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28/08/2021 às 00h00min - Atualizada em 28/08/2021 às 00h00min

A Hora da Estrela

 
Todo livro, quando começo a ler, e o faço de modo bem compassado, para sentir em cada frase o sublime prazer da leitura, não deixo para depois as orelhas, onde se encontra alguma essência interpretativa, ou informações preciosas sobre o autor ou autora, sobretudo quando é o primeiro encontro íntimo com o escritor ou escritora. Também não esqueço a contracapa, local em que é feito um resumo bem resumido da obra. Feito isso, vou ao ou aos prefácios, à apresentação e a outras preliminares que se antepõem à porta de entrada, que, finalmente, ultrapassada, me faz caminhar pelo jardim estético da narrativa. Ler um livro é um ato de sublimação amorosa. E todos nós o consumimos, e ele nos consome. E vamos, no caminhar árduo e agradável da leitura, estabelecendo um diálogo, trocando experiências, fazendo uma aprendizado da linguagem, do ambiente, da trama, ora parando, ora indo bem devagar, ora ficando extasiado com aquela frase realista ou metaforicamente irrealista. Assim, nesse convívio salutar, nesse interminável diálogo, mesmo depois de lido, quando se chega ao ponto final, a leitura permanece nas entranhas de nossa consciência. Desperta-nos para um mundo novo, ou um novo mundo. É uma simbiose, uma sinergia, uma submissão, no bom sentido (se é que se pode assim dizer) entre o ler, o prazer e a vida transfigurada em arte literária.

A Hora da Estrela, um comovente texto de Clarice Lispector. Pois é. Aqui e acolá, ando às voltas com Clarice Lispector. Uma escritora com a qual o meu primeiro convívio foi quando ela escrevia as suas poéticas crônicas nos jornais do Rio de Janeiro, nos anos que passei por lá. Essas crônicas eram minhas leituras. Os jornais, como o JB, no Caderno B, agasalhavam grandes cronistas, assim fora o Última Hora de Samuel Wainer e O Globo dos Marinhos. Essas crônicas eram uma festa literária. Se fosse nos dias de hoje, seria, como diria o meu avô, um santo remédio para o combate contra essa fatal pandemia da Covid-19, e, com certeza, não se estaria a viver essa crise do Sérgio Reis, do Amado Batista, do, quem diria, Malafaia, com seu exército de fundamentalistas talibãs, e outras figuras grotescas e inusitadas, que estão a transformar o 7 de Setembro no dia da dependência, numa atitude de negação da própria história dessa nossa sofrida pátria amada.

Mas, como ia dizendo sobre as crônicas e os cronistas, havia à época - e muito contribuía para venda das nossas folhas diárias – grandes cronistas. No sábado ou no domingo, saía logo cedo e ia a uma banca para adquirir os três jornais que disputavam a preferência: o JB, o Globo e o Última Hora, além da Tribuna da Imprensa, de Hélio Fernandes. Pronto. Estava com a manhã completa. Passava de imediato a fazer a leitura dos cronistas, como Clarice, Colassanti, Drummond, Carlinhos de Oliveira, Carlos Eduardo Novaes, Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte e Preta, e, na Folha, quando possível, Lourenço Diaféria. Bem depois, Oto Lara Resende. Já Rubem Braga ou Paulo Mendes Campos eram publicados nas revistas, como O Cruzeiro, Manchete. No Diário de Notícias, onde, por algum tempo, fui foca (atuando na reportagem geral), tinha Lago Burnet, que havia saído do JB e integrava o seu corpo de editores, que publicava excelentes crônicas dia sim, dia não. Recentemente, num dos canais de TV local, tive a ventura de ver um documentário sobre Lago Burnet e o achei excelente, bem produzido. Quem conheceu Lago e, embora superficialmente como foi o meu caso, sabe o quanto ele era um grande jornalista e escritor.

Mas nessas leituras que se vai fazendo, as frases expressam as ideias. Por esses dias, lendo um livro que tratava do Conflito entre Ressocialização e o Princípio da Legalidade na Execução Penal, dei-me de cara com a citação de uma frase de Focault, bem atual, retirada de uma de suas obras: “Quanto mais despótico for o poder, mais numerosos serão os criminosos. O poder forte de um tirano não faz desaparecer os malfeitores; ao contrário, ele os multiplica.” É uma verdade, como diria o meu avô, nua e crua. A tirania não elide nem reduz a criminalidade. Pelo contrário, nos anos de 64 a 85, na ditadura da nossa pátria amada, não se viveu num paraíso de amor, solidariedade e felicidade. A tortura oficializada e a corrupção se faziam presentes. Coroa Brastel, Paulipetro, e outras coisinhas mais são alguns exemplos nada edificantes.

Em A Hora da Estrela, Clarice esconde-se na condição de narradora, e, em alguns passos dados do romance (na classificação de José Castello: “é um romance sobre o desamparo a que, apesar do consolo da linguagem, todos estamos entregues), manifesta o seu desespero da escrita: “Não, não é fácil escrever. É claro como quebrar rochas. Mas voam faíscas e lascas como aços espelhados”. A escritora repete o que dissera na dedicatória: “Eu medito sem palavras e sobre o nada. O que atrapalha a vida é escrever.’ Verdade, ainda que discutível: “Pensar é um ato. Sentir é um fato.” Os dois juntos – alerta a autora de A Cidade Sitiada – “sou eu que escrevo o que estou escrevendo”. (...) Então eu canto alto agudo uma melodia sincopada e estridente – é a minha própria dor, eu que carrego o mundo e há falta de felicidade.” Esta é nossa Clarice, que, com a magia das palavras, sabe penetrar no âmago de nossas almas. Fico por aqui, porque escrever não é fácil, embora contraditoriamente prazeroso.

* Membro da AML e AIL
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AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

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