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21/08/2021 às 00h00min - Atualizada em 21/08/2021 às 00h00min

(um texto sobre CLARA NUNES)

 
(Um texto que fiz  (40 linhas) para a minha crônica PÁGINA DE SAUDADE, no Rádio/AM, na capital, cativa há 14 anos, no Programa Clube da Saudade, manhãs de domingo, em cadeia com mais de 30 emissoras em todo o Estado) – editada e adaptada para estes... CAMINHOS POR ONDE ANDEI).

Você lembra do Cleviegas?  Cleviegas era um cara que não entendia como nunca entendeu de música mas que ainda assim, anos 60, se meteu a querer comentar sobre canções, cantores e composições. Isso foi no Programa Panorama Estudantil do Grêmio Arariense dos Estudantes nas tardes de domingo, na Rádio Educadora! Hoje, sessenta anos depois, eu ataco de CLEVIEGAS – para lembrar ela... a música em pessoa; a musa dos Orixás: CLARA NUNES! Aclamada pela crítica como uma das vozes mais bonitas do Brasil!!

Clara Nunes,  mineira, guerreira, nasceu par viver a CLARIDADE! Pena, digo eu que a sua passagem terrena entre nós, nem durou tanto. Clara foi como uma “passageira da agonia”, em pleno esplendor do seu  canto, do seu sucesso, da sua vida  – CLARA, como na linguagem espírita desencarnou a sua CLARIDADE e numa viagem sem volta, partiu para a ETERNIDADE- uma partida que foi polêmica, duvidosa, questionada. Essa vida e costumes e ritos e ritmos de misticismos de CLARA NUNES, embora admirando-a, a mim sempre me inquietava, me confundia e sempre me trouxe fundas interrogações.

Clara começou a cantar ainda no coreto de sua Capela. Aos seis anos de idade já era órfã de seus pais e desde cedo trabalhou como tecelã, numa fábrica. O seu potencial artístico foi despertado de forma bem amadora. Aos 18 anos, Clara começou a ter luzes mais fortes na sua face artística. No ano de 1968, aos 26 anos, pela sua única - Gravadora Odeon, gravou “Você passa eu acho graça”. Era o seu grande ponto de partida!  Nascida em 1942, faleceu em 1983, aos 41 anos, Clara viveu o sucesso dos 26 aos 41 anos, durante 15 anos, apenas!

Clara vendeu quase quatro milhões e meio de discos segundo os registros. E foi uma Rainha Midas – digo eu – já que por onde passava e no quanto cantava, o sucesso se confirmava. Músicas como: Canto de Areia; O mar serenou; Juizo Final; Lama; Riso de Lágrimas; Coisa da Antiga; Feira de Mangaio; Clementina; Morena de Angola, Ijexá;  Canto das Três Raças; Tristeza Pé no chão; Quando Vim de Minas, A Deusa dos Orixás; Candongueiro; As Forças da Natureza; Banho de Manjericão Ê baiana são apenas alguns dos sucessos de Clara Nunes em meio  uma discografia extraordinária de mais de 250 canções.

Clara não só cantou. Ela exibia fartamente em suas apresentações um bailado leve, cadente, profano e envolvente. Uma verdadeira coreografia. O seu cântico e sua dança, enfim se completavam de tal maneira que o seu canto era a sua dança e a sua dança era o seu canto.  Da rica discografia de Clara, entre outras, separo aqui três canções para lembra-la: CANDONGUEIRO - que retrata um tambor e seu toque que quando ressoava na Senzala, o moral da escravaria levantava e a vida se transformava: Eu sou de Angola, bisneto de quilombola/ Não tive e não tenho escola, mas tenho meu candongueiro / No cativeiro, quando estava capiongo, meu avô cantava jongo prapoder segurar – oi / A escravaria, quando ouvia o candongueiro, vinha logo pro terreiro para saracotear

Outra da Mineira Guerreira é FUZUÊ que diz: Berimbau batia /Cabaça gemia/ Moeda corria / Eu queria pular.../// Eh fuzuê  / Parede de barro /Não vai me prender ... ... ///  Maria Macamba perdeu a caçamba/ No cateretê/ Sambou noite e dia / Que até parecia que ia morrer/ Nasceu no quilombo / Aprendeu levar tombo/ No canjerê... Escrito assim não tem graça. Ouça a música  com o bailado de Clara e sinta a realidade, a crua realidade de uma artista que viveu um misticismo entre a sua vida real e as suas canções e... o seu bailado.

“Não deixando uma coisa por outra”, como no velho ditério do meu lugar, anoto  aqui que Mestre Sarney ao lembrar João do Vale (cantor e compositor maranhense), disse que “João exercia a poesia pura, natural, verdadeira”. Tenho então de JOÃO DO VALE, o conterrâneo pedreirense, imortalizado na música CARCARÁ, na sua composição OURICURI, cantada por Clara Nunes. A canção é uma verdadeira engenharia e arquitetura da arte entre a letra, os arranjos musicais e a interpretação de CLARA CLARIDADE.

E eu, quais as gaivotas do Pacífico que todos os dias levantam vôo e voltam ao fim da tarde sem nunca chegar do outro lado (segundo o mestre Wady Suáia na obra CENAS QUE FICAM,  levanto-me nas madrugadas para ouvir OURICURI (de João), no canto e dança de CLARA, sem contudo nunca me satisfazer e buscar cada vez mais o congresso e a oficina entre a composição (de João) e a sua interpretação (em Clara). OURICURI (a música) se transformou em mim, uma obsessão de permanente busca do universo que existe na canção.

Ouçamo-la: Oricuri madurou ô é sinal/ Que arapuá já fez mel / Catingueira fulôro lá no sertão /Vai cair chuva granel /// Arapuá esperando/ Oricuri “maduricer” / Catingueira fulôrando sertanejo / Esperando chover /// Lá no sertão, quase ninguém tem estudo / Um ou outro que lá aprendeu ler / Mas tem homem capaz de fazer tudo, doutor / E antecipa o que vai acontecer ///  Catingueira fulora, vai chover / Andorinha voou, vai ter verão / Gavião se cantar é estiada /  Vai haver boa safra no sertão ///  Se o galo cantar fora de hora, /  É mulher dando fora pode crer / A cauã se cantar perto de casa/  É agouro é alguém que vai morrer / São segredos que o sertanejo sabe / E não teve o prazer de aprender ler ///  Oricuri madurou ô é sinal/  Que arapuá já fez mel

Há um momento que me marca em CLARA NUNES! Anos 60. Morávamos todos na casa do Estudante, na Rua do Passeio. Por vezes o almoço demorava.  Aí vinha o Herbert (o conterrâneo), de posse de garfo e faca, batucava sobre o prato. E cantarolava Clara Nunes - Ê Baiana. Em princípio a turma estranhou mas em seguida se acostumou e acompanhou. Eu estava lá. Foi a partir da lá que eu despertei para as canções de Clara Nunes – qual faço agora, dando uma de CLEVIEGAS – aquele que nunca entendeu de música, como faço agora nesta   PÁGINA DE SAUDADE – adaptada para estes... CAMINHOS POR ONDE ANDEI

 * Viegas questiona o social
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CLEMENTE VIEGAS

CLEMENTE VIEGAS

O Doutor CLEMENTE VIEGAS e advogado, jornalista, cronista e contesta o social.

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