A partir da década de 1970, a Amazônia brasileira deixou de constituir, no imaginário popular, nacional e internacional, protagonizado por diversos escritores, como sendo o “Inferno Verde”, livro publicado em 1904, do pernambucano Alberto Rangel (1871 - 1945); a “Amazônia Misteriosa”, livro lançado em 1925, do carioca Gastão Cruls (1888 - 1960) e “A Selva”, publicado em 1930 pelo português Ferreira de Castro (1898 - 1974).

Era comum, segundo os vários escritores, o estereótipo da Amazônia Brasileira onde cobras, jacarés e índios conviviam nos núcleos populacionais existentes. Com a criação da Zona Franca de Manaus (SUFRAMA), em 1967,  durante o Governo Militar, quando os turistas em busca de produtos importados passaram a visitar Manaus, como se fosse uma Hong Kong da selva, a imagem da Amazônia Brasileira passou a ser modificada e entendida sob outros aspectos, dentre eles, a ameaça da biopirataria.

Surge, assim, um novo mito que perpassa no imaginário amazônico decorrente das fabulosas riquezas da biodiversidade e da destruição da Amazônia. Quando se examina a história da Amazônia Brasileira, verifica-se que a exploração da biodiversidade precisa ser retirada da redoma utópica que pode ser altamente prejudicial para que se possa decidir por políticas públicas nesse importante setor da nossa soberania.

A verdade é que a história da Amazônia Brasileira tem sido uma sucessão de exploração da biodiversidade. Houve o ciclo da biodiversidade do cacau que começou com a fundação da cidade de Belém e foi até a época da Independência do Brasil (1822). Perdeu-se a oportunidade da biodiversidade do cacau uma vez que, já em 1746, tinha sido levada para a Bahia e,  posteriormente, para o continente africano e asiático, tornando os novos locais grandes centros produtores. Foi a primeira biopirataria da Amazônia Brasileira, de um produto ativo da economia. Da biodiversidade do cacau sobraram como recordações as igrejas mais antigas de Belém, o antigo Palácio dos Governadores e o início do Círio de Nazaré.

Da biodiversidade do cacau seguiu-se a da seringueira, que durou enquanto estavam crescendo os plantios racionais no Sudeste asiático, das sementes levadas por Henry Wickham, em 1876. Foi a segunda biopirataria e, como resultado desse ciclo, sobraram diversas pirâmides, como os Teatros da Paz e Amazonas, construção de ferrovias, porto flutuante de Manaus, palácios, o povoamento da região, a incorporação do Acre a soberania nacional, etc. A seringueira tornou-se uma planta universal, com mais de 8,3 milhões de hectares plantados e o Brasil importando 65% do seu consumo de borracha.

Posteriormente, seguiram os ciclos da biodiversidade do pau-rosa, da castanha-do-pará, que atingiram a expansão e apogeu e sofrem sérios problemas de esgotamento. No momento, vive-se a fase da extração da biodiversidade da madeira, açaí, cupuaçu, pupunha, guaraná, peixes ornamentais e congelados, camarão, entre os principais.

Ao longo da história da Amazônia Brasileira foram introduzidos diversos recursos exóticos da biodiversidade, como o gado bovino, bubalino, juta, pimenta-do-reino, mamão hawai, jambo, mangostão, durian, rambutã, melão, gmelina, teca, eucalipto, noni, nin, entre outros. No caso da juta e pimenta-do-reino, introduzidas pelos imigrantes japoneses, provenientes de antigas possessões britânicas, representaram uma troca com a biopirataria da seringueira, tiveram forte participação na economia regional, mas perderam a sua importância relativa.

O trato do tema da biopirataria é emblemático. Os pesquisadores “biopiratas” entram sem permissão em nosso território, roubam nosso patrimônio genético, que depois é transformado em bilhões de dólares por multinacionais de medicamentos ou cosméticos. Ainda que isto aconteça e seja merecedor de atenção, não está aí o cerne do problema. O grande problema relacionado ao tema “biopirataria” é a nossa incompetência em dar uso comercial ao potencial econômico da nossa fantástica biodiversidade. Falta, portanto, políticas públicas nesse importante setor da nossa soberania.

Mas, o que falta para transformar o potencial da biodiversidade amazônica em riqueza para o país? Como fazer uma repartição justa dos benefícios, especialmente para as populações indígenas e tradicionais, que detêm rico saber sobre os usos e manejo desta biodiversidade? Estes são alguns dos problemas que deveriam ser a prioridade da atenção de nossos governantes.

Deveríamos fazer uma ampla mobilização dos nossos melhores cérebros na ciência, empresariado e formuladores de políticas públicas. Deveríamos colocar a estes um desafio simples, porém difícil: transformar a riqueza da Amazônia Brasileira em fonte de recursos para erradicar a pobreza na região, valorizar a floresta em pé, reduzir o desmatamento e ampliar as vantagens competitivas internacionais do Brasil.

No próximo dia 16 de agosto, a Amazônia Brasileira completará 377 anos. É oportuno aproveitar essa importante data para difundir em nossa população a importância de se evitar o desmatamento indiscriminado da Amazônia Brasileira. Mas, quando se fala em combater a biopirataria na Amazônia Brasileira devemos associar a esse importante aspecto o potencial de uso sustentável da nossa biodiversidade.

Portanto, quando se fala em biopirataria, significa obviamente falar em um perigo iminente a nossa soberania. Assim, não devemos negligenciar os interesses e movimentos de outros países na região, cujas ideologias quase sempre são se alinham com os ideais de nossa democracia, felizmente, já consolidada.

Temos que estar alertas, inclusive com nossos vizinhos da América do Sul. Felizmente, os militares das Forças Armadas – Marinha, Exército e Aeronáutica – desempenham com competência sua função de guardiões de nossas fronteiras.

Identificar os inimigos certos e potenciais e quantificar as nossas metas estratégicas é essencial para vencermos a batalha contemporânea pela defesa da Amazônia Brasileira. A questão do narcotráfico, as milícias paramilitares e também a biopirataria devem merecer atenção especial de nossos governantes. A ação de policiamento de nossas fronteiras pode e deve ser fortalecida. Trata-se de defender a nossa soberania e proteger a maior riqueza do Planeta – a Amazônia Brasileira. Pensem nisso!