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08/07/2021 às 00h00min - Atualizada em 08/07/2021 às 00h00min

IMGUINORAPULIS

Capítulo XX

*Republicado a pedidos
**Publicado originalmente em 30 de dezembro de 2012


A grande obra de um vereador

O sucesso do nosso curso, que intitulamos de CPI - Curso Preparatório Imguinorapuliense, embora algumas pessoas o chamassem de Curso Para Ignorantes, foi tanto que decidi modificar os meus planos futuros, quais sejam o de voltar à civilização para permanecer por mais algum tempo em IMGUINORAPULIS. E a minha rotina diária passou a ser: pela manhã e no período noturno, dando expediente integral no CIP e no período vespertino me tornei frequentador assíduo da Câmara Municipal, assistindo às sessões legislativas que aconteciam de segunda a sexta-feira, no horário de 14 às 18 horas. E foi graças ao comportamento do Poder Legislativo Municipal que consegui catalogar o maior número de "causos" acontecidos e que fazem parte deste meu humilde trabalho literário. Foram os vereadores IMGUINORAPULIENSES a matéria-prima desta minha obra.

E por falar em obra, recordo-me perfeitamente um caso acontecido com um ilustre vereador, cujo nome não lembro-me no momento, embora não esqueça alguns detalhes do seu comportamento parlamentar. Durante os quase quatro anos de mandato, em momento algum me lembro de ter ouvido pelo secretário da mesa diretora um requerimento, uma indicação, um projeto de lei, seja lá o que for, de sua autoria. Nem mesmo as tais moções de pesar, endereçadas a alguém que perdeu um ente querido, ou as moções de aplausos, quando se quer puxar o saco de alguém, tão comum nas casas de leis espalhadas pelo Brasil, o referido vereador se propunha a fazer. Jamais, em momento algum, o vi levantar da cadeira para um aparte a outro vereador, demonstrando apoio ou se mostrando contrário ao seu pronunciamento; nem tampouco assisti usar a tribuna para se pronunciar sobre determinado assunto.

A única coisa que o ilustre edil fazia durante todo o desenrolar das sessões legislativas, quer ordinária quer extraordinária, era "palavras cruzadas", cujos livrinhos eram conseguidos através de um cunhado, que residia na capital do estado e todas as vezes que tinha um viajante para IMGUINORAPULIS remetia-lhe dezenas deles. Não conta as vezes em que, no auge das discussões mais acirradas entre os vereadores, o "edil cruzarista" se virava para mim, que sempre ficava encostado em um balcão que separava as galerias do plenário para me fazer perguntas do tipo: "Capital brasileira com cinco letras?", e ainda acrescentava: "Começa com B e termina com M!". E eu, para parecer que tal pergunta era um pouco difícil, pensava um pouco e respondia: "Belém!", e o vereador pegava o lápis que usava e preenchia os respectivos quadrinhos.

Mas o mais interessante aconteceu no dia em que o vereador DOTO MATOUZINHO fazia um eloquente pronunciamento, defendendo um projeto de sua autoria, cujo teor também não me lembro no momento, e todos os vereadores prestavam o máximo de atenção a sua fala, quando repentinamente o vereador "fulano" dobrou o livrinho de palavras cruzadas e se levantou da cadeira, o que nunca tinha acontecido. Surpreso, o presidente da mesa diretora, vereador FURTUOSO VALADRÃO, tocou a campainha, interrompeu o pronunciamento do orador e falou: "Nobre colega vereador Doto Matouzinho! Vossa Excelência me desculpe pela interrupção das suas palavras, mas este momento será inesquecível. Pela primeira vez nesta legislatura, vamos escutar um pronunciamento do colega vereador!", e disse o seu nome, que infelizmente, repito, não consigo me lembrar. E ele, já em pé e caminhando por entre as mesinhas onde sentavam os demais vereadores, declarou: - PODE DEIXAR, PRESIDENTE! EU VOU SÓ NA CASINHA OBRAR!, e tranquilamente se dirigiu ao banheiro.

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JAURO GURGEL

JAURO GURGEL

JAURO José Studart GURGEL, durante muitos anos Editor Regional de O PROGRESSO, em Araguaína (TO),

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