio da Manhã, Diário de Notícias, onde tive o prazer de conhecer Lago Burnet, que publicava uma excelente crônica, dia sim, dia não, durante a semana.

Muitos escritores fizeram do jornal impresso (agora se tem fazer referência a esse adjetivo, porque as coisas estão indo pra outro rumo) o seu instrumento de comunicação, de contato direto com o seu leitor. Carlos Drummond de Andrade, Carlos Eduardo Novaes, Carlos Heitor Cony, a própria Clarice, José Chagas, o nosso eterno poeta e cronista dos mais fecundos, Ubiratan Teixeira, que fez da crônica e do teatro a voz dos seus sentimentos artísticos, Colassanti, Saramago, que tem um excelente livro de crônicas, Manuel Bandeira, Machado de Assis, Coelho Neto, este maranhense, acadêmico da ABL, que recebeu João do Rio quando da sua posse como membro da Academia Brasileiro de Letras, o próprio João do Rio, que fez da crônica a argamassa poética para referir-se às belezas naturais e estéticas da Cidade Maravilhosa. São tantos escritores que fizeram dos jornais impressos a sua ourivesaria para escrever coisas menores que os tornaram maiores. Entre esses, Clarice Lispector.

Ah!, ia esquecendo de um deles que o lia diariamente com uma sofreguidão de faminto desvairado: Nelson Rodrigues. E, quando podia e tinha, ia ao teatro ver as suas peças, onde surgiam nas cenas um Palhares ou um desses canalhas que ele tão bem sabia personificar e que, nos dias atuais, andam por aí azucrinando a paciência da gente, ocupando altos postos da República desta nossa pátria amada. Aproveitando, como disse o Arcepisbo de Aparecida: é pátria amada e não pátria armada.

Nelson Rodrigues, na sua voracidade criativa, construída e alimentada nas redações dos jornais, pois começou como repórter de polícia, onde todo foca dá os seus primeiros passos, deixou uma imensa obra literária: teatro, crônicas, romances e, além de tudo isso, frases. Foi, como Machado de Assis, um dos maiores frasistas na arte de escrever. São verdadeiras elucubrações literárias. Algumas são de uma sinceridade espalhafatosa. Cito-as, a título de curiosidade: - Cochichamos o elogio e berramos o insulto; - Como é antigo o passado recente!; - A pior forma de solidão é a companhia de um paulista; - Toda unanimidade é hedionda; - Brasileiro paga não as dívidas, mas os juros; - O brasileiro mata e morre por uma frase; - Faz-se um gênio ou idiota, um santo ou herói em 15 minutos de fulminante promoção; - Não existe, hoje, palavra mais vã, mais sem caráter, e, direi mesmo, mais pulha do que “liberdade”. Como corromperam em todos os idiomas!; - Há médicos que cobram até “bom-dia”; - O verdadeiro ódio dura mais que a vida e dura mais que a morte; - No Brasil, a delícia do Poder é o seu abuso; - O dinheiro compra até o amor verdadeiro; - No Brasil quem não é canalha na véspera, é canalha no dia seguinte; - Depois de certo tempo, o amor conjugal vira amizade e o desejo passa a ser quase incestuoso. Pois bem. Fico por aqui. Mas ainda assim, esta última me chamou a atenção: O preceito divino de “amai-vos uns aos outros”, dever-se-ia acrescentar: ‘menti-vos uns aos outros”, com a desfaçatez e convicção, para os crimes, as guerras, as catástrofes possam ser evitadas.

Mas, as redações de jornais são as verdadeiras universidades para quem quer escrever. Muitos escritores se formaram nessa escola, ora saindo das oficinas, ora da revisão, ora elaborando textos, ora fazendo encantadoras crônicas. Uma certeza: cada escritor tem as suas manias. José Saramago tinha como disciplina escrever duas páginas por dia: - Mesmo que pudesse continuar depois da segunda página, não continuo. García Marquez declarou o seu problema no ato de escrever: - só consigo trabalhar em lugares que me sejam familiares e que já tenham sido aquecidos com meu trabalho. Não consigo escrever em hotéis, na casa dos outros ou em máquinas de escrever emprestadas...

Cada um do seu jeito. O que nos leva à conclusão que escrever é uma maldição salvadora. Nisto Clarice está certíssima.

* Membro da AML e AIL
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AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

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