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25/09/2021 às 00h00min - Atualizada em 25/09/2021 às 00h00min

Doença da urina preta

 
Ufa! Que semana confusa no cerne da saúde, iniciamos com a suspensão de vacinas em adolescentes, depois a aplicação de doses de reforço em idosos, a introdução do passaporte de vacinação, a gravidade da interrupção da produção de radiofármacos pelo IPEN, que interrompe exames e tratamentos em medicina nuclear e radioterapia (cintilografias e tratamento de câncer) afetando de imediato 2 milhões de pacientes, suspeitas de pesquisas indevidas com cloroquina e proxalutamida nos fazendo lembrar a conduta indecente dos americanos na sífilis não tratada de Tuskegee, falta de verbas na saúde para pesquisas provocando uma maciça, perigosa e desconfortável fuga de cérebros com dano incomensurável a ciência brasileira, o desnecessário e deselegante gesto obsceno do Ministro da Saúde em New York para quem estava em um protesto, (lembrar da elegância do Presidente José Sarney que disse “tem que se respeitar a liturgia do cargo”), uma CPI confusa, aonde médicos são repetidamente ofendidos, inclusive por outros médicos, numa gritaria deselegante e absurda para um Senado da maior República da América Latina e, finalmente, o Governador do Amazonas sendo indiciado, por unanimidade, no desvio de verbas públicas na condução da pandemia, comprou respiradores pulmonares em loja de vinho! Esperamos outros nessa trilha, para o bem do Brasil.

Com todo esse movimento a escolha do tema para a semana ficou difícil, mas por ser um tema de máxima importância faremos um resumo da chamada doença da urina preta.

Conhecida como Doença de Haff porque foi descrita pela primeira vez em 1924 na região litorânea de Könisberg Haff, próxima ao Mar Báltico, atualmente protetorado de Kaliningrado um enclave na fronteira da Lituânia com a Polônia e pertencente à Rússia. Os médicos descreveram um quadro de doença aguda, súbita, com rigidez muscular e alterações na cor da urina. Nos nove anos seguintes novos casos foram descritos, principalmente no verão e no outono e tinham em comum o consumo de pescados. Apareceram relatos em outras regiões como URSS, Suécia, China e USA. No Brasil os primeiros casos foram relatados em 2006 e 2009, sendo o surto de maior gravidade na Bahia, com 71 casos. Pesquisadores brasileiros atribuem à presença de uma toxina não identificada em peixes. Recentemente notícias de um surto na Amazônia com 44 casos concentrados na cidade de Itacoatiara e redondezas com registro de um óbito. Ainda não existe confirmação se seria a doença de Haff, mas é a principal suspeita.

Como não sou especialista nesse mister, fui ao Google Scholar e realizei pesquisa em fontes como o Scielo e na USP, além dos informativos da Amazônia. O seu quadro clínico é exuberante com dores musculares, principalmente na musculatura dorsal (trapézio), alguns dor no peito com falta de ar, fraqueza e tontura, a urina escura da cor de café que decorre da rabdomiólise (degradação muscular) que libera uma proteína chamada de mioglobina no sangue que é eliminada pela urina causando sua coloração característica, esse quadro costuma ocorrer poucas horas, cerca de 24 horas, depois do consumo de peixe e crustáceos.

Exames que medem a destruição muscular, como a creatinofosfoquinase, junto com o quadro clínico epidemiológico estabelecem o diagnóstico.

Acredita-se que o causador seja uma toxina encontrada em espécies de peixes como salmão, pacu, enguia. No Amazonas houve relatos também com tambaqui pirapitinga, arabaiana, ocorre também em peixes de água salgada e crustáceos como lagosta e camarões. Não se sabe a origem dessa toxina e, nem foi adequadamente identificada, suspeita-se de modificações no meio ambiente com o uso de metais pesados em garimpos e proliferação de cianobactérias.

Também existem dúvidas sobre a origem por inadequado acondicionamento dos pescados.

Como essa toxina tem eliminação renal, pacientes podem desenvolver insuficiência renal sendo, necessário, a hemodiálise, por isso a importância do adequado atendimento imediato com a prevenção através de uma hidratação vigorosa realizada por médicos devidamente habilitados.

A maioria dos casos evoluem para a cura! Porém, a atenção e o diagnóstico precoce e que determina esse resultado.

Acompanhando através de periódicos diários na Amazônia já existem casos relatados como suspeitos em Belém e no estado do Pará. Como a toxina não tem cheiro nem gosto e nem é neutralizada pelo calor ela é ingerida com peixes cozidos.

Uma excelente iniciativa foi o encontro ocorrido em Imperatriz com adequada informação sobre o problema por técnicos da EMBRAPA para esclarecimento de piscicultores e dos consumidores, vi o resumo na televisão e foi bastante esclarecedor.

Não há relato de casos em peixes de criatórios!

O governo volta atrás nas vacinas de adolescentes, atitude acertada, o ministro da saúde em quarentena em New York, a comitiva em quarentena no Brasil. E na terra de Pindorama mais um problema, A URINA PRETA!
 
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NAILTON LYRA

NAILTON LYRA

O Doutor ​NAILTON Jorge Ferreira LYRA é médico e Conselheiro Regional de Medicina e Conselheiro Federal de Medicina representando o Estado do Maranhão

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