Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

Fantasias de carnaval

Houve um tempo, que já se vai bem longe, que passei o carnaval espiando pela janela. Passavam os fofões, os caruás (blocos de sujo) e outras brincadeiras, e eu: daqui não saio, daqui ninguém me tira. Não precisaria dizer: estava de castigo. Cometi uma dessas traquinagens imperdoáveis. Não podia ir para praça do Cemitério, palco do desfile popular: corso, blocos, escolas de samba (não tão escolas como as de hoje), o homem que se fantasiava de caveira, a turma que se vestia de mulher, e a sempre esperada Casinha da Roça. Quem não a visse, com o soar ...

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Carnaval, mulheres e amores

Foi num carnaval que o Pierrô se apaixonou por uma Colombina e acabou chorando, chorando. E é no carnaval que o amor desaparece na fumaça, já que saudade é coisa que dá e passa. Mas o carnavalesco não deve desanimar, porque carnaval é carnaval. A experiência de muitos carnavais nos recomenda a seguir o que fez a Colombina: entrar num "butiquim", beber, beber e sair assim, assim. O Pierrô apaixonado que vá tomar sorvete com o Arlequim. Saudade é coisa que dá e passa. Para não se amofinar e vencer os três ou mais dias, o melhor da ...

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O amor não acaba!

Afirmara ela com a veemência de quem nunca deixou de amar. Um só minuto, nem um só dia. Conversávamos. Uma conversa longa em que mais ouvia do que falava. A dor da saudade transcendia em cada frase. Passados mais de vinte anos, o amor ao falecido marido não acabara. Atiçava a sua consciência com a saudade da ausência. A longa ausência, sem a perspectiva do retorno. Acentuava o seu sentimento de solidão. Não estava infeliz. Apenas continuava a amar. Daí ter exclamado com inteira convicção: - O amor não acaba! Está vivo dentro de mim, imorrível.

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Vamos com calma, minha gente

Começo este texto no finalzinho da tarde de terça-feira, dia 23, às vésperas do julgamento do presidente Lula. Não sei ainda qual o resultado. Ouso dizer que da cabeça do juiz Moro tinha eu a certeza do que sairia: a sentença condenatória, cuja fundamentação precisou de 238 páginas, tendo sido muito comentada por juristas da direita e da esquerda, como ocorreu com análise feita na Conjur pelo advogado criminalista Fábio Tofic Simantob, que sublinhou o seu estudo com o seguinte título: "Como o réu é culpado, não é preciso provar a culpa". E conclui pela atipicidade das condutas ...

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Assediar ou paquerar? Ou liberdade de importunar?

Sem o mínimo pejo, responderia o assediador, paquerador ou importunador: - Depende de quem! Ou seja, vai depender do outro ou da outra, como esse outro ou essa outra irão receber a "cantada", ou o leve roçar da mão ou da perna. Bolsonaro, por exemplo, seria mais direto na resposta - até porque tá na moda como presidenciável - e usaria seus recursos de importunador para comer gente. Pelo menos, foi o que ele disse numa entrevista que deu à Folha de São Paulo. Deve ser um exímio paquerador, embora fazendo o indevido uso do auxílio-moradia da Câmara ...

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Inflação à brasileira

- Ih! parece que o gás acabou! Apenas manifestara o seu espanto inicial. Para confirmar e não deixar dúvida, sacudiu o botijão: - Eh! o gás acabou mesmo!! Exclamou com convicção. Disse-lhe que pedisse um botijão, pois a comida recomendava urgência. O tempo da manhã esgotava-se. Pegou o telefone e fez a ligação. Daí a pouco chegava o rapaz, carregando ao braço um botijão de gás. - Olha - o senhor não sabe? - aumentou. Quanto? - Com a entrega, setenta e cinco, respondeu. A empregada: - Já paguei oitenta lá onde moro. Tentei argumentar, referindo ao que ...

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A foto e o tempo

Uma criança, em conversa com sua vó, transmite-lhe esta lição: o vento é o ar com muita pressa. Não tive dúvida, aproveitei esse ensinamento juvenil e disse para mim mesmo: a vida é o tempo que passa depressa. Quanto mais vivemos com pressa, mais a vida se escoa, como a água que tentamos segurar na palma da mão, e ela foge entre os dedos, restando-nos um quase nada. E assim vivemos a luta contra o tempo. Alguns poucos obtêm sucesso, e outros não são tão privilegiados, sucumbindo pela pressa do tempo. Cony, cronista do nosso tempo e autor, ...

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NATAL: Uma prece de paz e amor

PAZ

Esta janela aberta
As cadeiras em roda por volta da mesa
A luz da lâmpada na moringa
Duas meninas que conversam longe...
Paz!
O telefone que descansa
As cortinas azuis que nem balançam

Mas sobre uma cadeira alguém está chorando.
Paz!
(de Manoel de Barros, do livro de poemas Face Imóvel)

Não sei por que, aproximando-se o Natal, esse poema Paz, de Manoel de Barros, me despertou uma contraditória melancolia de felicidade. Seja porque o poeta do Pantanal nos deixou, partindo, em 13 ...

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