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14/08/2021 às 00h00min - Atualizada em 14/08/2021 às 00h00min

Pra subir você desceu

 
Amanheci hoje, nesta quarta-feira, 11/8, dia do aniversário de nascimento da minha falecida irmã Jerusa, revivendo as canções que consagraram a inesquecível sambista Clara Nunes. As duas – minha irmã e Clara Nunes - foram-se para o convívio do eterno, ainda bem novas. Assim é a vida. Viver é também morrer. Como costumavam dizer os meus, nessas situações de saudade: Deus assim o quis. Cumprimos o nosso destino. E teremos sempre o cuidado de não chegar ao mais alto degrau da fama com a moral toda enterrada na lama. Assim nos diz o poeta e sambista Mauro Duarte, autor do samba genial Lama, que Clara Nunes imortalizou com a sua voz que ficou para sempre gravada na história da música popular brasileira. Ela, que seguia uma das religiões mais antigas do Brasil, o candomblé, que nos foi legada pelo negro africano, quando, escravizado, foi forçado a sair do seu torrão natal para sofrer as agruras do açoite da insensibilidade do senhor da casa-grande, que até hoje não conseguiu se despir da sua arrogância escravista e continua a açoitar e matar, sem ouvir os clamores do próprio Cristo, que fez do seu evangelho o mandamento do amor.

Ouvindo o samba Lama, atentei, com mais cuidado, para a letra. Não tive dúvida. Um poema de um profundo alcance ético. Vejam o que diz essa preciosidade da canção brasileira:

Pelo curto tempo que você sumiu

Nota-se aparentemente que você subiu

Mas o que eu soube a seu respeito

Me entristeceu, ouvi dizer

Que pra subir você desceu

Você desceu

Todo mundo quer subir

A concepção da vida admite

Ainda mais quando a subida

Tem o céu como limite

Por isso não adianta estar

No mais alto degrau da fama

Com a moral toda enterrada na lama

De fato, pra subir (na vida, ganhar dinheiro, ter posição política, poder econômico etc.), muitos descem para o esgoto da lama, onde, além de se lambuzar com as impurezas dos seus atos amorais e imorais, espalham o odor fétido da sua podridão moral. Enquanto detém o poder, são “admirados”. Quando deixam de ostentar essas futilidades passageiras, os seus “admiradores” somem e, do mesmo modo que os bajulavam, passam a execrá-los. São esses também oportunistas que aproveitam os degraus da fama e que adotam os mesmos métodos para usufruírem as vantagens daquele que subiu, embora com a moral toda enterrada na lama.

No mundo político, esse retrato de Dorian Gray é vivido a todo instante. Os carreiristas de ocasião deixam de cumprir as suas obrigações institucionais em detrimento, até mesmo, do ordenamento jurídico do Estado, para usufruir, sem qualquer pejo, as vantagens do exercício de um cargo público. A esses carreiristas pouco interessa, como poetiza o sambista Mauro Duarte, se há limite ou não da sua ação ou omissão. Quer estar no degrau da fama, sendo de nenhuma relevância se a sua moral se encontra encharcada na lama da desídia.

Certo que tudo mundo quer subir ou ficar no pedestal da glória, embora omisso ou mentiroso, mas vestido com a falsa roupa da verdade, da omissão, da inércia, da conivência. Mas essa subida, muitas vezes espinhosa para uns e fáceis para outros, deve ser feita por um caminho sem que se sepulte, a cada passo, as regras éticas. Para tudo há um comportamento ético: ética do trabalho, ética da responsabilidade, ética da política, ética da toga, na expressão do jurista Oscar Vilhena Vieira, ética da religião, ética do amor, ética do poder, quanto ao seu exercício. Hegel, este grande pensador alemão, que criou os três momentos da dialética, ensinava que “o Estado é a realidade efetiva da ideia ética”. Ou seja, com essa simples frase, fixou o “locus” onde se encontram os problemas éticos.

Nesta pátria amada, hoje tão hipocritamente mal-amada, tivemos muitos políticos, que, no exercício do poder, foram éticos. Cito o ex-presidente José Sarney, que, mesmo atacado por seus inimigos ou “amigos”, mantinha-se numa postura ética de absoluto respeito pelo seu adversário de ocasião. Poder-se-iam ser citados outros, como Renato Archer, do mesmo modo, incapaz de agredir o seu opositor. Esses dois políticos, historicamente em pólos divergentes, no exercício da atividade pública, foram portadores de temperamento prudente e ético. Jamais – e até mesmo em deferência e respeito ao cargo – chamariam um adversário, com o qual não estariam de acordo com as ideias, de “filho da puta”. Pois è, vivemos o tempo do “caguei” e de “aquele filho da puta...” Nos meus tempos de criança, esse insulto maternal era retribuído de imediato com uma facada mortal. Mas os tempos eram outros. E qualquer filho da puta respeitava a mãe do outro.

* Membro da AML e AIL
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AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

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