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26/07/2021 às 00h00min - Atualizada em 26/07/2021 às 00h00min

IMGUINORAPULIS

Capítulo XXV

*Republicado a pedidos
**Publicado originalmente em 3 de fevereiro de 2013

Salvo por uma cobra

IMGUINORAPULIS estava transformada em uma verdadeira "praça de guerra", com uma expressiva parte da população, cansada dos desmandos do prefeito DOTO LADRONESIO FURTADO, querendo a sua retirada da prefeitura municipal, e a outra parte, com o apoio da maioria dos vereadores IMGUINORAPULIENSES, desejosa da sua manutenção na administração do município. O mais interessante de tudo é que o prefeito não dava a mínima importância para as reclamações e os protestos do povo. Não poucas foram as vezes em que presenciei um ou outro popular chamar-lhe pelo nome de ladrão ou outros adjetivos nada qualificativos, e ele dar boas gargalhadas e até agradecer pelos elogios.

Jamais esquecerei o dia em que uma multidão se concentrou em frente ao prédio da Câmara Municipal de IMGUINORAPULIS e, com palavras de ordem tipo "abaixo a corrupção, pra fora o prefeito ladrão!", e exigia dos vereadores uma tomada de posição, cassando o prefeito municipal. No meio dos manifestantes estava um jovem mostrando uma folha de cartolina, onde se via desenhada uma forca com um rato pendurado. E lá estava escrito: "Chamaram o Ladronesio de rato e ele nem se importou; chamaram o rato de Ladronesio e ele se enforcou". Enquanto eu observava a cartolina e lia o que estava escrito, alguém bateu em minhas costas e comentou: "Quanta criatividade! Este jovem tem futuro!". Virei-me e a surpresa foi grande: era o prefeito LADRONESIO FURTADO totalmente disfarçado que estava no meio da multidão e gritando com toda força: "Fora o prefeito ladrão! Fora o prefeito ladrão!".

Mas a campanha em prol da cassação do prefeito ia se fortalecendo cada vez mais. Até mesmo os seus mais fiéis aliados já achavam a cassação irreversível. Na noite de uma certa quarta-feira, em um certo local da cidade, as mais expressivas lideranças e populares estiveram reunidos para discutir uma forma de retirar o prefeito da prefeitura municipal. Alguns, mais radicais, chegaram a pregar até "nem que seja a bala, mas ele tem que sair da prefeitura. E não pode passar do sábado!". Ficou, então, decidido que na manhã do dia seguinte um emissário iria até a capital do estado levando um abaixo-assinado solicitando ao senhor governador uma intervenção na Prefeitura Municipal de IMGUINORAPULIS. E assim foi feito. O emissário viajou na madrugada de quinta-feira na expectativa de na noite da sexta-feira estar de volta trazendo o decreto nomeando o interventor municipal.

Na manhã do sábado, fui acordado bem mais cedo que o costumeiro pelo VIADINO, que com o seu jeitinho meio "desmilinguido" me dizia que a cidade estava um "AL-VO-RO-ÇO". Imaginando que o motivo seria o fato do emissário ter retornado da capital trazendo o decreto de intervenção estadual, dirigi-me até a portaria da pensão. Ao olhar para a rua, observei uma multidão que fazia uma enorme fila em torno da farmácia do vereador DOTO MATOUZINHO, que por sinal naquela ocasião acumulava o cargo de Secretário Municipal da Saúde.

Segui em direção da farmácia para saber o que estava acontecendo, quando alguém me informou que naquela madrugada uma senhora, residente num dos bairros da periferia de IMGUINORAPULIS, tinha procurado o DOTO MATOUZINHO para que ele fizesse um trabalho de parto e, ao ser feito, foi constatado que no lugar de uma criança tinha nascido uma cobra. Apressei os meus passos, cortei a fila, entrei na farmácia e vi, com estes meus dois olhos, uma mulher deitada em uma cama e ao seu lado um vidro com uma cobra dentro. "Já tinha visto cobra entrar, mas sair é a primeira vez!", comentei com um popular.

A repercussão sobre a mulher que deu à luz a uma cobra foi tanta que o tal decreto de intervenção na Prefeitura Municipal foi totalmente esquecido. E o prefeito DOTO LADRONESIO FURTADO continuou por mais alguns dias no poder.

Mas, quando se pensava que tamanha aberração tivera o seu ponto final naquele mesmo dia, isso não aconteceu, haja vista que alguns meses mais tarde, o assunto "mulher que pariu uma cobra" voltou à tona no plenário da Câmara Municipal de IMGUINORAPULIS. Naquela ocasião, os vereadores discutiam uma mensagem do Poder Executivo Municipal solicitando a autorização para doar uma certa importância em dinheiro a uma empresa da capital que iria promover em IMGUINORAPULIS a "I Corrida de Bodinos", ou seja, de bodes. O líder do prefeito naquela casa de leis, vereador ARLINDO BELO, pedia aos seus pares para votarem favorável, justificando que a realização do evento iria levar para bem longe o nome do município, já que o mesmo seria noticiado para todo o Brasil através dos programas JORNAL BRASILEIRO e MARAVILHA, transmitidos pela TELEVISÃO UNIVERSO.

No auge da discussão, o vereador DOTO MATOUZINHO - que brigara com o prefeito DOTO LADRONESIO FURTADO pelo fato de ele não ter arranjado um emprego para o tio do cunhado da sua sogra, e assim fazia parte da bancada oposicionista - posicionou-se totalmente contrário, fazendo a sua declaração, que ainda tenho gravado no meu gravador: "SE A PREFEITURA TEM DINHEIRO PARA FINANCIAR CORRIDA DE BODE, DEVERIA PEGAR ESTE DINHEIRO E FINANCIAR UM TRATAMENTO NA MULHER QUE PARIU UMA COBRA, POIS A BICHA COMEU TUDO O QUE A MULHER TINHA DENTRO DO BUCHO!".

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JAURO GURGEL

JAURO GURGEL

JAURO José Studart GURGEL, durante muitos anos Editor Regional de O PROGRESSO, em Araguaína (TO),

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