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14/08/2021 às 00h00min - Atualizada em 14/08/2021 às 00h00min

O VELHO TEMPO DA CARTA

 
Distante se vai aquele tempo  – o tempo em que se mandavam e recebiam-se cartas. A carta era um instrumento de comunicação. A carta despertava um sentimento de integração, de familiaridade, de afinidade, de amizade - além das confidências e outras assertivas  que nelas de estabeleciam

Mandar e receber uma carta despertava emoções. A carta tantas vezes falava pelo nosso coração. Faziam-se  declarações, juras, promessas. Negócios, até. Projetavam os nossos sonhos, diziam do nosso EU. A carta era a nossa fala, as nossas lamúrias, queixumes, confissões. A nossa expressão na comunicação.  Tinha força de documento até. Um registro que tantas vezes guardava-se pelo resto da vida. Rasgar uma carta?  Inutilizá-la? Ao contrário: costumava-se guardá-la.

A carta já teve o seu tempo, Tinha até papel de carta. Lembra? Com envelopes guardados e até mesmo uma lapiseira, só para fazer carta. E quando  o carteiro chegava?! O coração disparava! Outra coisa: quem não sabia escrever nem sabia fazer uma carta, pedia a quem soubesse escrever para então fazer-lhe uma carta. Nordestinos de outrora em São Paulo ou em Brasília –por exemplo. A carta, então, era um “ditado”

O ato de escrever e enviar uma carta mexia com o nosso ego, expunha o nosso EU. Receber uma carta, então, principalmente da pessoa amada, era sem dúvida um ALIMENTO ao sentimento que nos unia à remetente, daquela missiva que tantas vezes nos enchia de alegria e satisfação; ao passo que... vezes outras... a carta nos trazia dores, tristezas, frustrações. As comunicações de hoje em dia também têm dessas coisas. Mas a carta era enigmática, um tipo majestoso, carregada de declarações!

Era o tempo daqueles envelopes com bordas em verde e amarelo. Lembra? Essas vinham refesteladas de selos e carimbos dos Correios. Aqueles selos e carimbos, transmitiam a sensação do “confeite do bolo”. Selos e carimbos nas cartas faziam parte da carta, davam imponência à carta – fosse na remessa fosse no recebimento. Enfim, no quanto se mandava daqui para lá ou no quanto se recebia de lá pra cá.

Guardo e lembro  com saudade aquele velho tempo da carta. Fiz dessa escrita, um norte de vida, tal o desvelo a dedicação,  a expectativa, a  que sempre tive diante da carta - fosse como remente, fosse como destinatário. Afinal, a carta foi o grande elo que uniu as pessoas, no convívio social.  ******

As cartas, tantas vezes, porém,  eram uma manifestação de dor. De frustração. Um rastro de sofrimento. De término. De separação. De um adeus. Adelino Nascimento diz que: “A carta que você deixou sobre a mesa / Nela estava escrito tamanha tristeza”.

Vanuza diz que “Quando o carteiro chegou /E o meu nome gritou/ Com uma carta na mão/ Ante surpresa tão rude/ Nem sei como pude/ Chegar ao portão. Já Roberto diz: “Escreva uma carta meu amor/

E diga alguma coisa por favor. E Erasmo diz: Escrevo-te

Estas mal traçadas linhas meu amor / Porque veio a saudade visitar meu coração”. E quem não poderia faltar nesta galeria é o Valdick que diz: Minha querida, saudações/ Escrevo esta carta / Não repare os senões / Para dizer o que sinto / Longe de ti / Amargurando na saudade/ As horas vividas com felicidade. Ou... com diria eu “... que esta carta não só fale mas... grite por mim”

A carta que tantas vezes serviu para dar luz e cor às  janelas, muitas vezes foi um fechamento de portas que a vida nos tem mostrado ao longo do tempo. E o BILHJETE? – O bilhete era o “primo pobre” da carta. Não tinha a mesma expressão da carta. Nem envelope, nem selo dos correios. Mas foi uma via simplista da nossa comunicação escrita. Ia ou vinha pelo primo, pelo/a colega e até pelo/a garoto/a, de mero favor de ocasião. Pobre bilhete, dobradinho às vezes era desdobrado e furtivamente o seu conteúdo era conhecido pelo/a intruso/a mensageiro/a.

Hoje cartas não  existem mais. O telefone negro, depois os  telefones cinza e branco incumbiram-se de liquidar a mensagem das cartas. E agora com essa modernidade ao computador, celular, redes sociais, WhatZaap,  e-mail e os cambau, quem mesmo é que vai mandar ou receber uma carta? A carta  acabou! A carta enfim não vai mais. Nem vem mais. Acabou-se aquele estado de espera que a carta era.

Guardo porém, com lembranças e saudade o velho tempo da carta. E nessa paixão, fiz dessa escrita um norte de vida. E agora, quando lembro daquele velho tempo em que cartas se mandavam e cartas se recebiam, eu um amante-profissional da extinta carta, escrevo esta PÁGINA DE SAUDADE para os... CAMINHOS POR ONDE ANDEI.

(Texto escrito originariamente para  a minha crônica PÁGINA DE SAUDADE, na Rádio Mirante /AM, domingos,  08:00 hs., Programa CLUBE DA SAUDADE. Adaptado para estes... CAMINHOS POR ONDE ANDEI)

  * Viegas questiona o social
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CLEMENTE VIEGAS

CLEMENTE VIEGAS

O Doutor CLEMENTE VIEGAS e advogado, jornalista, cronista e contesta o social.

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