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10/07/2021 às 00h00min - Atualizada em 10/07/2021 às 00h00min

“Caguei!”


No começo de tudo era apenas o verbo, pois a verba só era mesmo para “investir” no tratamento precoce, sendo produzidas pelos nossos laboratórios oficiais e oficiosos milhares de inúteis comprimidos de cloroquina, que se encontram estocados, a espera de serem calcinados pelo fato da eterna burrice de quem manda e de quem obedece. Então, após essa fase, entrou-se num outro ciclo mais devastador para a combalida economia da pátria amada. Surgiram então figuras exóticas e bem à moda do momento ora vivido, que passam a fazer parte dessa nova história. Destacam-se os irmãos Miranda, reverendo Amilton (sem “H”), Davati, Dominghetti, coronel praqui, coronel prali, e um cabo de não sei donde. E, nessa nova versão, em que o verbo deixou de ser verbo e passou a ser verba, entrou-se na fase do quem dá mais. Assim, o leilão do vale-tudo teve início, num processo tormentoso, que tem sido o retrato da nossa pátria amada, concebida pela precária inteligência do capitão do Planalto. Deu-se então o pontapé inicial: compra de vacina vai, compra de vacina vem; nesse vai e vem, propina vai, propina vem, e a CPI da Covid, que tem como finalidade apurar todos esses desmandos, entrou nesse jogo de milhões, para saber quem são os leiloeiros (ou o leiloeiro oficial), os ofertadores dos lances, quem aceitou ou não; enfim, por último, independentemente das sagradas orações do reverendo Amilton (ainda sem “H”), resolveu fazer algumas consultas ao capitão-mor do time, que exerce a também sagrada função de gerente-mor das finanças públicas, tendo que prestar contas dessas negociações vacinais, que envolvem o dinheiro nosso de cada dia, entregue todo mês na boca do caixa, quando vamos receber o nosso também sagrado salário, conquistado pelo nosso, ainda também, sagrado suor.

A CPI que foi instalada a duras penas, por uma decisão do Supremo Tribunal Federal, emanada do ministro Luís Roberto Barroso, que também preside o Tribunal Superior Eleitoral, tem mexido e remexido num pantanal de safadezas ora oficiais ou oficiosas, com a evidente participação de civis e militares, estes da ativa ou inativos. Pazuello é um deles, possuidor de uma incompetência devidamente comprovada, durante o período em que esteve à frente do Ministério da Saúde. Mas, como todo militar, cumpria ordens: “Ele manda, eu faço.” Uma cruel estratégia que justifica a maldade, tão bem examinada por Hannah Artendt, que a denominou de “banalidade do mal”, quando acompanhou o julgamento do nazista e assassino de judeus Adolf Eichmann, o qual justificou o genocídio do povo judeu ao afirmar que cumpria ordens, não tendo responsabilidade pelas atrocidades.

Deixando Eichmann de lado, embora as teses nazistas continuem evidentes e devastadoras, voltemos à CPI e ao compra e vende de vacinas, além dos novos personagens que passam a ocupar lugar de destaque nesse nosso novo momento histórico. O presidente da CPI da Covid, em vista de tantas e escabrosas denúncias que têm chegado ao conhecimento dos parlamentares, inclusive com a citação a latere do nome do capitão-mor da nossa desgastada república dos coronéis e de alguns generais, enviou ao capitão uma carta pedindo esclarecimento sobre o que foi dito por um dos Miranda em depoimento prestado à CPI sobre ter-lhe dado conhecimento a respeito dos indícios de irregularidades (quer dizer: corrupção) no contrato para compra da vacina Covaxin, e, ao fazê-lo, a reposta foi de uma simplicidade franciscana: “ser coisa de Ricardo Barros”. Esse Ricardo Barros, outra figura da nossa história recente, é o líder do governo na Câmara.

Respondendo ao parlamento, que representa um dos poderes da República e que não pode e não deve ser vilipendiado pelo autoritarismo da fala ou de qualquer ato, disse o capitão: “Hoje foi, acho que não sei se foi o Renan, ou o Omar, e o saltitante, fizeram uma festa lá embaixo, na Presidência. (Vieram) entregar um documento para eu responder pergunta à CPI.” E acrescentou, numa linguagem própria de rendez-vous, portanto inapropriada para as crianças do meu tempo e, na expressão do presidente Sarney, da liturgia do carga: “Vocês sabem qual a minha resposta, pessoal? Caguei. Caguei para a CPI. Não vou responder nada.”

Essa resposta cagada serviu de mote para o pessoal inabituado com esse tipo de caganeira verbal. Mas das bocas das pessoas, dependendo de quem o seja, sai todo tipo de podridão. Mas também sai o amor, a solidariedade, o carinho, a delicadeza, o respeito, a palavra amiga, a doçura de uma frase, a inteligência refletida numa resposta do mesmo modo inteligente. Chego a uma conclusão existencialista: nós somos as nossas próprias palavras.

* Membro da AML e AIL
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AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

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