Imaginemos a seguinte situação: se há um ano atrás alguém fosse picado pela mosca “tsé-tsé” (“mosca do sono”) e contraindo a insônia acordasse hoje, teria dificuldade para entender o que significa Uber e Airbnb, e porque esses dois nomes até recentemente desconhecidos provocam tanta celeuma nas cidades onde aparecem.

É que, mais do que palavras estranhas ou “sopa de letras” do novo vocabulário urbano, elas simbolizam um novo conceito de fazer negócios, conhecido como “economia colaborativa”.

O que é isso? Nada mais do que criar aplicativos que se apoiam na tecnologia de comunicação e equipamentos móveis, como smartphones e tablets, para estabelecer uma linha direta entre consumidores e fornecedores, que, geralmente, antes estavam desagregados.

Parece pouco, mas esse processo tem revolucionado hábitos arraigados, pois estabelece alternativas mais vantajosas a serviços já consolidados, como os táxis, no caso do Uber, e hospedagem, como a Airbnb.

O aplicativo Uber surgiu em 2009 nos Estados Unidos, e foi criado por uma startup (“significa ato de começar algo”) para organizar em um único lugar o acesso a carros de aluguel, até então autônomos. Cinco anos depois, já era uma poderosa empresa presente em 300 cidades de 55 países, avaliada em US$ 45 bilhões.

Hoje, só nos Estados Unidos, engoliu quase metade dos transportes terrestres de viajantes de negócios, e avança em todas as cidades com serviços diferenciados. Trata-se como se pode verificar de uma “novidade”.

Porém, o “novo” como sempre, assusta as pessoas que se recusam evoluir em seu trabalho e nas atitudes, mesmo diante de uma sociedade que exige cada vez mais praticidade, economia, comodidade e eficiência.

A resistência a inovações e tecnologias emergentes se confunde com a história da humanidade. Quando implantadas, causam resistência cultural e burocrática, para, a seguir, serem assimiladas até ganhar legislação própria.

Foi assim com o primeiro carro que surgiu em 1769 na França. Vinte anos antes da Revolução Francesa (1789) o complexo veículo de três rodas movido a vapor encontrou imensa má vontade dos defensores do transporte a cavalo.

No coração da indústria de transporte, França, os animais eram tão populares que o trem era conhecido na época como “cavalo de ferro”, a bicicleta, como “cavalo de pobre”, e o bonde elétrico, como “carroça sem cavalo”.

Em 1901, o presidente do Michigan Savings Bank chegou a declarar: “O cavalo veio para ficar, mas o automóvel é apenas um modismo”. Uma frase que o tempo se encarregou de ridicularizar.

Nem o lobby da poderosa indústria equestre de então – em 1880 havia mais de 200 mil cavalos circulando em Nova York – conseguiu interromper a evolução tecnológica.

O mesmo tipo de reação aconteceu, só para mencionar situações recentes, quando surgiram alternativas digitais para produtos consagrados, como a fotografia, o livro e a imprensa. Isso sem falar na Netflix e a choradeira atual das operadoras de cabo.

Entretanto, o Uber como também a Airbnb declaram interesse em soluções para se adequar à legislação brasileira, a exemplo do que já ocorreu nos Estados Unidos, onde operam sem sobressaltos.

Afinal, não se rema contra o progresso. Até porque, mais que tecnologia e economia gerada, há um ingrediente que alavanca o sucesso meteórico dos dois aplicativos. É que em seu DNA está a confiança e a segurança do consumidor, a garantia implícita de que não será enganado nem correrá riscos, algo com demanda infinita nos dias de hoje.

Mas, diante dessa realidade, pergunta-se: O que acontece quando o capitalismo se “uberiza”? Como serão as empresas, os trabalhadores e a relação trabalhista atual diante de um futuro que já começou? Para responder a essa pergunta tomemos o exemplo da Uber, aplicação móvel que liga motoristas privados a clientes.

Através de um smartphone, o cliente pede um carro e o motorista mais próximo segue ao seu encontro. Os motoristas não são empregados da Uber; são “parceiros”, termo este que pode até causar náuseas e arrepios aos adeptos incondicionais da nossa já ultrapassada legislação trabalhista (1943) que necessita urgentemente se adequar a nova realiddade nacional  e mundial. Afinal, o mundo não é globalizado?

Isto na prática quer dizer que o Uber e o motorista não têm um vínculo laboral. O motorista usa a sua própria viatura, paga do seu bolso a gasolina e a manutenção do carro, e recebe 80% do valor de uma corrida; os restantes 20% são a comissão da Uber.

Vejamos, a título de exemplo, um novo conceito de fazer negócios, conhecido como “economia colaborativa” já presente na vida de muitas pessoas em todo o mundo.

Uber. Fundada em 2009, em San Francisco, EUA, por Travis Kalanick e Garrett Camp, a empresa está hoje avaliada em 45 bilhões de dólares. Tornou--se um colosso mundial, estando presente em 65 países. Os taxistas profissionais estão de cabeça perdida com a concorrência da Uber.

Airbnb. É uma plataforma de aluguel de casas, quartos, sofás ou castelos, presente em 190 países e 34 mil cidades. Fundada em San Francisco, EUA, está avaliada em 22  bilhões de euros. Oferece mais quartos do que as redes Intercontinental, Hilton ou Marriott.

Doctor on Demand. Criada pelo Dr. Phil McGraw, um conhecido psicólogo com um programa de televisão, a aplicação Doctor on Demand coloca o cliente cara a cara com um médico através do ecrã do telefone. As “videoconsultas” custam 40 dólares.

TaskRabbit. Baseada no conceito “vizinho ajuda vizinho”, esta aplicação oferece uma série de “tarefeiros” para as atividades domésticas (ir às compras, passear com o cão, limpar a casa, etc.). Neste caso, “vizinho paga a vizinho” e a empresa cobra uma taxa por cada tarefa.

Alibaba. É o maior bazar do mundo. A empresa do chinês Jack Ma vende de tudo um pouco e vale 134 bilhões de euros. É a grande concorrente da Amazon e do eBay, tendo períodos em que vende mais do que estes dois juntos.

Amazon. A empresa de Jeff Bezos vale 290 bilhões de euros (mais de uma vez e meia a economia portuguesa num ano). Lançou o Mechanical Turk, um mercado de trabalho on line, onde as empresas podem ir procurar “tarefeiros”, a quem dão trabalhos pontuais.

Showroomprive. O site desta multinacional francesa, avaliada em 670 milhões de euros, funciona como um clube (com 20 milhões de membros) onde são disponibilizadas, com desconto, as sobras das coleções das grandes marcas.

E você o que acha de tudo isso? Os benefícios compensam os malefícios da “Uberização”? Qualquer que seja o seu posicionamento, a verdade é que, afinal, não se rema contra o progresso. Pensem nisso!