Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

Morrer com dignidade (ou a arte de morrer)

Não gosto muito desse assunto. Quase ninguém gosta. Não é verdade? Mas, deixando os meus temores de lado, resolvi enfrentá-lo. Não por acaso, ou por sentir-me corajoso. Não é bem isso. O fato é que estava passando uma vista dolhos nos jornais velhos, nas páginas que tenho por hábito recortar. E vi o rosto risonho de Marielle Franco, ora da sacada de sua casa, ora da tribuna da câmara municipal, ou em uma reunião, a última que fez na Lapa. Ainda se lembram dessa favelada, vereadora ou, em síntese, o ser humano, que, por esses dias, não tão ...

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Janela

Apreciava-se a vida pela janela. Por esse aconchegante retângulo, o sol nascia e se punha no entardecer. Desse espaço, a moça espiava o tempo e desejava que passasse, para ver através dele o seu sonho com olhar de desejo mas cheio de promessas; por ela, as crianças, muitas vezes, expiavam os seus pecados advindos de alguma traquinagem. E o castigo era ficar quieto naquele ventilado vão da casa. (Ora, ora, quantos, como punição, passaram todo o carnaval à janela! No máximo tinham o direito de jogar serpentina ou alguns exíguos confetes.) Por aquele espaço, eu, tantas vezes, ainda ...

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Marielle: vítima de assassinato moral

A direitona é cruel; não respeita nem a morte. Além de a vereadora Marielle Franco ter sido assassinada com quatro tiros na cabeça, disparados por pistola de repetição ou por metralhadora, segundo afirmam os especialistas que têm se manifestado sobre esse bárbaro crime, ainda tem sido vítima do assassinato moral, em que balas de insultos preconceituosos são lançadas contra o seu cadáver, ora sedimentados em cima de mentiras, ora em razão da sua condição de destemida defensora dos direitos dos mais oprimidos, daqueles que sofrem a violência da marginalização social. Na história recente, tivemos outras vítimas. Basta apenas que se ...

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O Poder Judiciário e seus tormentos II

Foi assim: já se vão mais de vinte anos; pra ser preciso, vinte e oito anos. No início da noite, saí de Imperatriz. Peguei o ônibus na rodoviária, com a minha mulher Jacirema e meus três filhos, ainda pequenos, o mais velho Aureliano, hoje juiz de Direito. Viajamos a noite toda. Descemos em Santa Maria, no Pará, e pegamos outro ônibus para Vizeu. Chegamos por volta das dez para as onze horas da manhã. Retiramos as bagagens: malas, caixa de livros, máquina de datilografia, ainda encaixotada, e um farnel, contendo de tudo um pouco, que a minha precavida ...

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O Poder Judiciário e seus tormentos II

Foi assim: já se vão mais de vinte anos; pra ser preciso, vinte e oito anos. No início da noite, saí de Imperatriz. Peguei o ônibus na rodoviária, com a minha mulher Jacirema e meus três filhos, ainda pequenos, o mais velho Aureliano, hoje juiz de Direito. Viajamos a noite toda. Descemos em Santa Maria, no Pará, e pegamos outro ônibus para Vizeu. Chegamos por volta das dez para as onze horas da manhã. Retiramos as bagagens: malas, caixa de livros, máquina de datilografia, ainda encaixotada, e um farnel, contendo de tudo um pouco, que a minha precavida ...

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Ai que saudade de mim!

Quintana, o poeta da simplicidade contraditória, é quem nos diz esse verso no poema Bola de cristal, publicado em A cor do invisível: A praça, o coreto, o quiosque, / as primeiras leituras, os primeiros / versos / e aquelas paixões sem fim... / Todo um mundo submerso, / com suas vozes, seus passos, seus silêncios / - ai que saudade de mim! Nesta primeira parte, o poeta busca e clama por um sentimento oniricamente contido "em todo um mundo submerso". Na segunda parte, Quintana, reverberando certa melancolia do que ficou, como que se afasta daquele momento: Deixo-te ...

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O Poder Judiciário e seus tormentos

A função jurisdicional é exercida constitucionalmente pelo Poder Judiciário, razão pela qual toda a sua atividade se assenta na credibilidade das suas decisões. O magistrado, ao solucionar o conflito de interesses, o faz tendo como centralidade da ação que julga valores fundamentais que integram o patrimônio material e da personalidade de todos aqueles que buscam a sua manifestação, com a finalidade específica de ter uma solução ditada pelo direito e sopesada axiologicamente pela justiça. Direito e justiça, dois institutos impositivos na reflexão de quem julga. Julgar é sempre um desafio, não sendo bastante para alcançar o seu escopo ...

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Fantasias de carnaval

Houve um tempo, que já se vai bem longe, que passei o carnaval espiando pela janela. Passavam os fofões, os caruás (blocos de sujo) e outras brincadeiras, e eu: daqui não saio, daqui ninguém me tira. Não precisaria dizer: estava de castigo. Cometi uma dessas traquinagens imperdoáveis. Não podia ir para praça do Cemitério, palco do desfile popular: corso, blocos, escolas de samba (não tão escolas como as de hoje), o homem que se fantasiava de caveira, a turma que se vestia de mulher, e a sempre esperada Casinha da Roça. Quem não a visse, com o soar ...

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