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29/08/2020 às 00h00min - Atualizada em 29/08/2020 às 00h00min

“Estou só e sonho saudade”


Este verso de Fernando Pessoa me invade a alma, provocativo, todas as vezes que me ocorre a partida de um amigo. E muito mais ainda porque não é apenas um amigo, mas dois amigos, com os quais tive a humana e venturosa possibilidade, na passagem por esta finita dimensão, de com eles conviver. “Estou só e sonho saudade.” Nessa poética frase pessoana está todo um sentimento de vazio. Com a partida dos amigos para o encontro com o eterno, ficamos nós na solidão desta existência terrena e transitória. Creio que, por isso mesmo, certa vez perguntaram a Oscar Niemeyer o que é a vida. Ele, sem deixar transparecer qualquer dúvida, do alto da experiência dos seus cento e cinco anos, respondeu: – A vida é um sopro.
Talvez, quem sabe, tudo seja um sopro em termos de temporalidade. Nós passamos. Mas a vida é um conjunto de viver, de sofrer, de amizades, de realizações, de frustrações, de ações, de omissões, de amores, de paixões, de ressentimentos, para quem os acumula, como se estivesse a depositar essa riqueza transitória, de valores e antivalores, nos caixas de bancos, para que o gerente obsequioso administre as nossas mágoas, adquiridas nas atribulações da inevitável e necessária convivência.
Ultimamente, alguns amigos têm tido essa mania de partir, sem uma prévia advertência para os que ficam. Inesperadamente, recebo a notícia de que se deu a partida. Não nos mandam nem um bilhetinho. Um reles e insignificante bilhetinho. Mas não os culpo. É porque ainda sou do tempo do bilhetinho. Sei que alguns pegaram o hábito moderno de se comunicar por e-mail. E eu lhes digo sempre: prefiro a moda antiga. Um bilhetinho, por favor! Leio-os com muita atenção. Letras miúdas, de alguns. Pontuação adequada. A frase precisa e repleta de sentimentos, a nos dizer do quanto se sentem felizes naquele breve momento que nos falam do amor, da amizade, do carinho, de compartilhar da sua vida, naquilo que ela tem de mais saborosa.
Dois fraternos amigos partiram: Sálvio Dino e Kleber Moreira. A mim não interessa qual a causa de sua partida. Seja qual o motivo que fez com que tivessem que deixar a nossa convivência de tantos e tantos anos, impossível evitar a solidão de suas ausências. Como seres humanos, como companheiros fraternos, como amigos que tinham o dom divino de valorizar as amizades. Por isso, a imensa e incontida saudade.
Sálvio, o altivo tribuno, condoreiro da palavra. Tinha o dom de poetizar um simples discurso, transformando, com o poder da sua linguagem polida pela metáfora, numa evocação que atingia o coração de quem tinha a felicidade de ouvi-lo.
Certa vez, alguns anos atrás, encontramo-nos nas barrancas do Tocantins (uma das suas metáforas preferidas). E ele, Sálvio, pediu, não, não foi bem isso, convocou-me para fazer o prefácio de um dos seus livros. Tratava-se de uma peça de teatro, com enfoque nos conflitos agrários, próprios daquela região. Aceitei a honra e desafio. Do prefácio transcrevo o trecho inicial:
“Incumbência honrosa esta que me foi outorgada pelo intelectual, confrade e amigo Sálvio Dino, de realizar comentários introdutórios, de apresentação, da peça teatral ‘Mané Cícero: O Rastro de Sangue pela Posse da Terra’. Conheço-o de longo tempo, desde quando, ainda estudante de Direito, da velha Faculdade da Rua do Sol, tive o privilégio de vê-lo brilhantemente atuar como advogado no Tribunal do Júri, cujas sessões de julgamento se realizavam em sala do Tribunal de Justiça da Av. Pedro II, ora exercendo o sagrado múnus da defesa, ora cumprindo a difícil e espinhosa tarefa de assistente de acusação. Sálvio, possuidor de uma oratória convincente e de uma retórica condoreira, desenvolvia, com extrema sagacidade, as teses jurídicas mais consistentes e profundas, para alcançar o desiderato da absolvição e ou da condenação do acusado. Um grande tribuno. Um advogado que integrou uma geração de intelectuais, que contribuiu para fortalecer o encômio merecido, dado a São Luís do Maranhão, de Atenas do Brasil.”
Kleber Moreira, um dos mais brilhantes advogados que conheci. Intelectualmente bem preparado. De uma ética irrepreensível. E uma das petições mais consistentes na linguagem e juridicamente que tive oportunidade, como companheiro de profissão e, depois, como magistrado, de ler. Mesmo considerando a nossa fraterna amizade, nunca dela abusou em qualquer momento. Ainda tinha muito para dar e engrandecer a advocacia maranhense. Teve participação ativa na sua instituição de classe, a OAB. Pelo que sei, foi apenas advogado. E um brilhante advogado, além de grande amigo. Concluo: Estou só e tenho saudade.
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AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

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